Jan 4, 2022 | Espiritualidade

Carmelita Secular

Maria, chave da nossa história

Entrelaço o poema de João da Cruz, “Pastorinho” e a Mensagem de Fátima, para olhar de uma forma renovada para a entrega amorosa de Jesus, que ainda hoje espera aceitação e acolhimento !

Um pastorinho está sozinho e com pena
Longe do prazer e do contentamento
Tem na sua pastora posto o pensamento
E muito lastimado o peito do amor
Tem pena do coração da tua mãe que está coberto de espinhos
Que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam
Sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar.[1]
Não chora porque o amor o feriu
Que não lhe dá pena ver-se assim afligido
Ainda que o coração esteja ferido
Mas chora por pensar que está esquecido
A senhora está a chorar[2]
Que só de pensar que está esquecido
Da sua bela pastora com grande pena
Deixa-se maltratar em terra alheia
O peito do amor lastimado
Ela era bonita[3]
E diz o pastorinho: ai infeliz
De quem se ausentou do meu amor
E não quer gozar da minha presença
O peito por seu amor tão lastimado
Se fizerem o que vos digo… terão paz[4]
E ao fim de um tempo subiu
A uma árvore abrindo os belos braços
E morto ficou prendido deles
O peito do amor tão lastimado.[5]
[6]

Até aqui estiveram em diálogo a poesia de São João da Cruz e breves notas da mensagem de Fátima. Ler e meditar nestas verdades provocam um desejo de resposta em sintonia. Ainda que os desejos superem as realizações, não é inútil expressar, com sonhos, a nossa gratidão. Por isso…

Também eu rezando te quero falar
Que inútil não pode ficar o vosso tanto amor
Que não seja vão o meu viver e o meu pensar
Que a vossa vida em mim sej’ó meu valor
Porque permaneces aí meu bom Jesus?
E tu assim minha doce mãe?
Para que me afirme na confiança?
Para que de pé esteja eu também?
Que tenho eu que a minha amizade procuras?
Como, tão pobre, aceitas uma como eu?
Que milagre é este o da oração?
A tua vida vence em mim, ainda que sob um véu
Que tenho eu que a minha amizade procuras?
Comove-me a tua humildade
Para ouvir as minhas dores esqueces as tuas
Para que que viva desde ti, da tua infinita claridade
Quem ama sofre é a vossa lei
Quem soubesse dizer a beleza deste viver!
Fico também eu, como pássaro solitário, a cantar
Pela certeza do céu, convosco, neste sereno padecer.


[1] Cf. MEMÓRIAS da Irmã Lúcia, p. 192 (2007)

[2] IRMÃ LÚCIA a memória que dela temos – Irmã Maria Celina, p.44 (2005)

[3] Documentação crítica de Fátima, seleção de documentos (1917-1930), p. 78 (2013)

[4] Cf. MEMÓRIAS da Irmã Lúcia, p. 208 (2007)

[5] Un pastorcico, San Juan de la Cruz, em Obras completas (2009) – tradução livre

[6] Cf. MEMÓRIAS da Irmã Lúcia, p. 26 (2007)

Ainda que os desejos superem as realizações, não é inútil expressar, com sonhos, a nossa gratidão

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