Médico – Carmelita Secular

A Ciência e a Fé

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A ciência é um campo de inovação fantástico que continua a surpreender a humanidade através da capacidade criativa, e da inteligência de todos quantos a dominam e procuram inovar. A Igreja tem um papel cada vez mais importante no caminho que a Ciência pode trilhar, orientando-a e aos seus cientistas para que as suas descobertas sejam usadas em prol do bem comum e não voltadas para o egocentrismo e o proveito próprio.

A ciência é um campo de inovação fantástico, que continua a surpreender a humanidade através da capacidade criativa e da inteligência de todos quantos a dominam e procuram inovar. Confrontados com os variadíssimos problemas de saúde que afetam e limitam tantas pessoas no dia a dia, os cientistas procuram encontrar soluções que ajudem todos quantos sofrem com essas limitações. E esta atitude e busca por soluções e pela inovação é de louvar e uma forma correta de aproveitar dos talentos que Deus dá a cada um de nós.

Na história da medicina moderna, existiram poucos momentos tão marcantes como o da descoberta da insulina, em 1922. Numa enfermaria de Hospital da Universidade de Toronto, mais de uma dezena de crianças encontravam-se gravemente doentes com diabetes, na altura, uma doença incurável. Estas crianças aguardavam a morte, sem esperança de conseguirem salvar-se. Mas dois cientistas canadianos, Frederick Banting e Charles Best, entraram na sala com um medicamento novo, sintetizado por eles: a insulina. Após a administração deste novo medicamento, as crianças começaram a recuperar e, atualmente, a insulina é um medicamento fundamental na vida de tantos diabéticos em todo o mundo, possibilitando uma vida normal para todos[1].

Existem muitos outros exemplos de descobertas científicas que mudaram, e vão continuar a mudar o nosso mundo, como a descoberta das vacinas, dos antibióticos, dos veículos motorizados, da eletricidade, da internet e, nos últimos anos, de implantes cerebrais ou próteses inteligentes que ajudam a ultrapassar limitações físicas de pessoas doentes. Um desses exemplos mais recentes ocorreu este ano de 2023 quando um cidadão holandês, de 40 anos, que é paraplégico (ou seja, sem a capacidade de movimentar autonomamente as suas pernas) devido a um acidente de bicicleta há 12 anos, foi submetido a dois implantes cerebrais que “leem” os seus pensamentos motores e transmitem essa indicação às suas pernas. Desta forma, este homem pode voltar a caminhar, ainda que com necessidade de apoio visto este ser um sistema ainda em aperfeiçoamento[2].

Em 2022, uma técnica semelhante tinha sido implementada noutro indivíduo para controlar um braço robótico que substituía o seu braço amputado. Esta inovação já estava em teste em 2014 e, mais uma vez, quando estiver aperfeiçoada e for possível implementar na vida de todos aqueles que se encontram limitados, permitirá mudar as vidas dos que se encontram fisicamente limitados devido a acidentes e sequelas de guerras[3].

Esta atitude de busca por soluções para os problemas e males que tantos sofrem no nosso mundo é algo que engrandece a humanidade e mostra bem o valor da solidariedade e da proteção dos mais vulneráveis que caracteriza a mensagem de Jesus, e que todos os cristãos estão chamados a viver. O Catecismo da Igreja Católica afirma no seu ponto 1750, que «a moralidade dos atos humanos depende do objeto escolhido, do fim que se tem em vista ou da intenção e das circunstâncias da ação». E acrescenta, nos pontos seguintes, que, quando «o objeto escolhido é um bem para o qual a vontade tende deliberadamente” e “a intenção coloca-se do lado do sujeito que age», o ato humano é moralmente bom e que «as circunstâncias, incluindo as consequências, (…) contribuem para agravar ou atenuar a bondade ou malícia moral dos» mesmos[4]; ou seja, quando o objeto serve para ajudar o próximo, quando a nossa intenção é de acordo e em conjunto com a pessoa que vai beneficiar desse bem e quando as circunstâncias envolventes permitem minimizar um dano existente, por exemplo, então esses atos são moralmente bons e ajudam o próximo, como os exemplos acima.

Mas onde se traça o limite para a alteração ou robotização do nosso corpo, tornando-o num modelo mais “perfeito” ou “duradouro”? E será que esse limite existe? Não poderá a Ciência “esticar” esse limite de acordo com as inovações que vai desenvolvendo? De facto, a contínua busca pela próxima inovação científica nem sempre se pauta pelos valores transcritos do Catecismo da Igreja Católica. Muitas vezes, a razão pela busca do conhecimento e da inovação científica é um pouco mais egoísta e centrada no próprio, tornando esta ação moralmente duvidosa.

Um exemplo destas ações moralmente duvidosas é o de Dmitry Itskov, um empresário russo que desenvolveu, em 2011, um projeto de investigação, chamado Iniciativa 2045, com o objetivo de criar avatares (um robot) para estender a vida, nomeadamente a dele próprio[5]. Hoje em dia, existem cada vez mais projetos de desenvolvimento de robots avançados, alguns dotados de Inteligência Artificial, que, cada vez mais, nos poderão substituir nas tarefas do dia a dia e, até, armazenar a nossa “personalidade”. Elon Musk, dono da Tesla, da rede social X (antigo Twitter) e da SpaceX, afirmou, no ano passado, que acredita ser possível enviar a personalidade de uma pessoa para um robot e este viver uma vida mais impactante e mais significativa junto dos outros[6]. Mas será que a nossa personalidade pode ser armazenada ou transferida para um robot? Ou será que a nossa personalidade é mais do que uma “simples” memória que se pode reproduzir? Não será a nossa personalidade o conjunto de emoções, ensinamentos, atitudes e momentos de espírito que vamos vivendo todos os dias?

Então, será que a Ciência deve ter limites? Deve a sociedade impedir que a Ciência caminhe livremente na descoberta do conhecimento científico? Ou deve a Humanidade aprender a usar, cada vez melhor, a Ciência em proveito de todos? O Papa Francisco salientava, no encontro “Fé e Ciência”, no dia 4 de outubro de 2021, que o «respeito pela criação, respeito pelo próximo, respeito por si e respeito pelo Criador, mas também, o respeito recíproco entre a fé e a ciência”, são os pilares que devem orientar a Humanidade «para o cuidado com a natureza, a defesa dos pobres, a construção de uma rede de respeito e fraternidade»[7].

Assim, a Igreja tem um papel cada vez mais importante no caminho que a Ciência pode trilhar, orientando-a e aos seus cientistas para que as suas descobertas sejam usadas em prol do bem comum e não voltadas para o egocentrismo e o proveito próprio. Porque «tudo está interligado, tudo no mundo está intimamente conexo: ciência e fé, homem e criação»[8].


[1] Donfanews, “A incrível história da descoberta da insulina,” 28 Junho 2019. [Online]. Available: https://www.donfanews.com.br/noticias/1900/a-incrivel-historia-da-descoberta-da-insulina.html. [Acedido em 2 Dezembro 2023].

[2] P. Ghosh, “Homem paraplégico volta a andar após receber implantes no cérebro em técnica pioneira”, 25 Maio 2023. [Online]. Available: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c720p0z8xyno.

[3] V. M., “Nova invenção permite aos amputados controlar um braço robótico com a sua mente”, Pplware, 20 Junho 2022. [Online]. Available: https://pplware.sapo.pt/ciencia/nova-invencao-permite-aos-amputados-controlar-um-braco-robotico-com-a-sua-mente/. [Acedido em 2 Dezembro 2023].

E. Alecrim, “Cientistas fazem amputado controlar dois braços robóticos ao mesmo tempo”, Tcnoblog, 18 Dezembro 2014. [Online]. Available: https://tecnoblog.net/arquivo/171458/proteses-mente-amputado/. [Acedido em 2 Dezembro 2023].

[4] Igreja Católica, “Catecismo da Igreja Católica”, Igreja Católica, 11 Outubro 1992. [Online]. Available: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s1cap1_1699-1876_po.html#top. [Acedido em 2 Dezembro 2023].

[5] Globo, “Empresário russo quer transferir cérebro para robô e ser imortal”, Globo, 11 Maio 2013. [Online]. Available: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/05/empresario-russo-quer-transferir-cerebro-para-robo-e-ser-imortal.html. [Acedido em 2 Dezembro 2023].

[6] A. S. Neto, “Musk acredita que os humanos serão capazes de enviar a sua personalidade para o Optimus,” Pplware, 29 Março 2022. [Online]. Available: https://pplware.sapo.pt/high-tech/musk-acredita-que-os-humanos-serao-capazes-de-enviar-a-sua-personalidade-para-o-optimus/

[7] Rádio Vaticano, “O Papa: respeitemos o ser humano, a criação e o Criador. Cop26 ofereça respostas eficazes,” 4 Outubro 2021. [Online]. Available: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2021-10/papa-francisco-fe-ciencia-vaticano-cop-26-glasgow.html. [Acedido em 2 Dezembro 2023].

[8] Iidem.

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