Mar 14, 2023 | Casa comum, Vida da Terra

Professora aposentada. Carmelita secular.

Em busca de um novo modelo científico para as dinâmicas naturais

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O modelo do clímax dos continentes mantém-se porque muitos grupos sociais, geralmente os mais favorecidos, querem olhar para uma paisagem vegetal ou rural como se fosse natural. Mas é uma ilusão. É tão pouco natural como uma paisagem urbana com os seus espaços e corredores verdes.

Neste início do século XXI, as ciências biológicas e ecológicas ainda são tributárias da ecologia vegetal recém-nascida nas duas primeiras décadas do século passado. Em 1916, o botânico Frederic Clements, considerado um dos primeiros ecólogos americanos, publicava Plant Sucession, onde explica que o caráter dinâmico da vegetação é determinado pelas condições naturais, essencialmenteclimáticas, excluindo as intervenções humanas. O modelo desenvolve-se numa sucessão de meios transitórios até aomeio natural final mais complexo, o clímax, modelo de estabilidade entre clima, vegetação e solos.

De notar que F. Clements elaborou o seu modelobaseando-se em pesquisas empíricas das pradarias do Oeste dos Estados-Unidos, com um clima continental frio no inverno, quente e seco no verão, com os seus bisontes e as tribos de índios que povoavam a imensidão das planícies, antes de serem ocupadas e cultivadas pelos colonos de Leste. Paradoxo da exclusão do ser humano num conceito científico, que é fruto da cultura da época nesta frente pioneira da colonização das terras. Quem é excluído? O “homem branco civilizado” que veio destruir o clímax, mas não o índio que percorria a pradaria há milénios.

O conceito de clímax ganhou uma maior projeção, quando a ecologia americana o integrou no ecossistema. Logo se globalizou a ideia de interação entre clima, vegetação e solos, que favorece um clímax de floresta fechada ou aberta,de pradaria, tundra, savana… ou deserto, conforme as zonas ou regiões climáticas da terra. E.P. Odum não deixou de sublinhar que a sucessão ecológica termina por um clímax biológico, conceito definido como “comunidade final ou estável, teoricamente autoperpetuante, porque em equilíbrio dentro de si mesma e com o habitat físico”. 

No hemisfério norte, foi reconhecido um estado de estabilidade dos elementos clima-solo-flora-fauna, o ótimo climático, que se teria estabelecido há cerca de 6500-5500 anos antes do presente, após uma sucessão progressiva de colonização vegetal iniciada após o recuo dos mantos de gelo da última glaciação do planeta. 

No contexto de quase todo o território europeu, este estado corresponde a diversos tipos de floresta natural, com uma composição arbórea adaptada às condições climáticas e edáficas regionais ou locais. Por exemplo, em Portugal, as árvores e arbustos hoje mais representativos pertencem ao género botânico Quercus (várias espécies de carvalhos, sobreiro, azinheira e carrasco). As alterações de origem antrópica são interpretadas como fatores de degradação, até ao desencadeamento de uma sucessão regressiva e da substituição da floresta natural primitiva por outras formações vegetais menos complexas.

No entanto, a evolução do meio natural até ao clímax foi abalada quando se verificou a importância das variações de alguns mecanismos, que não estão “previstas” no modelo. A auto-organização é um princípio chave do funcionamento e da evolução dos sistemas naturais abertos, que possuem mecanismos autónomos, quer biológicos, por exemplo a fotossíntese ou a evolução e diversidade genética, quer físicos, tais como os processos ligados às forças gravitacionale sísmica, ou ao fogo natural. Mas esta autoorganização natural não é um princípio fixista; pelo contrário, está em contínua transformação num processo de duração aleatória, pois há sempre “acidentes históricos”, de origem biológiconatural, que perturbam o modelo. 

Por outro lado, as técnicas utilizadas pelas paleo-ciências, por exemplo, o estudo dos pólens (palinologia) ou dos carvões encontrados nas escavações arqueológicas (antracologia), com datações C14 ou outros métodos(dendrocronologia e termoluminescência), aprofundaramimenso os conhecimentos na História do Ambiente e da Antropologia das comunidades humanas préhistóricas, comsuas práticas e seus quadros territoriais próprios. 

Os efeitos da intervenção humana no ambiente natural iniciaram-se numa época muito mais remota do que se pensava anteriormente, ou seja, quando os meios naturais dos continentes se encontravam ainda num estado de instabilidade, subsequente à subida do nível do mardecorrente do derretimento do gelo após a última glaciação. No sul da Europa e no Médio-Oriente, não será muito descabida a ideia de que as primeiras intervenções humanas, sobretudo pelo uso do fogo e a exploração dos recursosvegetais, tenham sido contemporâneas da instalação dos meios climácicos. Desde o início da presença humana na biosfera, os meios biofísicos evoluíram sempre com as interferências da ação de seres humanos que também fazem parte da natureza.

O modelo do clímax dos continentes mantém-se porque muitos grupos sociais, geralmente os mais favorecidos, querem olhar para uma paisagem vegetal ou rural como se fosse natural. Mas é uma ilusão. É tão pouco natural como uma paisagem urbana com os seus espaços e corredores verdes. O clímax permanece apenas como uma noção de referência na gestão dos territórios, em que se articulam natureza e cultura.

«É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros» (Papa Bento XVI, Caridade em verdade, 2009, 51).

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