Carmelita Secular

No teu rosto, Jesus, está tudo o que desejo (Jo 14,8)

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Bento XVI partiu para o Pai, a 31 de dezembro do ano passado. Foi uma pessoa sábia e delicada, inteligente e humilde. Gostei muito do seu livro Jesus de Nazaré. Também apreciei um outro escrito seu, a “Teologia da Liturgia”, no qual, entre outras coisas, fundamenta o valor e o significado de um ícone. Ultimamente, os ícones têm tido um papel muito importante nos meus tempos de oração. Inicialmente não entendia o seu valor; a forma do rosto e a falta do sorriso impediam-me de ver a sua beleza. Quando compreendi que nestas representações a forma do rosto obedece a umas certas regras para atingir uns determinados fins, os ícones tornaram-se para mim uma porta de entrada para a constante presença amorosa de Cristo Vivo.

Teresa de Jesus pediu-nos que, na oração, não pensemos muito, mas que aprendamos a olhar para Jesus. Ao acostumar-nos a fazer isto, mais cedo ou mais tarde, caímos na conta do olhar d’Ele sobre nós. E acabamos por fazer a experiência que neste olhar encontramos tudo o que precisamos.

Dizia antes, que a forma do rosto de Jesus, num ícone, obedece a certas regras e sabemos que partiu de uma tradição que remonta ao século VI. Durante esse século, no Oriente, apareceram duas imagens misteriosas “não pintadas por mão humana” representando o rosto de Cristo, conhecidas por Kamulianium e Mandylion. Esta última, segundo alguns investigadores atuais, é identificada com o santo sudário de Turim. Nesse tecido, de forma inexplicável aparecia representado o verdadeiro rosto de Cristo, o crucificado e ressuscitado. Tendo tomado conhecimento disto, e na tentativa de fidelidade a uma tradição, comecei a encontrar beleza na forma do rosto, particularmente nos olhos. Aprendi ainda que num ícone, os olhos tendem a ser grandes para realçar que o olhar de Cristo voltado para nós, precede e suscita o nosso olhar para Ele. O centro da ação já não sou apenas eu: aquele que olha esta imagem como outra qualquer. Há um descentramento: o olhar de Cristo é mais intenso e ocupa a ação principal; é então que reconheço como Ele está à espera que me desperte para a Sua presença.

O ícone surge, assim, como uma necessidade do homem crente de contemplar o Sagrado, e a esta necessidade, Deus respondeu de forma admirável na Encarnação do Seu Filho, no Seu mistério Pascal e na Sua entrada na Glória. Em Cristo, vemos o Pai. Não existe, de facto, uma imagem do Ressuscitado. Os discípulos de Emaús não O reconheceram enquanto não Se sentou com eles à mesa e repetiu as palavras e os gestos da Última ceia. Só então começaram a ver, não já segundo a carne, mas segundo o Espírito; aprenderam a reconhecer a presença de Jesus, pela fé.

O ícone de Cristo é ícone do Ressuscitado, os seus traços faciais ajustam-se às linhas básicas dessas imagens do século VI, mas sobretudo, o mais importante é que suscita o nosso ato de fé e um novo modo de ver, – para além do sensível – Aquele que quis entrar no mundo dos nossos sentidos.

Há dias luminosos na nossa vida: há muitos anos li num hino da liturgia das horas: “Encarnação, é todo o universo”. Quantas coisas mudaram na minha vida graças a essa compreensão! Coincide com a expressão de S. Paulo: “A minha vida é Cristo”. A vida não são rotinas, surpresas, lugares, pessoas, desencontros…, mas é Cristo a manifestar-Se em tudo o que acontece. A encarnação de Jesus assume toda e qualquer realidade material que nos rodeia: o canto de um pássaro, o murmúrio das águas, a dor de uma ofensa, um ícone, para repetir-nos: “Eu Sou”, “Eu estou sempre convosco”, “Eis-me aqui”, “não estás sozinha”… A natureza, a história…, tudo é presença, revelação, manifestação de Jesus para quem permitiu a purificação do coração. A encarnação significa que Deus entrou no espaço do visível para que O possamos reconhecer. Nesta perspetiva, o ícone é revelador: o ícone não é uma fotografia, mas tem como função transcender a imagem histórica e abrir-nos à contemplação da Pessoa viva.

Escrevia Ratzinger, no livro citado, que o centro da imagem de Cristo é o mistério pascal: Cristo é representado como crucificado, ressuscitado, como Aquele que há de vir e já reina de modo oculto. Qualquer imagem de Cristo deve conter estes três elementos essenciais do mistério de Cristo: a cruz, a ressurreição e a segunda vinda. Pode realçar um destes três aspetos, mas deverá sempre manter a fidelidade a esta unidade.

Por ser uma imagem centrada no mistério Pascal, a imagem de Cristo é também sempre ícone da Eucaristia; remete para a presença sacramental do mistério Pascal. Um ícone está sempre relacionado com a liturgia, com os símbolos que mostram Jesus sempre presente e sempre a sair ao encontro do homem. A dinâmica do ícone é, portanto, a dinâmica da liturgia: o Espírito Santo conduz a Cristo e Cristo manifesta-nos o Pai. Há sempre uma unidade na ação de Deus; e o ícone remete-nos sempre esta unidade, para os sacramentos, principalmente para o Batismo e para a Eucaristia.

Num outro dia luminoso, o Espírito Santo suscitou em mim este pedido: “Senhor, mostra-me o Teu rosto” (Sl 102) e o mesmo Espírito parecia sussurrar-me: “Vai ver-te a um espelho”. Obediente, pus-me diante do espelho a ver-me com os olhos de Deus e a descobrir no meu rosto as marcas da Redenção, da Sua vida entregue por mim. Só desde então aprendi a reconhecer em toda a pessoa o rosto de Deus, um ícone do Deus vivo.

Todo o ícone tem sido para mim uma porta aberta ao diálogo com Deus e um convite a (“perder tempo”) “ganhar tempo” diante dele, como se uma voz interior me garantisse: “Aí Me encontrarei contigo” (Ex. 25,22). E depois não sei bem em que se gasta esse tempo diante d’Ele, mas encontrei em 2Cor 3,18 que “nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na Sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito”.

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