Jun 20, 2023 | Desafios, Entre fé e ciência

Médico – Carmelita Secular

O extraordinário valor das pessoas com deficiência

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O Papa Francisco dirige-se a todos aqueles que “vivem uma condição de deficiência qualquer”, para lhes dizer que a Igreja os ama e precisa de cada um deles “para cumprir a sua missão ao serviço do Evangelho”. Precisamos de olhar para estes cidadãos com os olhos de Cristo, que sempre os acolheu, lhes dirigiu a palavra e valorizou a sua dignidade e individualidade, revelando que Deus os ama incondicionalmente.

O Dia Internacional das Pessoas com Deficiência é celebrado anualmente a 3 de dezembro e o seu objetivo é promover os direitos e bem-estar das pessoas com deficiência, na sociedade e a sua participação nos vários domínios social, cultural, económico e político. Este dia foi proclamado através da Resolução 47/3, adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas de 18 de dezembro de 1992, onde as Nações Unidas salientavam a importância de desenvolver estratégias de longo termo, com o objetivo de atingir uma sociedade inclusiva e que acolha todas as pessoas, incluindo pessoas com deficiência, até ao ano de 2010.

Passados estes anos todos, as pessoas com deficiência ainda enfrentam várias dificuldades e constrangimentos, sendo que a sociedade ainda olha para alguns destes seres humanos como sendo “menos valiosos ou significativos”.

A procura por uma sociedade sem falhas, onde todos têm que ser felizes, onde todos têm de ser capazes, autónomos e ser pessoas com sucesso (leia-se sucesso profissional e financeiro), tem conduzido a um olhar paternalista para o cidadão com deficiência, algumas vezes até considerando como “menor” ou “menos capaz” ou, ainda, “menos importante”.

Compreensivelmente, nenhum pai ou mãe deseja que o seu filho ou a sua filha nasça com um problema, com uma deficiência ou alguma limitação. Todos queremos que os nossos filhos sejam saudáveis e “perfeitinhos” (e aos nossos olhos serão sempre) e que cresçam felizes. No entanto, a natureza, por vezes, prega-nos umas partidas e presenteia um casal com um filho “especial”, com características que o/a tornam “diferente”.

Quando um casal tem um filho com deficiência, a nossa tendência natural, enquanto homens e mulheres, é de pensarmos: o que vai ser daquela criança? Como vai sobreviver no futuro? Quem vai tomar conta dela depois dos pais morrerem? Coitados dos pais que agora vão viver uma vida muito mais difícil para assegurar um futuro para aquela criança! E, ainda, porque não interromperam aquela gravidez?

De facto, a vida das pessoas com deficiência tem mais barreiras e mais dificuldades. E a ciência desenvolveu técnicas para identificar se determinada gravidez tem alguma malformação ou alteração genética prejudicial, de modo que ela possa ser interrompida, se o casal quiser, evitando que uma criança possa viver uma vida “menor” ou de “menor qualidade”. O avanço tecnológico, cuja intenção é positiva, acabou por criar situações onde a humanidade se dá ao luxo de descartar a vida destas crianças, interrompendo a sua vida ainda antes de nascer.

O Papa Francisco, na sua mensagem para o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, em 2021, dirige-se a todos aqueles que “vivem uma condição de deficiência qualquer”, para lhes dizer que a Igreja os ama e precisa de cada um deles “para cumprir a sua missão ao serviço do Evangelho”. Ou seja, que cada um é parte integrante do mistério de Cristo e uma peça fundamental do seu projeto salvífico: “O Batismo torna cada um de nós membro de pleno direito da comunidade eclesial e dá a cada um, sem exclusões nem discriminações, a possibilidade de exclamar: «Eu sou Igreja». De facto, a Igreja é a vossa casa. O Papa afirma ainda que “Ter Jesus como amigo é a maior das consolações e pode fazer de cada um de nós um discípulo agradecido, jubiloso e capaz de testemunhar que a própria fragilidade não é um obstáculo para viver e comunicar o Evangelho. Com efeito, a amizade confiante e pessoal com Jesus pode ser a chave espiritual para aceitar as limitações que todos experimentamos e viver em paz a nossa condição.”

E relembra: “Muitos de vós ainda hoje, infelizmente, «são tratados como corpos estranhos à sociedade (…), sentem que vivem sem pertença nem participação. Ainda há tanto que [vos] impede de beneficiar da plena cidadania» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 98). A discriminação ainda está demasiado presente em vários níveis da vida social; aquela alimenta-se de preconceitos, da ignorância e duma cultura que tem dificuldade em compreender o valor inestimável de toda a pessoa: concretamente, o facto de continuar a considerar a deficiência – que é o resultado da interação entre as barreiras sociais e as limitações de cada um – como se fosse uma doença contribui para vos estigmatizar mantendo segregada a vossa existência.”

De facto, a sociedade ainda olha para estes cidadãos como pessoas “menores” ou “de segunda”. Mas, felizmente, há cada vez mais bons exemplos da integração do cidadão com deficiência na nossa sociedade, nomeadamente a existência de restaurantes cujos funcionários são todos cidadãos com trissomia 21 ou autismo (Lisboa recebe o primeiro café que forma e emprega pessoas com trissomia 21 e autismo – Renascença (sapo.pt)), de projetos que procuram sensibilizar para a importância de pessoas com Alzheimer (Restaurante contrata pessoas com Alzheimer para serem garçons (alzheimer360.com)) e até da contratação de pessoas com deficiência nas câmaras municipais para ajudar a olhar para a cidade com outros olhos (PressReader.com – Réplicas de Jornais de Todo o Mundo).

Precisamos de olhar para estes cidadãos com os olhos de Cristo, que sempre os acolheu, lhes dirigiu a palavra e valorizou a sua dignidade e individualidade, revelando que Deus os ama incondicionalmente. E o Papa Francisco, na sua mensagem, pede-lhes que que rezem pela humanidade. “O Senhor escuta atentamente a oração de quem confia n’Ele. (…) Na oração, há uma missão acessível a cada um e eu gostaria de a confiar de modo especial a vós. Não há ninguém tão frágil que não possa rezar, adorar o Senhor, dar glória ao seu Nome santo e interceder pela salvação do mundo. Diante de Deus Todo-Poderoso, descobrimo-nos todos iguais.

Queridos irmãos e irmãs, a vossa oração é mais urgente hoje do que nunca. Santa Teresa d’Ávila escreveu que, «em tempos difíceis, são necessários amigos fortes de Deus para sustentáculo dos fracos». Podemos fazê-lo todos; e ainda que tivéssemos, como Moisés, necessidade dum sustentáculo (cf. Ex 17, 10-12), temos a certeza de que o Senhor ouvirá a nossa súplica.”

Referências bibliográficas  – Mensagem do Papa Francisco para o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, 3 de dezembro de 2021, acessível em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/pont-messages/2021/documents/papa-francesco_20211120_messaggio-disabilita.html; lida a 17 de junho de 2023

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