Professora numa Escola artística

Da autenticidade do fazer artístico

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Toda a forma autêntica de arte é, a seu modo, um caminho de acesso à realidade mais profunda do homem e do mundo. E, como tal, constitui um meio muito válido de aproximação ao horizonte da fé, onde a existência humana encontra a sua plena interpretação. Por isso é que a plenitude evangélica da verdade não podia deixar de suscitar, logo desde os primórdios, o interesse dos artistas, sensíveis por natureza a todas as manifestações da beleza íntima da realidade.

Quando um artista se põe a criar, numa prática constante como se não soubesse ou pudesse fazer outra coisa senão dar resposta a essa urgência, não é ele que afirma: – isto é uma obra de arte ou, hoje vou fazer uma obra de arte. Não é assim! O artista faz o que sabe fazer, mostra o seu trabalho porque é essencial mostrá-lo, vende-o, porque é justo que o seu trabalho seja remunerado, mas, só um dia, talvez apenas postumamente, aquela obra poderá revelar-se como uma obra de arte.

Porquê?

O que define uma obra de arte?

Porque é que nem toda a criação artística vem a ser considerada uma obra de arte?

Qual a diferença entre arte e obra de arte?

Qual é o critério e quem decide?

São perguntas que me ponho constantemente, mas que apenas ensaio respostas. Não que as não haja, mas porque ainda não se me foram reveladas, e a História da Arte não me conseguiu dar essas respostas até hoje.

A Verdade é como a Beleza, é objetiva, real e concreta; para nós cristãos é, até, uma Pessoa; e temos uma vida inteira para irmos na Sua direção, pelo Caminho que essa Pessoa é. Portanto, saber que a Beleza existe e onde ela está, é ir, ir sem hesitar, fazendo tudo com a autenticidade que a Verdade exige. Para isso é preciso que tenhamos a consciência da grandeza do fazer artístico, a atividade mais plenamente humana[1]

A Modernidade, porém, parece ter aprisionado a arte e o fazer artístico; desarticulou-a dos outros saberes, tal como os desarticulou, também, entre si, e atribuiu-lhe um fim em si mesma e com regras próprias. Começou, então, a servir-se a ela própria e agora devorou-se totalmente. Sobrou muito pouco. A velha autonomia da arte, legado Iluminista, está caduca e nem sabemos o que fazer porque já não temos referenciais. Parece-me que tateamos espiritualidades várias na busca de qualquer coisa que não encontramos porque essas espiritualidades estão desencarnadas de uma realidade que é estável. Ou então, porque são espiritualidades que o não são. Os artistas contemporâneos, salvo aqueles que fazem uma arte de autêntica busca da Verdade, que é também a Beleza, têm como objeto uma meta que ficou aquém sem saberem como ir além. Agora queremos libertar-nos dessas amarras e já não sabemos como porque perdemos o foco do nosso olhar, a meta. A meta deixou de ser metafísica e passou a ser somente a física. E a arte tornou-se autorreferencial, terapia, arteterapia; deixou de procurar verdades universais e passou a mostrar apenas verdades pessoais.

Uma obra de arte é, precisamente isto – o toque de uma alma[2] na Verdade Universal; que já foi tocada por outras almas, outros artistas de todos os tempos. Quando uma alma toca uma verdade universal e a representa materialmente, essa verdade universal entra na História e faz-se visível a quem a contempla, não importa quão antiga seja, nem em que cultura surge porque todas as religiões evocam, a seu modo, as realidades invisíveis através da arte[3]. É por isso que compreendo o conceito de clássico na arte como uma obra eternamente contemporânea – um clássico é uma obra eternamente contemporânea – porque a cada época e a cada olhar novo, a obra se atualiza, se faz contemporânea à alma que a contempla. Essa realidade estável que a obra representa, não mudou, exatamente porque é estável, é da ordem do ser, é ontológica.

O critério da validação de um objeto artístico em obra de arte poderá estar, então, no reconhecimento unânime de que aquela obra nos revela uma verdade universal – não é, pois, uma certa estética, uma certa paleta cromática, não é um certo modo de fazer, não é uma técnica, não é um nome, não é sequer um mercado ou um preço que confere valor a uma obra de arte, mas sim enquanto obra que se fundamenta no próprio ser.  O ser do Criador, o ser daquilo que por Ele é criado, o ser do artista, o ser do espaço e do tempo e das outras pessoas e realidades em que vive o artista[4]. A estética, a paleta cromática, o estilo pessoal, a técnica particular, a matéria, são de facto muito importantes para a obra de arte, são a sua materialização, mas não são, em si, a totalidade do que faz manifestar uma obra de arte. A elevação à categoria de obra de arte torna-se unânime não por decreto, ou por decisão de uma comissão, mas porque a obra se impõe por ela mesma a partir desta unidade de ser. E é o tempo, a passagem do tempo e das gerações, desvinculados das ideologias e mentalidades próprias de cada época, que esculpiram um certo modo de ver, incapaz de ver para além daquilo em que se tornaram, que irão olhar com olhos novos e limpos para aquela obra, e ver o que antes lhes estava opaco. São os artistas do próximo tempo que, alimentados nesta fonte de conhecimento que são os artistas de todos os tempos, que irão conferir a densidade universal da obra. Foi assim em todos os tempos, e continuará misteriosamente a sê-lo nos próximos tempos, porque poucas obras de arte serão reconhecidas no seu próprio tempo, tal como os profetas não o foram no seu próprio espaço.

De todos os modos é válido todo o trabalho artístico, mesmo o que não atinge esta categoria superior de obra de arte; porque toda a criação humana que tenha parte na beleza é arte. Porque o Belo é também o Verdadeiro. O que não pode haver, talvez, é gradações na autenticidade que pomos naquilo que fazemos. Ou é autêntico, ou não é. Não se pode dizer que algo é menos autêntico porque quando é menos autêntico, então já não o é de todo. Este fazer artístico que não chegará à categoria de obra de arte, talvez dependa, apenas, com que beleza se harmoniza esse objeto artístico: se se harmoniza com a beleza natural, poderá atingir um certo grau de beleza sem desvirtuar a verdade do que representa; se se harmoniza com a beleza sobrenatural, atingirá um outro grau de beleza do mesmo modo, com todas as impressões particulares da identidade que a cria.

Tenho imagens muito belas, gravadas na minha memória, da beleza de uma certa aldeia no Gerês em que cada construção humana resulta numa total harmonia com a natureza, tanto nos materiais como nas formas usadas para construir os muros, as levadas, as casas, os currais, o lavadouro público e tantos artefactos agrícolas. Estas criações também são arte porque integram uma beleza natural, universal e são plenamente humanas.

Mas compreendemos que falamos de uma outra ordem de beleza ao contemplar a Capela Sistina, ou o David de Miguel Ângelo, ou qualquer uma das obras de Georges de la Tour.

Esta autenticidade de que falo aqui, e que creio, será a mesma de que fala o Papa João Paulo II nesta Carta, é uma autenticidade que surge da experiência de comunhão do artista com todos os artistas de todas as épocas e culturas; será o mesmo que dizer que, cada artista, traz no seu bojo toda a arte que lhe antecedeu o que origina que em cada obra de arte não deveremos encontrar nada da personalidade daquela pessoa, mas uma realidade para lá dele, universal, uma sabedoria que o transcende. O mérito do artista, não está em imprimir a sua personalidade nas obras mas, das suas experiências pessoais, aquelas que o formam como ser individual e original, saber destilá-las e fazer aparecer apenas aquilo que é universal.

T.S. Elliot diz-nos de modo muito sagaz, em Ensaios, no texto Tradição e Talento Individual – e que me parece importante deixar aqui como ponta solta para um próximo discernimento –, que nenhum poeta, nenhum artista tem a sua significação sozinho. O seu significado e a apreciação que dele fazemos constituem a apreciação da sua relação com os poetas e artistas mortos. E ainda, um pouco mais à frente Alguém disse: «os escritores mortos estão distantes de nós porque nós conhecemos muito mais do que eles conheceram». Exatamente, e são eles aquilo que conhecemos[5].


[1] Cfr Urbina, Pedro António, Filocalia o Amor a la Belleza, 1988. Madrid: Rialp. p. 42.

[2] Entendo a alma, aqui, no sentido que Edith Stein lhe dá na sua obra “Estrutura da Pessoa Humana”, o núcleo da pessoa humana, a unidade formada pela psique e pelo espírito cujas faculdades principais são a razão e a liberdade.

[3] Cfr Carta aos Artistas, último parágrafo da sétima entrada.

[4] Cfr URBINA, Filocalia o Amor a la Belleza. p. 42.

[5] Cfr Elliot, T. S., Ensaios -Tradição e Talento Individual. 1989. São Paulo: Arte Editora. pp. 39 e 41.

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