Nov 21, 2023 | Casa comum, Economia e fé

Professora. Carmelita Secular

Despertar consciências no ensino

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Trazemos hoje uma reflexão que vai ao encontro do apelo do Papa Francisco ao despertar consciências para a nossa Casa Comum. Trata-se de um exemplo sobre metodologias de ensino mais inovadoras e potenciadoras de maior abertura ao outro com o objetivo de levar os jovens, os futuros profissionais, a pensarem sobre a sustentabilidade nas organizações.

O Papa Francisco lançou recentemente mais um desafio ao povo de Deus com a publicação da Exortação Apostólica – Laudate Deum. Em 2015 foi publicada a encíclica Laudato Si, sobre a ecologia integral e a salvaguarda do meio ambiente. Passados oito anos, o Papa Francisco decidiu dar continuidade a esta reflexão, fazendo uma atualização sobre a crise climática.  Assim foi publicada há menos de dois meses esta exortação onde o Papa desperta, apela e chama a atenção para a necessidade urgente do cuidado do nosso planeta. Este apelo é para todos e em particular para os jovens que serão que futuros “gestores” do planeta.

No sentido de despertar consciências, venho hoje partilhar convosco uma experiência pedagógica que temos vindo a desenvolver no ensino superior e que (acredito) tem ajudado muitos jovens a despertar consciências para o cuidado desta nossa casa comum. Foi há cerca de doze anos numa reunião de trabalho onde estavam presentes além de vários docentes da área da economia e da gestão, vários parceiros de universidades europeias. Tínhamos em comum o ideal de criar um projeto que abarcasse as temáticas da sustentabilidade para alunos das licenciaturas em Contabilidade e Finanças e em Gestão. E dali saiu um esboço que é hoje o projeto “Accounting for Sustainability” (Contabilidade para a sustentabilidade) que já conta com a X Edição.

Este projeto tem funcionado com alunos no Politécnico de Leiria que no seu segundo ano de licenciatura são desafiados a refletir sobre a política de sustentabilidade das organizações, em particular escolhendo três organizações europeias e estudando a sua política de sustentabilidade em profundidade. Refletem sobre temas como a comunicação da sustentabilidade, o relato da informação não financeira, a contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a adaptação a uma economia circular, entre outros aspetos. Em grupos multiculturais, com estudantes portugueses, belgas, finlandeses, franceses e espanhóis, estes jovens vão partilhando ideais, refletindo sobre a realidade e sonhando novas práticas futuras mais sustentáveis. Além dos encontros virtuais, numa primeira fase, têm depois oportunidade de conviver durante cerca de quatro dias em Portugal, uma vez que os estudantes estrangeiros fazem uma viagem ao centro do nosso país para debater esta temática e fazer uma apresentação conjunta dos resultados dos seus trabalhos de grupo.

Deixa-me sempre agradada a avaliação de cada edição. Acredito que desta forma os estudantes melhoram o seu espírito crítico e a sua criatividade. E nesta perspetiva além de despertar consciências para a temática da proteção do planeta e da justiça social, estes projetos têm também a função de permitir, com uma experiência internacional, a abertura a novas culturas, ao diferente, a novas formas de aprendizagem, à amizade, à partilha… e tantos outros benefícios.

Acredito que este projeto, inserido numa unidade curricular, permite contribuir para uma maior consciência da crise climática – qual grito do Papa Francisco. Acredito que estes estudantes no seu dia a dia mudem “pequenos” comportamentos.  Acredito que estes “pequenos nadas” podem levar às mudanças que o Papa Francisco refere no parágrafo 71 da sua Exortação Apostólica – Laudate Deum: «Os esforços das famílias para poluir menos, reduzir os esbanjamentos, consumir de forma sensata estão a criar uma nova cultura. O simples facto de mudar os hábitos pessoais, familiares e comunitários alimenta a preocupação pelas responsabilidades não cumpridas pelos setores políticos e a indignação contra o desinteresse dos poderosos. Note-se, pois, que, mesmo se isto não produzir imediatamente um efeito muito relevante do ponto de vista quantitativo, contribui para realizar grandes processos de transformação que agem a partir do nível profundo da sociedade».

Por outro lado, desperta os estudantes para a importância de apostarem não apenas nas competências mais técnicas (hard skills) mas também noutras competências transversais (soft skills) cada vez mais importantes como agente social e valorizadas pelas entidades patronais. O recente estudo de Domingues et al. (2023)[1], alerta para este aspeto identificando as competências transversais que os empregadores mais valorizam quando recrutam estudantes para a área financeira (neste caso contabilistas certificados). Apresentamos alguns dos exemplos de soft skills valorizadas pelos empregadores: Capacidade de organização; Cultura geral; Conhecimento de um segundo idioma; Compromisso ético; Capacidade para tomar decisões; Capacidade para trabalhar numa equipa interdisciplinar; Capacidade para trabalhar em grupo; Capacidade de cooperação, entre muitas outras.

Concluindo, acredito que o Ensino/Educação tem o potencial de mudar pessoas, mudar mentalidades, transformar pensamento e ações. E deixo-vos mais um paragrafo (70) deste importante e muito oportuno documento do nosso Papa Francisco: «Apesar disso, tudo concorre para o conjunto e evitar o aumento de uma décima de grau na temperatura global poderia já ser suficiente para poupar sofrimentos a muitas pessoas. Mas, o que realmente importa é algo menos quantitativo: recordar-se de que não há mudanças duradouras sem mudanças culturais, sem uma maturação do modo de viver e das convicções da sociedade; não há mudanças culturais sem mudança nas pessoas».


[1] Este é um exemplo de um estudo elaborado por uma equipa de investigadores/docentes portugueses sobre o que procuram as entidades empregadoras no seu recrutamento (este caso é particular para a função de contabilista certificado). Domingues, A; Albuquerque, F. e Cláver, R. (2023), As competências dos contabilistas certificados requeridas pelos empregadores: uma análise a partir dos anúncios divulgados no linkedin, Revista de Gestão e Secretariado, 14 (4), p. 4516-4539.

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