Olhar o Invisível

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Este Claustro, onde ora nos encontramos, dá-nos a liberdade de partilhar das mais lindas parábolas e imagens de que os sábios e santos se servem para nos falarem de realidades inefáveis, cultivadas no silêncio contemplativo da intimidade com Deus.

Isabel da Trindade, uma das santas mais novas da nossa Ordem, gosta de invocar a Virgem Maria como Porta do Céu porque experimenta como a Virgem participa, por livre disposição do Filho, da mediação de todas as graças que por Ele nos vêm. A vida de Maria está tão conformada com a vontade do Pai e tão unida ao Filho que, pelo Espírito Santo, se torna exemplo e mestra da vida interior, do serviço ao próximo e da coragem para enfrentar todas as provas. Santa Isabel experimenta como a Virgem Maria é a porta do céu, porque nos prepara para a última prova, a da morte, a da passagem para o encontro definitivo com o Pai.

Mas quem é esta santa carmelita? Isabel Catez nasce a 18 de julho de 1880 em França. É uma menina de caráter forte mas, desde muito novinha, tem consciência disso e tenta vencer esse temperamento. No dia da sua primeira comunhão, ainda não tem 11 anos, vai visitar pela primeira vez o Carmelo e sente-se profundamente marcada pelo facto da Madre lhe dizer que o seu nome, Isabel, em hebreu significa “casa de Deus”. É a partir deste momento que a pequena Isabel quer ser verdadeiramente morada de Deus. Para tal exercita-se na vida interior, cuida a morada interior, tenta controlar o seu temperamento intempestivo, esquecendo-se de si própria pensando apenas no Hóspede que a habita. Na Quaresma de 1905, Isabel adoece e, após uma longa e penosa doença, morre a 9 de novembro de 1906 com 26 anos. As suas últimas palavras são de uma entrega e confiança que nos tocam: “Vou para a Luz, para o Amor, para a Vida”.

O amor que Isabel tem à Virgem Maria, que ela considera modelo das almas interiores, ajudou-a no seu caminho de santidade. A devoção à Mãe de Cristo é ajuda essencial para acolher a santidade de Deus e bem sabemos que todos os santos amaram Maria com paixão, cada um segundo a sua graça pessoal. Isabel em todas as festas marianas, renovava a sua consagração à Virgem. Com total confiança encomendava-lhe o seu futuro e a sua vocação. Sente-se atraída sobretudo pela Virgem da Encarnação, que adorava o Verbo oculto no seu seio, que passava serena e apressada pelas montanhas da Judeia, recolhida sobre o Verbo que nela habita, sem que nada de fora a pudesse distrair. Para Isabel, a Virgem Maria é, sobretudo, a Virgem do silêncio e da contemplação.

Desde o primeiro dia da sua entrada no Carmelo fixará o seu olhar contemplativo na Virgem Maria. Fixa o olhar e o coração. Dizia o Papa Francisco que ser contemplativo não depende dos olhos, mas do coração. A oração purifica o coração e o coração puro resplandece no olhar, permitindo captar a realidade muito para além do visível.

Isabel entrou no Carmelo com 21 anos já muito avançada na vida de intimidade com Deus. Nesta Ordem Mariana, leu num antigo livro de costumes: «As almas a que Deus chama a servi-Lo nesta Ordem devem saber que a sua primeira e principal obrigação, como Carmelitas, é honrar, com particular cuidado, a Santíssima Virgem Maria: primeiramente na sua suprema dignidade de Mãe de Deus, em todos os privilégios e todas as grandezas que encerra essa qualidade e na soberania que tem sobre o céu e a terra; em segundo lugar, o excesso de bondade e de humildade que induziram a Santíssima Virgem a tornar-se Mãe e padroeira desta Ordem».

É esta virgem do Carmelo que, dando o devido lugar a tudo o que foi criado, se centra na primazia de Deus, que quer imitar a Virgem adoradora do Verbo oculto no seu seio, que quer viver silenciosa e adoradora de Deus oculto no mais íntimo da sua alma.

No seu tratado espiritual «O Céu na Terra», que Isabel redige durante um retiro de dez dias, no décimo dia fixa-se no exemplo absoluto de Maria, na atitude perseverante e de silenciosa interioridade cristã da Virgem. Esta atitude espiritual é por excelência a escola de toda a vida cristã. Diz-nos ela: «Parece-me que a atitude da Virgem, durante os meses que decorreram entre a Anunciação e o Natal, é o modelo das almas interiores, dos seres que Deus escolheu para viverem de dentro, no fundo do abismo sem fundo. Com que paz, em que recolhimento, Maria se entregava e se prestava a todas as coisas! Como é que mesmo as mais banais eram por ela divinizadas! Porque, em tudo, a Virgem permanecia a adoradora do dom de Deus! Isto, porém, não a impedia de se entregar ao que era exterior, sempre que se tratava de praticar a caridade. Diz-nos o Evangelho que Maria percorreu diligentemente as montanhas da Judeia, para ir a casa de sua prima Isabel. Nunca a visão, inefável, que em si contemplava, diminuiu a sua caridade exterior» (CT 40).

Eis a atitude interior que Maria manteve entre a Anunciação e o Natal, que assinala a sua visão contemplativa. A visão inefável que contemplava no interior não fez diminuir a sua caridade exterior, há nestas duas dimensões da vida – a ativa e contemplativa – uma verdadeira unidade. E prossegue: «Um louvor de glória é uma alma que mora em Deus, que o ama com um puro e desinteressado amor, sem se buscar na doçura desse amor; que o ama acima de todos os seus dons (…) é uma alma de silêncio que permanece como uma lira sob o toque misterioso do Espírito Santo (…) é uma alma que fixa Deus na fé e na simplicidade (…) é alguém que vive em contínua ação de graças» (CT 43).

No seu Último Retiro, também considerado um tratado espiritual, na véspera da Assunção, a 14 de agosto de 1906, Isabel coloca-se absolutamente nas mãos de Maria porque vive uma experiência, sem igual, do mistério de Cristo.

É ao décimo quinto dia deste retiro que encontramos este texto, de confiança total: «Ela aí está, junto da Cruz, de pé, forte e corajosa e eis o meu Mestre que me diz: “Ecce Mater tua”, Ele dá-ma por Mãe… E, agora, que Ele voltou para o Pai, que me pôs a substituí-lo em seu lugar na Cruz para que “sofra no meu corpo o que falta à sua paixão, por este seu corpo, que é a Igreja”, a Virgem aí está ainda para me ensinar a sofrer como Ele» (UR 41).

Em jeito de conclusão gostaríamos de salientar que se encontra bem expressa a missão de Maria na experiência espiritual de Isabel precisamente pela sua simplicidade. A mensagem de Isabel, fundamentada nos textos bíblicos, coloca a Virgem Maria no lugar que lhe corresponde: a de escolhida para ser a Mãe de Deus, e a partir desta missão, experimenta particularmente todo o mistério trinitário revelado na história. A originalidade de Isabel está no seu olhar contemplativo, na forma como olha todos os mistérios de Deus com o olhar e o coração da Virgem Maria; de Maria aprende a simplicidade que ambicionamos para nós: «É a simplicidade que presta a Deus honra e louvor … é ela que nos há de transportar à profundidade em que Deus habita» (CT 21).

Este Claustro, onde ora nos encontramos, dá-nos a liberdade de partilhar das mais lindas parábolas e imagens de que os sábios e santos se servem para nos falarem de realidades inefáveis, cultivadas no silêncio contemplativo da intimidade com Deus.

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