Bispo e poeta

O tempo das sarças de fogo

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I

Hoje
Apenas hoje
Vou ser feliz
Amanhã já terei tempo de chorar
Hoje não
Hoje
Apenas hoje
Vou pegar no meu violão
E cantar o sonho da liberdade
Escrito nas cordas da minha guitarra
Hoje
Apenas hoje
Vou soltar um papagaio de papel
E partir a descobrir os céus
Voar
Hoje
Apenas hoje
Vou ser feliz
Amanhã já terei tempo de chorar!

II

Hoje é tempo de olhar o horizonte
E procurar nuvens grávidas de chuva
E se vires subir do lado do mar
Uma nuvem pequena
Corre que a chuva está a chegar
Diz o profeta.

Hoje é tempo de olhar o horizonte
E descobrir sarças de fogo
E nelas escutar a voz de Deus que chama
Pronunciando o teu nome
Ele te envia a seres mensageiro da liberdade
Nas terras da escravidão.

Hoje é tempo de olhar o horizonte
E descobrir barcos vazios
E pescadores cansados
E ouvir o convite do Mestre
A lançar de novo as redes
E a pesca será abundante.

Hoje é tempo de olhar o horizonte
E descobrir uma cruz erguida
Onde Deus despojado se entrega
E te oferece um amor inteiro
Para que o semeies na tua vida
E o Reino de Deus se faça verdade.

Hoje é tempo de olhar o horizonte
E escutar no canto do vento
A voz do profeta que anuncia
A Boa Nova a Sião
Hoje é tempo de olhar o horizonte
E ver em cada homem um irmão!

III

Que ninguém rasgue os teus poemas
escritos nas folhas do sonho e da dor

Que nenhuma estrela apague a luz e a cor
dos pirilampos do teu jardim

Que nunca chegues até ao fim
dos teus campos
lavrados nas manhãs de Abril

Que nunca as cores do sol poente
apaguem as luzes da madrugada
e as flores murchem na sacada
do lar onde habitas
com teus sonhos e medos

Que nunca tenhas trancadas as portas
do teu viver
mas haja sempre janelas abertas
e beirais com andorinhas
anunciando a Primavera!

Que os cantos das crianças
se ouçam nas ruas dos teus passos
e sejam de abraços
as tuas mãos estendidas
para as horas da manhã.

Sê feliz com a vida
canta e caminha!

IV

Pinta de sol as tuas mãos
Abrindo com os teus dedos estradas de luz
Que iluminem a noite de quem
Se esconde nos seus medos e sombras

Desenha pautas de música
No teu olhar
E canta a vida na contemplação de uma flor
De um voo
De um simples marulhar de uma fonte
Reza e canta

Pinta caminhos de arco-íris com os teus passos
Em tapetes de carquejas floridas
E perfumes de rosmaninho
Há sempre um canto de Verão
Numa amora madura
E nos chilreios de um ninho.

Semeia um canto à vida
Nas sementes de trigo e feno
Que a terra fecunda acolhe e agradece
Sê agricultor de sonhos
E de risos
Em cada dia que amanhece.

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