Professora numa Escola artística

Precisa a arte da Igreja tanto quanto a Igreja precisa da arte?

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(A arte como proposta de busca de sentido contra a rasura da transcendência)

«O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração»[1].

O que é a beleza? Penso que preciso, primeiro, de responder a esta pergunta para compreender alguns conceitos posteriores. Por que razão a falta da beleza poderá levar-nos ao desespero? Se o desespero é a falta grave da esperança; o que é a esperança?

E repito: o que é a beleza? Todos consideramos que sabemos o que é a beleza, mas quando se trata de pormos em palavras o que dela sabemos, ou a ideia que temos dela, seja ela mais universal ou mais particular, raras vezes o conseguimos sem grandes hesitações, gaguejos ou alguns gestos de mãos que apenas ocupam momentaneamente um espaço, mas nada acrescentam. Acabamos por dizer, de modo muito superficial que «a beleza é muito subjetiva; o que é para mim pode não ser para ti». Se formos honestos, percebemos aí o nosso limite na linguagem, ou porque a conhecemos pouco e a exercitamos menos, ou porque a linguagem é limitada para falar de realidades tão sublimes. No entanto, poderemos tentar elaborar alguns pensamentos concretos, nem que seja para dar palavras, mesmo que escassas, a alguma experiência nossa diante de algo inefavelmente belo.

Aconteceu-me, pessoalmente, em dois momentos distintos da vida, muito afastados no tempo e no espaço, ter sentido uma forte comoção estética diante de duas obras de arte que me apanharam de surpresa e me fizeram refletir sobre o que tinha acontecido e porquê. Apesar da surpresa, percebi que algo vibrava em mim para lá de uma experiência apenas sensível, ao toque dos olhos; tendo sido pelos olhos que captei tanta beleza, não foi, no entanto, a síntese das cores e das formas que mais me tocou. O que foi, então? Isto poderá não acontecer com nenhum dos leitores com estas obras específicas, porque o espírito contemplador é outro e as circunstâncias também, mas partilho, aqui, as obras diante das quais a minha consciência se ampliou. Uma foi em Oslo diante da pintura O Beijo, de Edward Munch; outra foi em Pádua, na Capela Scrovegni, imersa nos afrescos de Giotto sobre o ciclo da vida da Virgem Maria e de Jesus. Tendo reconhecido todas as cenas ali representadas, tocou-me especialmente o beijo entre S. Joaquim e Santa Ana, pais da Virgem Maria. Reparo, agora, no exercício da construção deste texto, nesta coincidência que nunca tinha reparado: em ambos, um beijo. E não é o beijo por si só, de boca com boca, é o beijo que transcende a boca – no beijo da pintura de Munch, os rostos que se fundem numa união plena, impossível de manifestar à dimensão física; nos afrescos de Giotto, o beijo místico representado pela união íntima e plena das auréolas dos santos, ademais no contexto daquela Capela. Não há erotismo em nenhum deles, há uma sublimidade, uma perfeição que remete para o alto, algo que as palavras não dizem e que as imagens criadas a partir da vida do espírito nos levam a ver. Sobre ambos, não me surge dizer outra coisa, com espanto, senão: «Beleza total!». Esta Beleza foi o que me siderou.

Onde nos toca, então, esta beleza, se não é apenas à «flor dos olhos» que a vemos? Os olhos veem, são o veículo, um primeiro estádio para captar a beleza, mas onde me transportam os olhos a ver o que vejo e por que razão o que vejo é mais do que o que vejo? Seremos capazes de ver mais do que a cultura, fechada em si mesma, nos propõe ver?

O Beijo. Que beijo é este?!

Como está fragmentado o nosso entendimento!

A nossa unidade original foi despedaçada e o nosso trabalho ascético passa, seguramente, pela reunião de todo o entendimento primeiro, aquele em que fomos criados à semelhança de Deus, o de ver tudo num «único raio de contemplação», como nos diz Ricardo de São Vitor[2]. O desejo de sentir tudo de todas as maneiras do poema do heterónimo de Fernando Pessoa ou o desejo ardente de Santa Teresinha de querer ser todas as coisas, descobrindo que «só o amor era tudo, que se estendia a todos os tempos e a todos os lugares»[3].  Não será esse o desejo de unidade impresso no nosso coração? Esta unidade que só pode ser aludida e que na arte a reconhecemos como a Beleza?

Retomo aqui a frase da Carta aos Artistas, de João Paulo II que me pôs a escrever este texto, no momento em que nos cita um excerto redigido e dirigido aos artistas no final do Concílio Vaticano II: «O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração».

E surgem-me outras perguntas – ou uma só pergunta feita de várias maneiras: o estado da arte atual, dita contemporânea, a abstração depois da abstração, ainda conseguirá transportar-nos para este lugar de unidade que anelamos? Aquela unidade, para onde me remeteram os dois beijos que referi acima, ainda é possível experimentar pela criação artística? A abstração contemporânea, aquela que supostamente nos remeteria para as realidades originárias por representarem lugares desejados mas inacessíveis e inexprimíveis, aproximam-nos ou afastam-nos da unidade subliminarmente desejada? Em que medida este estado da arte, que já não capta o real invisível, porque ele deixou de existir nas atuais concepções de mundo, não será o selo que atesta que o homem já não convoca Deus? Ou por não convocar Deus a arte perdeu o seu primeiro e último sentido?

Estará a arte curvada sobre si própria à semelhança do contemporâneo homo incurvatus in se

Desconstrução é o que está na ordem da linguagem artística: desconstruir o real para melhor o conhecer; fragmentá-lo para analisar melhor as suas partes à maneira das Ciências da Natureza que separam para analisar – mas parece-me que esta volta a refazer tudo como estava, recupera a forma e adquire o conhecimento interno. Depois de desconstruir, o pensamento artístico contemporâneo, muitas vezes desvinculado do fazer artístico, volta a reconstruir com intencional desorganização, de modo a tornar-se irreconhecível e propriedade do autor, propriedade de um intelecto, uma visão particular do mundo, um mundo refeito. A arte, ao ritmo do mundo, tornou-se analítica e não mais contemplativa; ao ritmo do mercado, tornou-se oportunidade e negócio.

Ortega e Gasset falou-nos da desumanização da arte, mas ele não chegou a conhecer a desumanização do artista. Do ponto de vista financeiro poder-se-á dizer que a arte nunca esteve tão bem. Em 2018, a leiloeira Christies vendeu o primeiro quadro feito por algoritmos e a especulação permanece tão grande que se vendem obras puramente conceptuais que são inexistentes. Pretender-se-á, com estas ações, que a arte tenha atingido, ela mesma, a inefabilidade pela imaterialidade que as tecnologias da informação lhe conferem? 

Neste ponto preciso da Carta aos Artistas, o Papa João Paulo II faz referência, ainda que de modo leve, à possibilidade do estado de desespero em que o mundo pode entrar e já entrou. Do mesmo modo, a arte parece ter entrado também em desespero, manifestando-se esse desespero por «atos de iconoclastia estética»[4].

É do senso comum que a Igreja sempre precisou da arte para encarnar a sua mensagem, mas João Paulo II, nesta Carta, vai mais além, até de um modo bastante provocatório, questionando, a dado ponto, se a arte não precisará da Igreja, deixando no ar que a autonomia da arte a desencarnará a tal ponto que poderá perecer sem deixar vestígio.

É o desejo ardente da unidade que nos faz desejar o que não temos na nossa condição mas, tão somente, porque relembramos o que antes já tivemos – é uma saudade do futuro, daquilo que em tempos conhecemos; uma coisa que não tem cabimento nesta vida, se não a ampliarmos espiritualmente. A beleza da arte, quando a arte é bela, leva-nos ao lugar da beleza porque o que é belo é verdade e o que é verdade é bom. E nós reconhecemo-la porque é nossa, é nossa desde a raiz.


[1] Carta aos Artistas, S. João Paulo II, 1999. Entrada 11, 2º parágrafo.

[2] Faleceu em 10 de Março de 1173. É reconhecido, atualmente, como um dos mais influentes pensadores da sua época. Ele foi um importante teólogo místico e prior da famosa Abadia de São Vitor, agostiniana, em Paris entre 1162 até à sua morte.

[3] História de uma alma, manuscritos autobiográficos, A.O. 15ª edição, 2017. pág. 204.

[4] Scruton, Roger, Beleza, uma muito breve introdução, 2ªedição, 2023, Guerra e Paz, pág. 164.

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