Teólogo. Professor de Educação Especial

O olhar de cima para baixo

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Olhar alguém de cima para baixo «só é lícito se for para ajudar a pessoa a levantar-se». Estas palavras foram proferidas pelo Papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ2023) durante a vigília no Parque Tejo e também tiveram eco nos meios de Comunicação Social[1].

Quando as ouvi, lembrei-me dos tempos em que tive várias cadeiras na Faculdade sobre Arte, Bíblia, História e Teologia e também da formação que frequentei sobre o Programa Say YesProjeto de Catequese com adolescentes rumo à JMJ Lisboa 2023.

Assim, quero partilhar com quem me lê um desenho de Rembrandt – a cura da sogra de Simão de São Lucas[2](Lucas 4:38-39[3]), apresentando uma perspectiva e as perspectivas são isso mesmo: perspectivas.

Alerto que este desenho obriga a balancear a capacidade de reflectir, decidir e agir.

Eis a passagem:

«38Deixando a sinagoga, Jesus entrou em casa de Simão. A sogra de Simão estava com muita febre, e intercederam junto dele em seu favor. 39*Inclinando-se sobre ela, ordenou à febre e esta deixou-a; ela erguendo-se, começou imediatamente a servi-los».

Na perícope apresentada, não se sabe o que levou Jesus à casa de Simão, mas quando lá chegou, foi informado que a sogra daquele estava doente.

Jesus não questionou, não se inteirou da condição física, não excluiu, mas dirigiu-se para o lugar indicado, inclinou-se e pegou na sua mão.

Este gesto de Jesus é exemplo do que eu posso fazer, melhor, do que nós podemos fazer: deixar de considerar prioritários os interesses particulares para buscar os interesses dos outros, genericamente, o bem comum.

Jesus não se sente bem com o mal das pessoas, mas quer que elas se sintam bem, felizes com a Sua presença (Lc 5:33-35).

O Evangelho continua a narrar que a febre deixou a senhora. Esta levantou-se e, como anfitriã, serviu toda gente.

Até aqui, o texto é claro, sem hipótese para aventuras eloquentes. Todavia, deixo o desafio de olhar para a imagem.

O que viu? Uma mulher no chão e um homem de pé a dar-lhe as mãos para a levantar.

Para quem tem o olho apurado, verá umas sombras que poderão indiciar postura, movimento e zonas de toque. Também é verdade.

Novamente desafio a olhar para a imagem.

Já reparou nas sombras, certamente. Pois bem, eu vejo linhas de acção, que, embora aparentemente independentes, estão interligadas.

Reveja outra vez a imagem.

Viu algo mais?

Não se preocupe.

Vejamos uma dessas linhas de acção[4].

Os olhos

Quem me está a ler já reparou na linha imaginária de e para onde o olhar de ambos se dirige?

Não?

Veja e reveja.

Sim, ambos olham ‘olhos nos olhos’ um do outro: o de Jesus, a partir de cima; o da sogra de Simão, a partir de baixo. Este contacto visual desarma, liberta, esvazia a alma de quem é procurado e ao mesmo tempo, atrai e cativa a atenção de quem olha fixamente e leva ambos a abtrair-se do que se passa à volta. É aqui, nesta atitude, que Jesus oferece a Sua compreensão e a Sua compaixão. É neste deserto de ideias e sentimentos que o oásis da confiança se plenifica. É aqui que Jesus, no silêncio do Seu olhar, grita «Eu estou aqui e Comigo não estás s»[5]. A sogra de Simão, inspirada, próxima, íntima, segura, reconfortada e confiante com esta presença e esta convicção, revestida da armadura de Deus (Efésios 6:11-19), se levanta e parte imediatamente apressada (Lucas 1:39) para servir os convivas.

Poder-se-ia transpor para a actualidade, reescrever a passagem, mas basta abrir os olhos do entendimento e sentir-se na pele das pessoas que fogem de países que atravessam alguma calamidade, bélica, natural ou outra, ou daquelas que estão no país em que escrevo e que se vêem confrontadas diariamente com o galopar da inflação, o aumento do custo da habitação, por exemplo, mas deixo isso à consideração de quem lê pois são vários os acontecimentos que diariamente grassam pelos meios de comunicação social. E agora para quem me lê, qual a acção que eu concretizo, que eu realizo? A resposta fica na sua consciência e na sua acção.

As mãos

Veja agora a posição das mãos.

Reveja.

Feche os olhos.

O que ‘viu’ para além de mãos entrelaçadas?

Eu vi outra linha paralela à do olhar’ poderá dizer no seu íntimo. Sim, é verdade, outra linha paralela, mas desta vez são as mãos e os braços.

São mãos que se encontram, se agarram, se fincam. São mãos recíprocas, mãos que se dão (as de Jesus que estão por baixo) e se recebem (as da mulher que estão por cima), em união, em força e em liberdade. São mãos, extensão dos braços que dão força que fazem mover, que fazem chegar, que fazem acontecer. Que fazem abraçar. Mãos que segurarão um prato, um copo, quem tem fome. Mãos que levarão ânimo e sopro aos lábios sedentos e famintos. Mãos que são instrumento[6]. Braços que dão força e movimento. Braços e mãos que levam alimento que é esperança e alento. São mãos que gritam silenciosamente Toma! Pega! Aceita! Aceita-Me! Aceito-te! Afago-te! Liberto-te das correntes que te subjugam!. São as mãos de Jesus que tanto curaram. São as mãos de quem trabalha em prol dos outros. São as mãos e nada mais que as mãos. Cabe a cada ser humano saber dar uso dos seus braços, das suas mãos, das suas forças. Em prol de si, em prol dos outros, em prol do Outro. Cabe a si decidir… e agir.

Já reparou que se inverteu aqui o que está por cima e o que está por baixo? Jesus olha de cima para baixo. A sogra de Simão olha de baixo para cima, mas as mãos que dão, as mãos de Jesus, estão por baixo segurando as mãos que recebem, as que estão por cima. Curioso? Diz a sabedoria popular que ‘Deus escreve direito por linhas tortas’ à compreensão humana. Ou será a compreensão humana torta? Todavia, é simples.

Numa época em que a ‘auto-referencialidade’ parece ser o holofote do momento, Santa Teresinha de Jesus (Teresinha) mostra que essa simplicidade está ao alcance de todos: «A minha vocação é o amor, amar todos, todos, todos, como Jesus os ama», confessa ela no livro [História de uma alma] que é um testemunho de vida, uma pérola teológica no coração da Igreja, lugar onde ela sempre quis estar. A sua genialidade teológica está em ter descoberto um caminho simples para chegar a Deus. O realismo de Teresa, de que não sabe amar, tem o outro lado que é o saber que a fonte do amor tem um nome e uma face: Jesus (Santa Teresa tem por isso o nome de Teresa de Jesus e da Santa Face). É Ele que é fonte de Amor, e por essa razão é o Caminho simples. Simples porque é Ele que a leva nos braços. Com efeito, o caminho é para aqueles que confiam e se deixam erguer nos braços do Amor. «Jesus, o meu único amor», lê-se nas paredes do seu quarto…»[7].

Às vezes parece que nos enclausuramos nos nossos claustros, nos nossos casulos e não toleramos a Sua infinita bondade para com todos. Parece que Deus deveria dar a cada pessoa o que ela merece, e apenas o que ela merece. Graças a Deus, Deus não é como nós, como eu. Do seu coração de Pai, Ele sabe também dar o Seu amor salvador àquelas pessoas que não sabemos amar.

Os pés

Passemos a outro pormenor do desenho: os pés de Jesus.

Veja, examine, averigue.

Já vi: estão paralelos às mãos e ao olhar’ dirá quem lê. Exacto, agora que já induzi a minha perspectiva, certamente reparou também que só os pés d’Ele é que aparecem. E revelam movimento. Vão ao encontro, ao encontro da mulher, do outro, não sozinhos, mas com os braços, com os olhos, com a totalidade do seu ser. São pés que nos alertam para ir e ir apressadamente levantar os caídos, ir e fazer acontecer o amor, a cura, a esperança, o serviço, a entrega.

Os pés da senhora poderão ser os pés que não vemos, os pés dos indigentes, dos pobres, dos fragilizados, não que não se vejam, mas que não queiramos ver e passemos ao lado… Os de Jesus são visíveis, audíveis, próximos. Os pés de Jesus são aqueles que movimentam o corpo que se curvou… os pés de Jesus são aqueles que sustentam os braços e mãos que levantam… os pés de Jesus são aqueles que seguram o olhar d’Aquele que perdoa e conduz toda a Humanidade ao banquete do Pai (Mateus 22:1-14).

Deixo um desafio, agora que lhe apresentei uma perspectiva de ver: procure o desenho ‘Cristo e a Adúltera’, também de Rembrandt, e veja as linhas orientadoras da acção e deixe-se deliciar pela beleza dessas linhas.

Que lições a apreender sobre a cura da sogra de Simão?

Podemos aprender algumas lições importantes.

Em primeiro lugar, todos os milagres realizados por Jesus ensinam-nos que, de facto, Ele é Aquele em quem se cumprem as Escrituras, Ele é Aquele que verdadeiramente «tomou sobre si nossas enfermidades; e carregou as nossas dores» (Is 53, 4), assim, sem mais nem menos, confiando no Pai, tal como Teresinha.

Em segundo lugar, não fez acepção de pessoas, pois curou todas as pessoas que se Lhe dirigiram, não se amedrontou diante dos problemas e não hesitou em ter misericórdia, não só daquela mulher, mas de todos os que ali se dirigiram, pedindo auxílio. Acredito que pudesse estar cansado (pois naquela época seria um luxo andar montado num jumento ou num cavalo) mas Jesus não se queixou. Não! Teve compaixão, acolheu, acarinhou, reconfortou e curou, pois a Jesus nada escapa (Lucas 8:45), Ele vê para além do que todos vêem e sente para além do que todos sentem e tem o propósito em Se aproximar daqueles que estão impossibilitados de irem até Ele.

Em terceiro lugar, há um apelo pessoal: seja eu exemplo, ainda que imperfeito, do Pastor que vai à procura da ovelha perdida (Lucas 15:1 e ss), pois quem com Ele está, nada teme (Salmo 23). É natural o ser humano sentir medo perante situações novas ou desconhecidas, até porque os Meios de Comunicação inundam-nos diariamente com situações complexas, mas com Ele tudo posso (Filipenses 4:13)[8], pois dá-nos força para ajudar os mais fragilizados.

Em suma, há muitas formas de estarmos na vida e uma delas é assumirmos a Verdade, sem desculpas e justificações, dando-nos conta de que precisamos de Deus e dos outros, não porque somos limitados, finitos (uma inquestionável realidade), mas porque continuamente somos chamados a corrigirmo-nos e a aperfeiçoarmo-nos, voltados para Deus, pedindo-Lhe constantemente que nos ajude a progredir e nos faça crescer como seres humanos. É esta forma de viver, na humildade e na abertura a Deus e aos outros, que Jesus nos convida sempre a adotar, por mais que a Noite seja escura[9], pois Ele é mais bem amável, mais belo, mais amante do que geralmente pensamos[10].

Este é o impulso para o tempo que urge agora: tornarmo-nos presentes no concreto da Vida! Este é o impulso que a JMJ 2023 nos impele, independentemente da idade, género, condição física ou económica.

«Temos de criar o encontro. Sejam criati­vos para que este encontro seja original. Vo­cês têm de o criar. Animem-se e sigam em frente. As crises superam-se juntos, não sós. E as crises põem-nos à prova para sairmos melhores. Iguais não se sai das crises: saímos melhores ou piores. E o desafio que se coloca hoje é para sairmos melhores», disse o Papa Francisco, na Eucaristia de Envio, aos jovens de todo o mundo, na JMJ do Panamá em 2019.

«Este é o Agora de Deus confiado aos jo­vens, pela ousadia, resiliência, capacidade de inverter a agonia e criar espaço, encontro que alivia, retempera e proporciona laços de ale­gria no conforto do belo da existência huma­na que só o amor pode sustentar»[11]. Seja eu ansioso deste Amor como o veado pelas águas refrescantes[12] e seja também eu a esperança que Henrique Raposo tão bem ressalta no seu artigo «O escândalo que é ser católico»[13].

Tudo tão simples. Basta olhar… de cima… de baixo… de frente… de trás… Basta olhar. Sem juízos. Com humildade. A exemplo de Jesus[14].

E para terminar, nesta época em que celebramos alegremente o ‘olhar de cima para baixo’ deste Deus que olhou para a humanidade e se fez igual, não se valendo da Sua igualdade com Deus (Filipenses 2:6), mostrando o Caminho a seguir, despeço-me com um poema sobre esta quadra e com votos de Santo Natal.

Natal

Seja cada presépio a nossa casa
Transformada no mais florido altar,
Um pedaço de sol em cada brasa,
Uma estrela do céu em cada olhar.

Seja o Natal das prendas uma prenda
Que não esqueça o mundo humilde e mudo,
Seja a verdade a dominar a lenda
A verdade primeiro e mais que tudo.

Seja o Natal fraterna comunhão
Com os pobres sem pão e sem lareira,
Não haja, em parte alguma, coração
Que, por Jesus, não ame a terra inteira.

A voz das almas se una à voz dos sinos:
– Glória a Deus! Para os homens, paz e bem!
Todos, pelo Natal, somos meninos
A beijar o Menino de Belém…

Moreira das Neves


[1] Cf. https://www.publico.pt/2023/08/05/sociedade/noticia/olhar-alguem-cima-baixo-so-licito-ajudar-pessoa-levantarse-2059359.

[2] Para estudar este desenho a nível técnico e artístico, utilizei a seguinte bibliografia: (1) BROWN, Christopher; KELCH, Jan; van THIEL, Peter – Rembrandt: The master & his workshop. Paintings. New Haven-London, Yale University Press, 1991; e (2) COELHO DA SILVA, Bento – Cadernos, n.º 3. Da sombra para a luz. Materiais e técnicas de pintura. Lisboa, Instituto Português do Património Arquitectónico, 2000.

[3] Para as passagens bíblicas utilizei BÍBLIA SAGRADA – coordenação de Herculano Alves. Difusora Bíblica, Lisboa, 2016.

[4] Para a minha reflexão teológico-filosófico utilizei autores como António Couto, Fernando Armellini, Herculano Alves, Joaquim Carreira das Neves, José António Pagola, ambos com basta bibliografia, e material distribuído na Formação do Programa Say Yes.

[5] Pode-se ouvir https://www.vitaminac.pt/deus-esta-aqui-jgracias/.

[6] Ler o poema de São Francisco de Assis ‘Onde houver…

[7] https://observador.pt/opiniao/teresinha-de-jesus-sem-confianca-nao-se-pode-conhecer/?recommId=2e051d58da77a220f07a34c80cffbf51

[8] Depois da leitura da passagem bíblica, ouça e medite no cântico “Nada te turbe” de Santa Teresa de Ávila.

[9] Ouvir ou ler o poema de São João da Cruz “Noite Escura”.

[10] Santa Teresa dos Andes.

[11] CARVALHO, Miguel. In Revista Mensagem, n.º 440, pág. 22.

[12] Deixo a sugestão de: (1)ler o poema “Como o veado passaste fugindo” de São João da Cruz; (2) ouvir o cântico in https://joana-costa.blogspot.com/2010/05/como-veado-passaste-fugindo.html

[13] https://expresso.pt/opiniao/2023-08-04-O-escandalo-que-e-ser-catolico-1a00f1ce

[14] Ler a “Oração da Humildade” de Santa Teresinha do Menino Jesus.

Jesus não se sente bem com o mal das pessoas, mas quer que elas se sintam bem, felizes com a Sua presença (Lc 5:33-35).

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