Nov 7, 2023 | Até quando?, Desafios

Formador de Metodologias de Investigação e Professor de EMRC

O acompanhamento pastoral: uma introdução

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No meu anterior texto, abordei a Urgência do Discernimento e, no anterior a este, a Lógica do Dom, hoje quero abordar, enquanto esforço de síntese, o «Acompanhamento Pastoral«, recordando a minha participação no Encontro Nacional de Formação «Para uma pastoral juvenil sinodal», que se realizou no Seminário de Leiria, entre 8 e 11 de setembro de 2022, tendo como orientador o Pe. Koldo Gutierrez Cuesta.

Este é, portanto, o terceiro texto e resumo que resulta dos meus apontamentos sobre o pensamento e obra do Pe. Koldo.

1. Uma definição de acompanhamento pastoral

O magistério do Papa Francisco evoca continuamente da importância do acompanhamento.

Ora, este acompanhamento deverá ser entendido por ação pastoral, onde a relação entre as pessoas é valorizada, tornando possível o encontro entre duas liberdades, como referira, anteriormente, o Papa Bento XVI. Não será um acompanhamento grupal, pessoal, pedagógico, psicológico, espiritual ou vocacional. Há um outro adjetivo que pretende ser bastante preciso: pastoral.

Para a definição da palavra acompanhamento, partimos da observação de que os seres humanos procuram orientar as suas vidas numa busca de sentido. Para ajudar nesta busca, a Igreja oferece uma proposta pastoral centrada tanto no ser humano como em Jesus e no seu Evangelho. O acompanhamento pastoral ocupa, pois, um lugar específico nesta proposta. Nesta medida, o acompanhamento pastoral será um ministério de compaixão que brota do amor de Deus, procurando curar a existência, cuidando do crescimento e do sentido da vida, numa abertura à experiência de Deus.

O acompanhamento pastoral é assim colocado num quadro amplo, mas com objetivos concretos. O quadro é desenhado pela pessoa nas suas instâncias externas e internas, e o objetivo consiste em procurar desdobrar a vida em toda as suas potencialidades, em vista de uma plenitude. Os seres humanos querem orientar as suas vidas, em profundidade interior e numa abertura fraterna aos outros e isso requer processos que levem tanto à individualidade quanto à sociabilidade. Este dinamismo adquire profundidade quando o olhamos a partir do mistério de Deus. Para os seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, a autonomia pessoal é tão importante como a referência comunitária, isto é, a individualidade é tão importante como a sociabilidade.

1.1 Chaves para apoiar o acompanhamento pastoral

Pastoral é tudo o que a Igreja faz para que Deus e o homem se relacionem. Para fundamentar o acompanhamento pastoral olhamos primeiro para Deus, o mistério do amor em relação, e depois olhamos para a sua Igreja, reflexo do mistério do amor que é Deus e sacramento da salvação para o mundo, tendo sempre em conta o homem concreto.

2. O Testemunho da Escritura

Muitas vezes o povo de Israel pergunta: «O Senhor está connosco ou não?» (Ex. 17:7). Esta pergunta também é feita por muitas pessoas hoje. É preciso afirmar que Deus está presente na vida do povo e de cada pessoa de forma ativa e amorosa. Afirmou o Papa Francisco, no Angelus de 28 de outubro de 2018, que “Deus opera na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e que me falam”.

A Escritura conta a história de um povo que sabe que é acompanhado por Deus nos diferentes caminhos da História. A história do santo Povo de Deus, e a história de cada pessoa, é uma história de eleição, promessa, diálogo e acompanhamento, em suma, é uma história de salvação. Podemos ver na Escritura os vestígios do acompanhamento de Deus junto do Seu povo, desde as primeiras palavras do Génesis, «No princípio Deus criou o céu e a terra» (Gn 1:1), até aos últimos versículos do Apocalipse: «Eis que renovarei o universo» (Ap 21:5).

2.1 Deus acompanha o seu povo na história

A fé do povo de Israel é a fé num Deus que cria por amor, dialoga com o homem, estabelece uma aliança e nunca o abandona. A fé do Povo de Israel leva-os a reconhecer Deus que os acompanha através de uma presença sempre ativa e através de múltiplas mediações.

Deus acompanha Abraão, Isaac, Jacob e José. Deus acompanha o povo através do deserto até à Terra Prometida, depois de o libertar, através de Moisés, do Egipto, onde viveu como escravo; acompanha o povo no exílio e regressa com ele à terra de Israel; Ele acompanha o Seu povo, de modo especial, através de profetas enviados para o guiar, e que muitíssimas vezes não O ouve. O Deus que Israel confessa é um Deus que o povo invoca nos seus momentos de dor; um Deus que ouve o seu lamento e vem em seu auxílio; um Deus compassivo, próximo, que oferece cuidado e atenção, que aponta um caminho e nos sustenta na esperança.

2.2 Jesus mostra o rosto de um Deus que acompanha

Em Jesus Cristo vemos, de forma definitiva, o acompanhamento que Deus oferece ao seu povo. Em Jesus, Deus fez-se próximo e mostrou-se peregrino da Humanidade no caminho. Neste sentido, o mistério da Encarnação revela que a salvação se dirige a cada ser humano e a todo o ser humano na sua totalidade. O testemunho mais eloquente do acompanhamento de Deus junto do seu povo através de Jesus encontra-se no mistério da Cruz. Neste mistério, Deus torna-se solidário com o homem até ao fim, trazendo vida e salvação.

A Escritura conta-nos como Jesus percorreu as estradas da Galileia, acompanhado pelos seus discípulos e por uma grande multidão. Caminhou pelas aldeias curando, ensinando os mistérios do Reino, através de parábolas cheias de pedagogia, levando alegria e esperança ao coração dos pecadores e dos pobres. Jesus é um Mestre que compreende a fraqueza dos seus discípulos, senta-se à mesa dos pecadores, sente compaixão pelos que sofrem e ensina com proximidade. Em suma, Jesus realiza o seu magistério acompanhando.

Jesus acompanha como um Bom Pastor e um bom samaritano. Nas parábolas do Bom Pastor e do Samaritano encontramos as chaves fundamentais para situar o acompanhamento pastoral que Jesus faz: o alcance missionário, a compaixão, a proximidade, a proteção, a cura, o cuidado, a hospitalidade e o valor do tempo.

Além disso, na passagem dos discípulos de Emaús vemos a narração do modo de Jesus fazer as coisas. Emaús conta a história de dois discípulos que, após a morte de Jesus na cruz, deixam Jerusalém frustrados e abatidos. Jesus encontra-os no caminho. A primeira coisa que Ele faz é ouvir. Jesus poderia ter dito coisas sensatas a esses discípulos, poderia até ter ordenado que regressassem a Jerusalém… Não, Jesus não fala, mas escuta; deixa-os expressarem-se e encontrar palavras para descrever o que carregam nos seus corações. Depois de falarem, Jesus estabelece um diálogo sobre a sua tristeza e ilumina-os, «abre os seus entendimentos» com a Escritura. Perto da aldeia, são eles que tomam a iniciativa e oferecem a sua hospitalidade e a sua mesa ao peregrino. E é aí que eles reconhecem Jesus ao partir o pão. Já conscientes pelo fogo do Espírito ardendo nos seus corações, eles imediatamente percorrem o caminho de volta a Jerusalém. E ali, no coração da comunidade, narram a sua experiência de encontro com o Senhor ressuscitado.

2.3 O Espírito Santo é companheiro do Povo de Deus

A teologia do Quarto Evangelho diz-nos que o Espírito Santo é o Consolador durante o tempo da ausência física de Jesus, alimentando a expectativa da Igreja; Ele é o advogado na nossa luta contra o pecado pessoal e social; é o Mestre que nos recorda as palavras de Cristo e nos revela o mistério da Sua Pessoa.

O Espírito Santo é o verdadeiro companheiro da Igreja e do santo Povo de Deus. «Quando Ele vier, o Espírito da verdade vos guiará para a verdade plena. Pois Ele não falará de si mesmo, mas falará o que ouve e vos dirá o futuro. Ele me dará glória, porque receberá do que é meu e vos explicará» (João 16:13-15). O Espírito enriquece a Igreja com carismas e ministérios que a tornam uma comunidade viva e dinâmica, aberta e acolhedora; uma comunidade que vive a paixão pela vida, pela liberdade, pela justiça, pela paz, pela solidariedade; uma comunidade que é fermento de esperança para a sociedade; uma comunidade que acompanha a Humanidade até à nova Jerusalém.

[Continua numa próxima publicação].

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