Professor universitário. Carmelita secular

Não é a cruz. É a aceitação da cruz

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A Cruz, por si, pode apenas causar revolta e mais orgulho, se não for aceite com amor. É o ato de aceitar e entregar-se a Deus que permite a transformação – a imolação – da vontade própria. Jesus imolou-se como o Bem no fogo do Mal. E é isso que somos chamados a fazer, por mais que esta imagem nos fira a sensibilidade. Manter o Bem na presença do Mal, até à imolação.

O reconhecimento do mal, como princípio ativo no mundo, não é consensual. Para muitos o mal é, na verdade, “ausência de bem”. Mas trata-se daquelas posições politicamente corretas que, por ter medo de chamar as coisas pelos nomes, fazem tanto mal ao mundo. Negar a existência do mal é o maior serviço que podemos fazer ao maligno. Adaptando as palavras de C. S. Lewis, “Se os demónios existirem, a primeira coisa que vão fazer é anestesiar-te, para que baixes a guarda. Só se isso falhar é que poderás ficar ciente da sua presença”[1]. Vem isto a propósito de tanto mal a que assistimos horrorizados na Guerra da Ucrânia. Serão todas as atrocidades cometidas, gestos “compreensíveis”, dadas as condições extremas de vida ou morte a que estão submetidos os soldados? Serão eles inimputáveis, por estarem num estado hipnótico de sobrevivência limite? E quem envia milhares de homens para a morte e ordena a destruição de hospitais, escolas e bairros, estará a agir apenas na convicção racional de que faz o melhor para o país? À falta de conhecimentos técnicos para discutir esta questão no campo da psicologia, respondo simplesmente com a minha convicção: Não! Não é apenas isso! Há um princípio ativo do mal que alimenta todas estas barbaridades. Há, na origem de todos estes acontecimentos, decisões deliberadas de matar – escolhas conscientes do mal.

Sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro está sob o jugo do maligno (1 João 5-19)

Vivemos, portanto, no mundo, e o mundo é essencialmente o reino do maligno. Se olharmos para a História, essa História gloriosa de que a maior parte das nações se orgulha, veremos que em grande parte é construída em torno de acontecimentos motivados pela cobiça, ou pela vã glória, quer na perspetiva dos perpetradores, quer na perspetiva das vítimas. Desta forma, pode dizer-se que a porta de entrada do mal é o apego às coisas do mundo. Foi este apego que, em última análise, levou Caim a matar Abel.

O mundo é, decididamente, feito de luzes e sombras, e olhar apenas para a luz é, como se diz hoje, “positividade tóxica”. Sim, é verdade, a Natureza é muito bonita, e um hino ao Criador. Os passarinhos a cantar, as abelhas a polinizar, as cores das flores – que sinfonia maravilhosa! Mas há o outro lado: o leão que devora a gazela, o gnu que parte uma perna e é abandonado pela manada, as crias que caem do ninho e morrem de fome – que sofrimento atroz por todo o lado! Realmente, olhando para a Natureza de forma desapaixonada, percebe-se que há um equilíbrio entre criação e destruição.

Durante muito tempo achei que se o mundo tivesse um criador, então ele deveria ter um gosto sádico pelo sofrimento. Passados muitos anos, volto recorrentemente ao tema. E sei que que estou a perder tempo, sempre a olhar para trás, como a mulher de Lot. E corro o risco de me transformar, como ela, numa estátua de sal. E volto, também recorrentemente, a esconder-me nos “desígnios misteriosos de Deus” e a aceitar as coisas como são, oferecendo e vivendo o sofrimento que não entendo, por amor. Continuo essa corrida movido pela tal luz obscura da fé, que me mantém no caminho – lá está -, não sei bem porquê.

Mas parece-me que percebi alguma coisa nova, e é essa coisa nova que queria partilhar convosco. A sensação de injustiça que temos face aos acontecimentos do mundo está, na verdade, enraizada no nosso apego ao mundo. Temos uma perspetiva enviesada. Nós olhamos para o drama da vida desde a perspetiva do mundo, esse que está sob o jugo do maligno, e por isso só conseguimos pensar em termos de auto preservação. Assim, a lei do próprio mundo, que é a ação contínua da criação e da destruição, entra em conflito com as nossas aspirações mais profundas à estabilidade. É o mundo a ser contraditório consigo próprio – e essa é a lógica do mundo.

E que fez Jesus contra as injustiças e os males do seu tempo? Um partido contra os corruptos? Uma fação terrorista para lutar contra os ocupantes romanos? Não. Jesus não formou, que se saiba, nenhum sindicato ou organização civil para lutar pelos direitos dos oprimidos. A sua única proposta foi permanecer no Bem (“Permanecei em Mim”) e deixar-se imolar pelo Mal.

Sim, é essa a palavra: Jesus deixou-se imolar, livremente, pelo mal. Um mal que, mais do que perpetrado pelos romanos, teve a sua verdadeira origem nos sacerdotes do Templo. São os falsos deuses que levam às maiores atrocidades.

Mas então, o que fazer e pensar relativamente ao mal e, de uma forma mais geral, o que fazer e pensar relativamente ao sofrimento que perpassa o mundo? A resposta, que está exposta há dois mil anos, escarrapachada e óbvia, tão óbvia que quase ninguém a vê, é: deixar-se imolar, como Jesus.

“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas.” (Mt 5, 39-41)

Imolar-se é negar o orgulho, que foi, e é, o pecado original; e negar também o instinto de auto preservação, que resulta do apego ao mundo. Imolar-se é, por isso, um absurdo racional, mesmo aos meus olhos, quando sair do transe desta escrita.

“nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 1, 23)

Neste teatro cósmico em que fomos colocados, há filhos da Luz, filhos da Trevas e outros (muitos) assim-assim. Não sabemos porque é assim. Não sabemos porque é que Deus não quer evitar este drama. Provavelmente porque somos todos Cristo e todos havemos de ressuscitar para a Luz, depois de perguntar a vida toda “Pai, porque me abandonaste?”, purificando o amor ao ponto da confiança absoluta. Mas, independentemente da razão, os filhos da Luz devem ser isso mesmo: pontos de luz irrepreensíveis.

Vós sois a luz do mundo Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; ninguém acende a candeia para a coloca debaixo do alqueire, mas sim em cima velador, e assim alumia a todos os que estão em casa.” (Mt 5, 14-15)

E a preservação da Luz quer dizer intransigência com as trevas. Mas, neste caso, esta intransigência é a imolação da luz – pura – pelas trevas. A imolação é, na verdade, a Cruz. A Cruz, por si, pode apenas causar revolta e mais orgulho, se não for aceite com amor. É o ato de aceitar e entregar-se a Deus que permite a transformação – a imolação – da vontade própria. Jesus imolou-se como o Bem no fogo do Mal. E é isso que somos chamados a fazer, por mais que esta imagem nos fira a sensibilidade. Manter o Bem na presença do Mal, até à imolação. É a nossa função como cristãos, até ao heroísmo. Por isso, o que mais precisamos é que Deus nos ensine a sofrer. Como dizia Simone Weil, a grande dádiva que podemos dar a alguém é ensinar que pode haver forma de aceitar o sofrimento:

“(…) numa época como a nossa [1942], onde a infelicidade paira sobre todos, o socorro trazido às almas só é eficaz se conseguir prepará-las, realmente, para o infortúnio. Não é pouca coisa” [2]

Por infortúnio, Simone Weil descreve aqui o estado mais abjeto e último do desespero humano. Esse estado a que Jesus chegou na Cruz, sem mais nada a não ser dor. Abandono absoluto, desespero absoluto, nada absoluto. Não há luz no infortúnio de Simone Weil, não há nada de atraente, nem interessante, nem espiritual. O infortúnio é o fim da linha, é o extermínio do eu. É então que Deus resgata o náufrago para Si.

E é este abandono no infortúnio, até à imolação na Cruz, que revisitamos todos os anos na Quaresma. Realmente, é tudo tão estranho para a nossa razão, pregada a este chão material, que é preciso repetir todos os anos este exercício de tentar perceber a transcendência de toda a Paixão. Como para Deus não há a dimensão temporal em que vivemos, as palavras

“A minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai comigo.” (Mt 26, 38)

continuam a ser-nos dirigidas ainda hoje. E o que fazer para manifestar fidelidade a este apelo?

“A fidelidade que o Mestre vos pede,
consiste em vos manterdes em comunhão de Amor,
em vos enraizar neste Amor que vos quer marcar a alma
com o selo de seu poder e grandeza.” [3]

Assim, passámos do mal e do sofrimento no mundo ao Amor de Jesus. Porque, na verdade, esse Amor que parece ausente do mundo é o que nos suporta a suportá-lo.

Uma Santa Quaresma para todos!

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[1] Tradução livre, C. S. Lewis. “God in the Dock”, Wm. B. Eerdmans Publishing, 2014

[2] Simone Weil, “Espera de Deus”, capítulo “O amor de Deus e o infortúnio”, Editora Vozes, 2019

[3] Isabel da Trindade, “Escritos Espirituais”, capítulo “Deixa-te amar”, pto. 6, Edições Carmelo, 1989

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