Abr 11, 2023 | Caminhamos juntos, Casa comum

Carmelita Secular

Sei que caminho como quem é olhado, amado e conhecido!

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Quando olho para trás, mais do que o meu esforço ou as minhas capacidades, vislumbro sinais de uma Presença constante e transformadora que me acompanha e me faz encarar o futuro com confiança e os novos desafios com determinação.

Na semana passada, fiz o Caminho Português de Santiago, partindo de Valença. Há muito que desejava voltar a viver esta experiência. Desta vez, fi-lo sozinho: 5 dias a caminho, num total de, mais ou menos, 122km. Nas palavras que se seguem, gostava de partilhar um pouco desta vivência.

Da motivação à decisão

Os últimos anos têm sido bastante intensos e com inúmeros desafios. Na exigente sucessão dos dias, nem sempre temos a clareza para ver além do dia de amanhã. Compromissos, urgências, problemas, … enfim, os dias tornam-se pequenos e o tempo escasso.

Ao longo dos últimos meses, fui tomando consciência que, de uma forma por vezes inesperada, tudo se foi compondo e organizando. Quando olho para trás, mais do que o meu esforço ou as minhas capacidades, vislumbro sinais de uma Presença constante e transformadora que me acompanha e me faz encarar o futuro com confiança e os novos desafios com determinação.

Mais do que a necessidade de parar, foi este sentido de imensa gratidão que me fez pôs os pés ao caminho. Depois da decisão, vieram os preparativos, ainda que sem grande rigor, quanto à logística, às datas, às etapas… Parti sem grandes expetativas e impos a mim mesmo algumas “regras de isolamento”, para me dispor a acolher o caminho.

O caminho de cada dia

A experiência de fazer o caminho sozinho não era algo que me assustasse, apesar de saber que seria um fator de maior preocupação para as pessoas que ficam e que me querem bem. Encarei esta solidão como uma oportunidade de “reservar um tempo e um lugar para Deus e para Deus só”[1].

No final da primeira etapa entre Valença e Mos, percorridos os primeiros 35km, já no Albergue, deparei-me com o salmo proposto para esse dia: “Ainda que passe por vales tenebrosos, nada temo, porque Vós estais comigo”. Nos outros dias do caminho, as palavras do Salmo 22 foram ecoando no meu coração: “O Senhor é o meu pastor: nada me falta (…) Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome (…) Não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo”.

No segundo dia, levantei-me bem cedo para enfrentar aquela que à partida seria a etapa mais exigente. Descobri que o famoso provérbio popular não se aplica ao caminho e que, afinal, a descer nem os santos ajudam.

O caminho traz consigo uma experiência de ritmo, de improviso, de incerteza e de sofrimento. E quando o fazemos sozinhos, torna-se numa vivência mais intensa em diversos aspetos. Pelo isolamento, fui vezes sem conta envolvido pela natureza circundante. Recordo-me concretamente do chilrear quase ensurdecedor de (talvez) centenas de pássaros na madrugada do terceiro dia. Um som vivo e mais presente do que a luz do dia. Em grande parte do percurso, fui acompanhado pelo som constante da água a correr nos riachos, nas levadas e mesmo pelo caminho. As paisagens estavam cobertas de tons vivos, de diferentes verdes, amarelos e azuis, próprios da estação. Respirar fundo, sentir o ar puro e fresco, revigora o ânimo e a confiança. Recordei uma bela frase de São João da Cruz: “Deus é como um sol suspenso sobre as almas, pronto a comunicar-se”.

Ao fazer o caminho sozinho, o sofrimento torna-se também mais intenso e leva-nos a uma luta constante entre o cansaço, a dor e a necessidade de continuar. É uma experiência, em certo sentido, de ascese e de controlo que purifica. Nesse aspeto, a etapa do 3 dia, entre Pontevedra e Caldas de Reis, foi a mais exigente em termos físicos, apesar de ser a mais acessível em termos de percurso. No final desse dia, tive dúvidas se chegaria ao destino…

Na etapa do 4 dia, entre Caldas de Reis e Padrón cruzei-me novamente com um alemão que tinha visto na tarde do primeiro dia. Acabámos por ir largos quilómetros lado a lado, ele debilitado do tornozelo e eu do joelho. No final da etapa, agradecemo-nos mutuamente: o caminho de cada um, nesse dia, tinha-se tornado mais fácil!

A etapa do último dia começou bem cedo e com muito sono. Dormir em camaratas pode revelar-se uma missão difícil, sobretudo se tens a escassos metros de ti, alguém a ressonar assustadoramente alto. Nesse dia, os primeiros 18km dos 26km passaram a correr, apesar da chuva e do vento. Os restantes foram uma luta contra ansiedade o cansaço, enquanto era invadido por uma estranha pressa de chegar.

“Jesus aproximou-se e pôs-se a caminho com eles”

A experiência do caminho é tanto mais significativa, quanto mais nos predispomos a vivê-la. Num mundo cada vez mais cómodo, experimentar a incerteza de saber se temos lugar quando chegamos ao albergue municipal, se vamos conseguir descansar ou qual o tempo fará no dia seguinte, faz-nos mais desprendidos. Num mundo cada vez mais tecnológico, conectado e cheio de informação, experimentar o isolamento e o silêncio faz-nos mais sensíveis. Num mundo em que tudo acontece a correr, sujeitarmo-nos ao ritmo de cada passada, faz-nos mais pacientes.

Assumi o Caminho de Santiago como um caminho espiritual: dispus-me a caminhar, aceitei as contrariedades que o caminho impõe e fui descobrindo que, na verdade, não caminho sozinho: Jesus põe-se a caminho comigo. Esta é a certeza que renovei na minha vida!

“Apenas sei que caminho
Como quem é olhado, amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco” (Sophia de Mello Breyner)


[1] Mendonça, José Tolentino, O Tesouro Escondido. Para uma arte da procura interior. Paulinas, Prior Velho, 2019, p. 30.

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