Formadora na área comportamental. Coordenadora GOT. Carmelita Secular

Fé e Graça: encontro íntimo e místico

Partilhar:
Pin Share

Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». Fé: um Encontro que acontece entre a alma e Jesus, onde acontece um diálogo insondável, terno, infinito e com sabor a Céu. «A Fé concebe a vida como um diálogo, a descrença, pelo contrário, como monólogo»[1].

Fé: o insondável Mistério que nasce do encontro íntimo entre a alma e a Graça de Deus. Tantas vezes Jesus enaltece e mostra a Fé como fonte de cura e salvação. Jesus enternece-se com a participação do ser humano neste encontro íntimo com Ele pela Fé.

Hoje sou convidada a uma viagem inesperada na presença do Espírito, até Cafarnaum. São Marcos (2:1-12) é o meu anfitrião e narra-me este encontro tão profundo e misterioso entre o paralítico e Jesus. Conforme a narração vai acontecendo, percebo a profundidade de cada palavra e cada expressão. Percebo a Fé a alimentar-se na Palavra e na Presença.

Diz-me São Marcos: «Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaum, ouviu-se dizer que estava em casa». Ouvi dizer que Jesus estava em minha casa, no mais profundo, belo e íntimo lugar da minha alma. Ele veio ter comigo ainda antes da minha existência, desde o momento em que Ele me sonhou. Ele vem ter comigo para viver em intimidade permanente e convida-me a deixar-me encher de Graça. Vem ter comigo para me resgatar do vazio que acontece quando deixo de amar.

«Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra». Tanta gente que deseja ouvir Jesus, ou talvez, ver milagres e satisfazer a curiosidade e a necessidade dos sentidos. No entanto, Jesus insiste e vai revelando-Se de formas inesperadas. Escuto-O na Palavra de um olhar, num sorriso de um irmão ou irmã. Ele dirige-se a mim, a ti… de tantas formas discretas, silenciosas e eloquentes. Pouco a pouco a Fé é tocada e amadurecida pelo dia-a-dia e pela oração, pelos imprevistos, bons e menos bons, os abraços quentes e ternos, a correria que, sem perceber como, acontece na Providência.

«Vieram, então, trazer-lhe um paralítico». O pecado pode paralisar-me, cegar e atrofiar a alma.  Olhar e reviver a memória do pecado em excesso pode levar-me a escrúpulos excessivos, a deixar de caminhar devido ao medo de pecar mais e esqueço-me de viver apenas focada no Amor de Deus. Sou, assim, colocada aos pés de Jesus. Sou-o com todos os que se abriram à Fé, à Palavra. Com gratidão trago à memória este legado da Fé desde os primeiros tempos… Abraão, Maria, Pedro, Paulo, João, Zaqueu, Teresa de Jesus, João da Cruz, Teresa Benedita da Cruz, Teresinha do Menino Jesus, Família, Amigos, Catequistas, Padres, Irmãs…. Incontáveis Rosas grandiosas, e Margaridas discretas e desconhecidas que exalam o perfume da Fé, da Fidelidade, do Amor.

«Transportado por quatro homens». Que alegria tão grande viver a Amizade, a Comunidade, e ter a Graça de caminhar e crescer com companhia, deixar-me ajudar, pedir ajuda e oferecer ajuda. É maravilhoso como Jesus quer precisar de mim e de ti para se fazer Presente. É misterioso e belo como a Fé partilhada cresce mais e mais nesta união com o meu próximo.

«Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o teto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico». Percebo de repente uma multidão de pecados, de ruídos ensurdecedores, das solicitações por vezes tão afastadas de Deus. Percebo uma multidão de detratores e também de provações e dores que, se vividos de forma autocentrada, em vez de serem ocasião de purificação, são desculpa para revolta e vitimização. Está disponível uma abertura no teto. Uma abertura que aponta para Jesus, para o Céu, e percebo a urgência da oração incessante, a urgência de me colocar na presença de Jesus sem defesas, com total confiança e humildade. Percebo a necessidade de descer com Jesus ao mais interior de mim, olhar e deixar-me olhar para que o Caminho, a Verdade e a Vida se tornem cada vez mais claros.

«Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». Fé: um Encontro que acontece entre a alma e Jesus; um encontro onde acontece um diálogo insondável, terno, infinito e com sabor a Céu. «A Fé concebe a vida como um diálogo, a descrença, pelo contrário, como monólogo»[2].

Nesta abertura ao Outro, onde também acontece a abertura ao outro, a cura, a alegria, a paz e a ternura são possíveis. Deixo de ser autossuficiente, autorreferenciada, autocentrada, e o Transcendente, o Infinito, a Esperança, envolvem a alma, o corpo e todo o ser. A Fé torna-se ponte quando lhe vou acrescentando, todos os dias, mais uma pedra, mais um grão de areia, que a tornam mais sólida. Assim a torno favorável e transitável ao Encontro, pois «o dom da Fé precisa de um Ecossistema favorável»[3]  

Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: «Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno – disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!» Para Jesus é fácil perdoar-me, basta encontrar um pouco de desejo de mudança da minha parte e Ele esquece o meu pecado. Deixo-me interpelar pela Sua Palavra e Ele cura-me desde o mais profundo do meu ser, repercutindo-se a toda a vida. Jesus convida-me a levantar-me, a pegar na minha vida, na minha cruz, e caminhar, ora com mais segurança, ora a tropeçar, com a certeza da Sua Presença em mim, uma certeza alimentada pela Fé que Ele me concede. Esta Fé encarnada em mim, percebo que não a preciso de explicar, despojo-me da razão e torno-me livre para deixar que o Espírito me leve onde quiser. E a minha alma irrompe em cânticos de louvor e clama:

Tu és o meu Tudo, Jesus!

Tu és o Mistério que me habita e me salva!

Tu és a Fonte da minha Fé e o Fogo que me faz crescer!

Tu és em mim e eu sou em Ti!

Graças!

Graças infinitas!


[1] Halík T. – Grün, A. (2017). O Abandono de Deus – Quando a crença e a descrença se abraçam. Prior Velho: Edições Paulinas.

[2] Halík T. – Grün, A. (2017). O Abandono de Deus – Quando a crença e a descrença se abraçam. Prior Velho: Edições Paulinas.

[3] (HALÍK & GRÜN, 2017)

Partilhar:

Artigos

Relacionados

O Silêncio em São João da Cruz

Há sentido no silêncio atualmente? Na nossa sociedade globalizada, onde não nos faltam recursos para nos mantermos em contacto e informados, precisamos ou queremos o silêncio? Com todas as nossas faculdades para a comunicação e para o relacionamento, para elaborar raciocínios, será o silêncio uma necessidade? Não será um obstáculo à produção continua de conteúdos? Estará o homem constituído para o silêncio?

read more

Uma tangerina nas Tuas mãos

Quando caminho em comunidade, quando caminho com irmãos e irmãs, a santidade discreta, humilde, imersa em Amor, torna-se possível pela Graça de Deus, pois é esta que me alimenta e vive em mim. Deixo-me desenganar, deixo-me acolher e acolho e o milagre da conversão, a beleza que é viver na Vontade de Cristo, acontece. Os meus passos tornam-se ousados e purificados pela justiça amorosa de Deus. A comunidade orante torna-se fecunda neste Amor que brota de Jesus. A vida de cada membro torna-se uma oração.

read more