A águia e o passarinho

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De como um pequenino passarinho (e não uma águia robusta e ágil) nos ensina a confiança e a esperar na misericórdia de Deus. É Santa Teresinha quem no-lo diz a partir da sua experiência pessoal.

Entramos de novo no Claustro, este grande convento habitado pela humanidade, este espaço privilegiado de escuta uns dos outros e do Céu que a todos cobre. Desta vez, deixo-me interpelar por Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, Carmelita Descalça e Doutora da Igreja, que se perguntou: «Como é que uma alma tão imperfeita como a minha poderá aspirar a possuir a plenitude do Amor?» (Manuscrito B, 4vº ). Sim, esta pergunta de Teresa, é também a minha e a de todo ser humano à face da terra: todos queremos viver um amor em plenitude, ou pelo menos estar a caminho.

Pela alma doce de Santa Teresinha sou conduzida à consciência da nossa debilidade e pequenez frente à grandiosidade do amor de Deus.

Na carta 197 que Teresinha escreveu à Irmã Maria do Sagrado Coração, a determinada alturadiz-lhe que «o que lhe agrada [a Deus] é ver-me amar a minha pequenez e a minha pobreza, é a esperança cega que tenho na sua misericórdia». Sente-se ela como uma criança, um pequeno ser, débil e dependente, porque por si só nada pode, e por isso compensa essa pobreza com uma grande confiança.

Recordo aqui o episódio do fariseu e do publicano, no Evangelho de Lucas (18:10-14). Porque sai o publicano justificado e o fariseu não? Não era virtuoso o fariseu? Não era um pecador público o publicano? O problema está na imagem que cada um tinha de Deus e na forma como olhavam para Ele. Diante de Deus, e uns dos outros, ganha e sabe estar no seu lugar quem é humilde, não quem é perfeito.

Ora, é esta humildade e simplicidade que mais nos toca. Consciente da sua pequenez, Teresa de Lisieux abandona-se ao Amor. E é precisamente daqui que partimos, para entender esta tão expressiva parábola da águia e do passarinho que nos apresenta na História de uma Alma. Escreve-nos ela no Manuscrito B 4vº-5rº: «Não sou Águia. Dela tenho simplesmente os olhos e o coração, pois, apesar da minha extrema pequenez, ouso fixar o Sol Divino, o Sol do Amor, e o meu coração sente em si todas [5rº] as aspirações da Águia». O passarinho, com o qual se identifica Teresinha, é débil; mas tem olhos e coração de águia, vive com os olhos fixos em Jesus. Sente em si as aspirações da águia, ave robusta e imponente com os sentidos muito desenvolvidos (Com uma visão de duas a oito vezes mais desenvolvida que a visão humana, é também a única ave que pode olhar de frente para o sol sem ficar encadeada!).

Mas, continua Teresinha: «O passarinho quereria voar para o Sol brilhante que lhe fascina o olhar; quereria imi­tar as Águias, suas irmãs, que vê elevarem-se até ao fogo divino da Santíssima Trindade. Pobre dele! Tudo quanto pode fazer é agitar as suas pequenas asas; mas levantar voo, isso não está no seu pequeno poder!». Ora, sabe Teresinha que só ter coração e olhos da águia não basta! Que fazer então? Abandona-se, confia. Consciente da sua pobreza, coloca-se sem reservas nas mãos de Deus. Afinal, era e sempre fora a mais nova da família, sempre protegida pelas suas irmãs. Por ter sido uma criança pequena e débil, Teresinha aprendeu a não confiar nas suas poucas forças físicas. Repare-se: toda a proteção à sua volta tornara-a muito sensível e impedira-a de se desenvolver no sentido de assumir as responsabilidades de uma casa. No Carmelo chegará a ser acusada de preguiçosa, mas a realidade é que ela não sabia nada das tarefas domésticas, por sempre a isso ter sido poupada pelas suas irmãs mais velhas. Ora, tudo isto que o Senhor vai dispondo no caminho de Teresinha irá prepará-la para percorrer um verdadeiro caminho de pobreza e de pequenez. Na prática das virtudes teologais de fé, esperança e caridade, faz tudo o que pode, cultivando a pobreza, para que Deus se comunique e venha a ela, não segundo as suas obras e méritos, mas segundo o Seu desejo, porque nela encontrará a atitude que lhe permite entregar-se-Lhe por inteiro.

Esta pobreza espiritual significa receber com abundância a graça de Deus.

Sempre rodeada de um grande clima de confiança no seio familiar, Teresinha percebeu como Deus a tomava em Seus braços, e se Lhe entregou de todo. O desenvolvimento da sua afetividade, centrada em Jesus, levou-a a descobrir a sua vocação ao amor, ao amor em plenitude, ela que viveu com amor e rodeada de ternura, sentindo-se amada em todo o tempo.

A verdade é uma: porque estamos sujeitos às nossas debilidades, Teresinha diz-nos que, de quando em vez, nos “distraímos”, e nos deixamos enredar pelas insignificâncias das coisas terrenas e humanas; então: «Não obstante, depois de todas as suas traves­suras, em vez de se ir esconder num canto para chorar a sua miséria e morrer de arrependimento, o passarinho volta-se para o seu Bem-amado Sol, expõe as asitas molhadas aos seus raios benfazejos, geme como a andorinha e, no seu doce cantar, confia, conta em pormenor as suas infidelidades, pensando, no seu temerário abandono, conseguir assim maior influência e atrair mais plenamente o amor d’Aquele que não veio chamar os justos mas os pecadores…».

E depois destas “travessuras” temos, sabemo-lo bem, o sacramento da confissão e a oração, para nos reconhecermos débeis, necessitados de perdão e de misericórdia. Mal o passarinho se apercebe de que cometeu uma falta, e toma consciência da sua infidelidade, logo corre arrependido, sem angústia nem medo, a pedir perdão, pois sabe bem que a confiança humilde é o que mais agrada a Deus! Está seguro de que não vai ser repreendido, mas bem acolhido, porque Jesus veio para salvar os pecadores despertando a sua confiança.

Em Teresinha a sua confiança implicou fugir do extraordinário, e a sua santidade consistiu, precisamente, na aceitação da sua pequenez. Também a Virgem Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, foi modelo de realização plena do seu pequeno caminho, como lhe canta na Poesia 11:

Virgem Maria, apesar da minha pobreza
Quero cantar no final deste belo dia
O cântico do reconhecimento
E a esperança de ser para sempre de Deus.

(…)

E é n’Ele que me quero esconder.
Terei de permanecer sempre pequena
Para vir a merecer os seus olhares
Mas em virtude crescerei depressa

Sob o calor deste astro dos Céus. Caímos, assim, na conta, como uma vida e uma parábola tão simples, como a da Águia e do Passarinho, encerra em si o segredo de uma vida espiritual profunda: como estar diante de nós mesmos, dos outros e do próprio Deus. Se soubermos descobrir qual o nosso lugar, então estamos no caminho do amor pleno que tanto ansiamos! Se, pelo contrário, nos elevarmos ou exaltarmos, ficamos enredados em nós próprios, tomando uma medida pequena: sem olhos de águia nem coração de passarinho. Teresa de Lisieux é perita nesta arte de saber estar no devido lugar, um lugar que nos leva a pôr tudo o que está da nossa parte mas, sobretudo, a viver da confiança nos outros e em Deus.

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