Carmelita Descalço, responsável pela pastoral juvenil da Ordem

A Solidão de São João da Cruz

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Não só a guia na solidão dela [da alma], mas que Ele próprio, sozinho,
é quem actua nela sem qualquer outro meio […]
é somente Ele que actua nela […]
porque ela está só;
 por isso, Ele não quer dar outra companhia que se aproveite dela
nem a confia a mais ninguém que não seja Ele” (CB 35,6).

A solidão como tema é dos mais presentes na sociedade hodierna, embora seja um dos mais indesejados e não se fale abertamente dele. Toca-se nele várias vezes quando se fala do abandono dos mais velhos à sua própria sorte, ou dos jovens que se isolam por causa do bullying de que são vítimas, a diário ou quase. É um tema menos evidente quando falamos desta nossa sociedade da eficiência, em que devemos estar sempre em modo multitasking e a correr freneticamente de uma tarefa para outra para chegar a todos os deadlines e, no final de contas, a lado nenhum.

A solidão, talvez como nunca na nossa história (atrevo-me a afirmar), está presente de forma transversal e quase omnipotente nas nossas vidas. Tantos são os dinamismos que nos levam a nos fecharmos em nós próprios e a nos sentirmos cómodos aí que nem somos conscientes de que nos faltam relações, de que nos faltam verdadeiros laços de amor vividos em liberdade. A solidão tornou-se algo imperceptível para aqueles que nela vivem quotidianamente, a menos que se faça um esforço reflexivo sobre si próprio e o estado em que se está. Como algo negativo, ela conduz à tristeza profunda e tantas vezes à depressão.

Segundo os dicionários, a solidão é o estado de quem se encontra só de forma voluntária ou involuntária. Pela sua acessão negativa, a solidão é ainda sentimento, é sentir falta de algo ou alguém.

Mas ela pode ser também a procura do sossego que se encontra pelo afastamento da rotina diária. Podemos, assim, relacionar a solidão com retiro: um acto voluntário para estar só num lugar desértico, não habitado pela confusão do quotidiano. Então a busca da solidão é procura pelo descanso longe da opressão, é uma busca de liberdade.

São João da Cruz – quem hoje nos traz a este espaço de encontro digital – impõe, seguindo as cinco características do Pássaro Solitário, falar destoutra face positiva da solidão. Ela é a terceira das cinco características daquela imagem poética que o místico abulense usa para nos falar da vida espiritual.

Nas suas obras a ‘solidão’ é um termo com uma variedade de significados que se complementam quando vistos desde a perspectiva da vida espiritual. Assim, o primeiro destes está relacionado com a procura do lugar solitário onde descansar da rotina da vida quotidiana, como libertação momentânea das opressões própria da vida. Normalmente este lugar desértico em São João coincide com o contacto com a natureza, onde se pode encontrar a mão do Criador. Recorrendo à linguagem dos clássicos, o primeiro dos significados sãojoanistas para a solidão é busca do locus amoenus, lugar calmo e utópico onde, livre do ruído físico, existe a possibilidade de encontro consigo mesmo e com Deus. Poderíamos ainda dizer que é uma fuga mundi.

Assim entendida, a solidão é uma necessidade no início da vida espiritual, que há de gerar no orante o hábito de recolher-se dentro de si próprio para se encontrar com Deus. Porque em verdade a sua busca não é física, mas sim teologal: é um encontro a sós com Deus. Convém, porém, advertir que este retirar-se não supõe para o autor, em nenhum momento, um desligar-se da comunidade eclesial (cf. 2 S 22,11).

              Avançando no caminho espiritual, esta solidão torna-se depois uma necessidade de esvaziamento activo de tudo aquilo que não é Deus para, livre de todos os apegos e paixões, O poder encontrar no espaço interior da alma. Destarte, a solidão física transforma-se em necessidade de liberdade de espírito para encontrar-se e relacionar-se com o absolutamente Outro. Assim, São João diz-nos que a solidão é um exercício que pode ser aprendido e praticado (cf. 2 S 18,3; 23,4), enquanto algo activo, pois veremos que enquanto dom das fases ulteriores da vida espiritual ela só pode ser acolhida e não exercida.

              A procura da solidão converte-se em dom de Deus na noite passiva; neste momento, Deus liberta a pouco e pouco o orante daqueles apegos que ainda o impeçam de ser livre em plenitude para o encontro unificante em puro Amor. Quando Deus introduz o orante na contemplação – isto já no desposório espiritual, de que nos fala a metáfora do Pássaro Solitário; e no matrimónio espiritual ou união de amor – condu-lo até ao mais íntimo da alma, onde Ele habita, libertando a consciência do homem de tudo, deixando-a completamente só perante Ele. Esta solidão da contemplação, segundo São João, é experimentada, primeiramente, como desamparo total, é um estar metido num vazio total e em total escuridão. Por outras palavras, é a experiência de não ter amparo algum, nenhuma certeza humana à qual agarrar-se. É sair totalmente de si mesmo para encontrar-se com o Outro, que também sai de Si para vir até nós. A alma do homem é, assim, convertida em “altar onde Deus é adorado em glória e amor, pois só Ele a habita” (1 S 5,7).

A diferença da experiência de solidão nestas etapas finais do caminho espiritual está na forma como ela se vive. No desposório espiritual é experimentada como algo estranho, tremendum, onde Deus se manifesta à alma sem a mediação das faculdades naturais, sensitivas ou espirituais, do homem. Sendo aqui uma experiência mística esporádica, onde há “uma intensa e copiosa comunicação, um reflexo do que Ele é em si mesmo, e no qual a alma experimenta a bondade das coisas” (CB 14-15, 5). Deste modo, à medida que a vida espiritual se desenvolve, a solidão converte-se em solidão contemplativa, num modo particular de Deus se comunicar e revelar ao homem. Por sua vez, no matrimónio espiritual é já um acontecimento gozoso e bem mais frequente. Nesta etapa preliminar da vida em glória é, pois, é comunicação e união de Amor com Deus, sem intermediários, totalmente passiva: “não só a guia na solidão dela [da alma], mas que Ele próprio, sozinho, é quem actua nela sem qualquer outro meio […] é somente Ele que actua nela […] porque ela está só; por isso, Ele não quer dar outra companhia que se aproveite dela nem a confia a mais ninguém que não seja Ele” (CB 35,6).

Podemos então concluir que a solidão é transversal a todo o processo espiritual como o pensa, e viveu certamente, São João da Cruz. Começa como uma fuga mundi e termina como contemplação divina e união plena de Amor com Deus. Na verdade, Deus atrai pouco a pouco a atenção do orante que irá dar início à busca activa da solidão como ‘espaço’ onde encontrar-se com o seu Amado (noite activa dos sentidos) e descobre que esta não se encontra em geografias exteriores, senão interiores. Quando toma consciência desta verdade, o orante procura libertar o seu espírito (noite activa do espírito) e Deus oferece-lhe a solidão desejada dando-lhe a sorvos a verdadeira contemplação (noite passiva). Termina esta aventura com a entrega do homem só a Deus só (matrimónio espiritual). Deus, comunhão de Amor entre Três pessoas, cura assim a ferida de solidão do homem através da Sua amorosa companhia.

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