Mai 23, 2023 | Até quando?, Desafios

Sobre o Discernimento

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Se no meu anterior texto, abordei a Lógica do Dom, hoje quero abordar, enquanto esforço de síntese, a Urgência do Discernimento, recordando a minha participação no Encontro Nacional de Formação «Para uma pastoral juvenil sinodal», que se realizou no Seminário de Leiria, entre 8 e 11 de setembro de 2022, tendo como orientador o Pe.  Koldo Gutierrez Cuesta.

Ora, este discernimento é não só pessoal, como também comunitário. Aliás, o exercício do discernimento está no centro nos processos e acontecimentos sinodais.

Trata-se de determinar e percorrer, como Igreja, mediante a interpretação teologal dos sinais dos tempos, e guiados pelo Espírito Santo, o caminho a seguir no serviço do desígnio de Deus escatologicamente realizado em Cristo e que se deve atualizar em cada kairós da História. Ou seja, o discernimento comunitário permite descobrir e interpretar um chamamento que Deus nos faz escutar numa situação determinada da Histórica.

Na Sagrada Escritura, aprendemos que Deus nos faz capazes de escutar e responder.  Por exemplo, no relato da Sarça Ardente, identificamos o processo de discernimento da vocação de Moisés. O texto recolhe um diálogo entre Deus e Moisés; num primeiro momento, Deus fala e Moisés escuta. Comunica que ouviu as súplicas de angústia do povo de Israel e que o escolheu para libertar esse mesmo (seu) povo. Então é Moisés quem responde. E antes de aceitar esta missão, experimenta uma luta interior (discernimento) e que o leva a objetar por cinco vezes (Ex. 3, 1-23).

No Novo Testamento, percebemos que Jesus está habituado a discernir. Momentos importantes deste processo foram, por exemplo, o Seu Batismo (Mc 1, 9-11), as tentações no deserto (Mt 4, 1-11) e a oração dramática no Getsémani (Mt 26, 36-46).

Mas a Escritura também nos apresenta Jesus a propor discernimento aos seus discípulos: “Vieram ter com Ele os fariseus e saduceus para o tentar e pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal do céu. Ele, em resposta, disse-lhes: «Ao cair da tarde dizeis: “Vai estar bom tempo, porque o céu está avermelhado”. E de manhã cedo: “Hoje vai haver temporal, porque o céu está vermelho-escuro”. Sabeis discernir o aspeto do céu, mas não sois capazes de discernir os sinais dos tempos? Geração má e adúltera que procura um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. Ele, deixando-os, foi-se embora.» (Mt 16, 1-4). Ora, este texto bíblico fala especificamente de discernimento. Jesus responsabiliza os saduceus e fariseus pela sua falta de vontade em ler os sinais de Deus e de descobrir o tempo oportuno. O discernimento procura encontrar o melhor caminho, procura conectar-se com a vontade divina. Este texto mostra-nos, pois, a autoridade de Jesus na vida de discernimento do discípulo.

Nos Actos dos Apóstolos encontramos muitas referências à presença do Espírito Santo: na escolha de Matias como substituto de Judas (Actos 1, 12-26) e na eleição dos sete diáconos com a missão de cuidar da comunidade helenista (Atos 6:1-5); e podemos ver também o discernimento comunitário que se estabelece na comunidade de Jerusalém pelo qual os gentios não são forçados a converterem-se ao judaísmo para que possam ser cristãos (Actos 15, 1-35).

De facto, o Espírito Santo é o grande protagonista do discernimento.

É São Paulo quem tem a doutrina mais elaborada sobre o discernimento. Na Carta aos Romanos, confrontado com uma situação complexa vivida pelos cristãos de Roma, propõe: “Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito” (Rom 12, 2).

A vontade de Deus não é, pois, um fardo pesado. Antes um dom. Reconhecemos, com espanto, que Deus nos quer bem, quer o melhor para nós e que nos pede colaboração. Discernir é livrarmo-nos de tudo o que não nos permite entregar-nos a Deus e à sua vontade libertadora.

A proposta pastoral e até o estilo de governo do Papa Francisco têm no discernimento uma das suas principais características. O discernimento, mais do que uma metodologia, é um modo de ser e de estar, iluminados na vida pela luz da fé.

Onde encontramos os seus alicerces? “O discernimento é simultaneamente o método e a meta a que nos propomos: baseia-se na convicção de que Deus atua na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e que me falam” (Papa Francisco, Angelus, 28 de novembro).

Deste modo:

  1. Deus atua na História e nas pessoas;
  2. O Espírito Santo vem em nossa ajuda;
  3. Os discípulos de Cristo devem ser contemplativos da Palavra e também contemplativos do Povo;
  4. É Deus o primeiro protagonista do discernimento. O segundo somos nós mesmos, já que Deus nos fez capazes e nos ama.

Com efeito, hoje falamos muito de Igreja Sinodal. Ora bem, Igreja Sinodal é uma Igreja, também ela, em permanente discernimento, uma Igreja da Escuta e da Palavra.

A escuta não é uma estratégia, mas tem um grande valor teológico. De facto, Deus vê a miséria do seu povo e ouve o seu lamento, comover-se e desce para o libertar. A Igreja, então, pela escuta, entra no movimento de Deus que, no Filho, sai ao encontro de cada pessoa.

E para escutar é importante estar presente na vida das pessoas.

Na Fratelli Tutti, o Papa Francisco recorda mais uma vez a importância do diálogo. O diálogo não é uma mera troca de opiniões, nem uma cadeia de monólogos, nem uma defesa acérrima das próprias opiniões, nem a imposição de um modo de pensar. Então, o que é o diálogo? “Aproximar-se, expressar, ouvir, olhar, conhecer, tentar entender, procurar pontos comuns ou de contacto… Para nos encontrarmos e ajudarmo-nos uns aos outros, precisamos dialogar.

Quero concluir, por agora, – no próximo texto abordaremos o Discernimento Pastoral – e porque escrevo a pedido dos Carmelitas Descalços, com o Discernimento Orante.

Na exortação Gaudete et Exultate (GE), o Santo Padre oferece-nos algumas notas sobre o discernimento. Diz que é apresentada como uma necessidade imperativa e como um Dom Sobrenatural. “Lembremo-nos sempre que o discernimento é uma graça. Embora inclua a razão e a prudência, ultrapassa-as, porque se trata de vislumbrar o mistério do desígnio único e irrepetível que Deus tem para cada um e que se realiza no meio dos mais variados contextos e limites» (GE 170).

O silêncio e a oração são essenciais para o discernimento. “Devemos recordar que o discernimento orante exige partir da disponibilidade para a escutar: escutar o Senhor, os outros, e a própria realidade que nos desafia sempre de novas maneiras. Só quem está disposto a ouvir tem a liberdade de renunciar ao seu próprio ponto de vista parcial ou insuficiente bem como aos seus costumes e aos seus esquemas. Desta forma, estaremos realmente disponíveis para aceitar uma proposta que quebra seguranças e comodismos e que nos leva a uma vida melhor, porque não basta que tudo corra bem, que tudo esteja calmo. Deus pode estar a oferecer algo mais, e com tantas confortáveis distrações, não O reconhecemos” (GE 172).

É o Espírito Santo que faz emergir, na realidade, a novidade do Evangelho. «Tal atitude de escuta implica, sem dúvida, a obediência ao Evangelho como último critério, mas também ao Magistério que o guarda, procurando encontrar no tesouro da Igreja o que há de mais fecundo para o momento presente da salvação» (GE 173). E para isso é necessário educar-se na paciência de Deus. “Não se discerne para descobrir o que mais podemos tirar desta vida, mas antes para entender como podemos cumprir melhor aquela missão que nos foi confiada no Batismo. E isso implica estar disposto a algumas renúncias, até darmos tudo” (GE 174).

Como podemos cumprir melhor aquela missão que nos foi confiada no Batismo?

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