Fev 20, 2024 | Cultura, Trans(formar)-Se

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

Presença- ausência, distanciamento e paz virtual: até quando?

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Num tempo de ausência de paz em todo planeta, em que não há praticamente continente nenhum livre de guerras, desde as mais antigas e esquecidas às mais recentes, sentimo-nos atravessados culturalmente por um contexto dilemático, do qual destaco o dilema da presença-ausência em que parece impossível traçar caminhos de paz.

Todas as nossas experiências são marcadas por um hoje constante – o hoje temporalmente definido em imagens e sons pelos meios de comunicação social. É um hoje seletivo em que a existência se associa inexoravelmente à destruição, à dor e ao sofrimento de outros. Estes outros são especiais porque nos são presentes em imagens mas, parodoxalmente, quanto mais presentes, mais ausentes sendo a sua presença fugidia e fugaz como a velocidade das imagens que mudam continuamente ou se repetem noticiário após noticiário sem suscitar aparentemente qualquer tipo de vínculo emocional permanente naqueles que as visualizam. Não temos tempo para sentir ou tomar consciência porque o ritmo alucinante dos acontecimentos e das notícias não permite que o visualizado passe a contemplado. De tal modo esta situação fere a nossa existência que estamos afetados pela anestesia dessas presenças ausentes, presenças que não nos tocam, não afetam o que há de humano em nós. Pelo contrário, arriscam-se a deslocar-nos para um território quase inóspito de humanidade ou a transferir-nos para um universo paralelo em que passamos a comportar-nos como autómatos programados para cumprir os nossos deveres de produção numa sociedade de consumo que nos consome: «sou consumido dia e noite» (Is 36, 10-14). Nesta cultura do consumo passamos de “demasiado humanos” para “transhumanos”, isto é, vivemos numa dimensão em que o humano parece estar ultrapassado e eliminado pelo virtual, pelo que aparenta uma presença, mas não é efetivamente qualquer presença, e isso também se coloca quando nos referimos à nossa própria presença face a nós mesmos. Como construir a paz se não nos reconhecemos a nós mesmos?

Assustador e desafiante este quadro que nos vai definindo na nossa indiferença quotidiana. Se formos suficientemente audazes para nos distanciarmos mentalmente, tomamos consciência de que agimos como autómatos comandados por ritmos e propósitos de ação que não são genuinamente nossos, mas foram previamente programados pela sociedade de consumo. Este sentimento de desconexão connosco, com o mundo e, necessariamente, com Deus, é evidenciado em muitas das problemáticas complexas de identidade pessoal, sexual, cultural e histórica que vemos em tantos comportamentos bizarros à nossa volta. Esta dissonância promove a angústia, o desespero e a ausência de sentido e é dessa raíz que nasce a destruição. As encíclicas do Papa Francisco – “Laudato Si” e “Fratelli Tutti” – apontam-nos profeticamente qual será o desfecho desta condição, caso não sejamos capazes de alterar os seus pressupostos entranhados nos nossos hábitos quotidianos.

Tenho-me colocado esta questão: Porque é tão fácil aderir a uma cultura que nos destrói a alma, o ser, a identidade, a alegria e a esperança? E a resposta que emerge da minha reflexão é que aderimos, em primeiro lugar, porque nos tem sido apresentada como solução fácil e indolor para a totalidade dos problemas da vida – saídas sem sofrimento e sem esforço – “compre já e a prestações sem custos adicionais”. A fuga do sofrimento que leva à busca de soluções indolores está a arrastar-nos para o deserto pantanoso da ausência de nós mesmos. Não podemos entender-nos sem essa dimensão inerente do sofrimento que nos acompanha e que não depende da nossa vontade, mas marca toda a nossa existência, desde o nascimento – «…com dores de parto darás à luz» (Gen 3, 16). Nenhum de nós nasceu sem sofrimento. Até mesmo quando se trata de um parto por cirurgia cesariana, a entrada da criança no mundo ao seu primeiro respiro – momento essencial em que nos tornamos parte do mundo, mergulhando nele numa relação sistémica através da respiração e até à morte, o último respiro – é um momento assinalado pela estranheza e desconforto desse contacto primeiro. No entanto, a tentação da nossa cultura atual é dissimular esse evento de dor inicial, e também o da dor final, com a ilusão do divertimento, da fugacidade e do prazer sem limites.

Em segundo lugar, aderimos a esta cultura de consumo porque a criatividade humana, na sua busca espiritual por alcançar a divindade, envereda por opções complexas e criativas no sentido de superar tudo quanto se afigura limitador, caindo, por vezes, na ilusão de que a infinitude de possibilidades aberta a cada pessoa pode ser abarcada pelo mesmo ser humano no curto tempo de duração de uma vida. É a recusa cega da finitude como condição de base que leva a uma dissimulação da vulnerabilidade, à hiperbolização do mito da celebridade e a um distanciamento relativamente à realidade concreta da pessoa, enquanto ser individual e único.   A expressão mais evidente desta deriva são a voracidade do ter, a supremacia do parecer e o consequente abandono das preocupações com o ser. No entanto, o desinvestimento no desenvolvimento do ser individual e coletivo corresponde à frustração paradoxal desse desiderato de infinitude e à consequente sensação de vazio que invade a alma e com ele a desesperança de por alguma forma um ser finito conter o infinito, um ser limitado e vulnerável conter em si a possibilidade de uma plenitude na imperfeição.

Santo Agostinho questiona-se, na sua obra Confissões: «Senhor, haverá em mim algum espaço que te possa conter?». Esta pergunta de Santo Agostinho é essencial para os dias de hoje porque nos obriga a colocar o ser humano na sua real condição de uma finitude aberta e sedenta de infinito, sem qualquer ilusão de supremacia ou de sobreposição do ser humano face a Deus. Se a tecnologia parece ampliar a ilusão de ubiquidade: conseguir estar ao mesmo tempo em espaços diferentes e poder repetir essa presença em tempos diferentes, relevando a matéria e o tempo para um papel secundário, a teologia dá à matéria e ao corpo uma função no tempo e no espaço na sua relação com o Criador.  

A experiência de uma presença ausente leva à dissociação e suplanta o real pelo virtual. O virtual não se vincula nem temporal nem espacialmente, tocando-nos apenas superficialmente, sossega-nos porque não deixa que a dor e o sofrimento inquietem as nossas consciências, criando obstáculos ao desenvolvimento de uma consciência profunda, reduzindo a nossa capacidade de pensar simbolicamente, roubando-nos aquilo que nos distingue enquanto seres humanos que é a possibilidade do símbolo e do recurso à memória como cimentos da identidade pessoal e coletiva.

Se incapacitados de construir uma real proximidade, mesmo quando estamos perto fisicamente, como podemos ser atores significativos na construção da paz? Até onde e até quando suportaremos viver dissociados da nossa própria identidade? Qual a terapêutica para esta cultura em que cada um se multiplica em identidades até contraditórias entre si? Como retomar a nossa integridade originária? Esta questão fica em aberto pois Deus não para de nos surpreender através dos sinais dos tempos, levando-nos não só à interrogação, mas também à procura de caminhos conjuntos. Provavelmente o gesto mais significativo hoje seja o simples “dar as mãos”: para acolher, para escutar, para contemplar, para aceitar, para construir caminhos comunitários de paz, marcados pela presença real de pessoas como nós, imperfeitas mas abertas à novidade do Espírito Santo e aos seus sinais discretos na correria absorvente do quotidiano. Talvez mais do que a voz, o silêncio se impõe para retomar o tempo e o espaço da vida interior, onde quem somos se pode tornar presente e consciente e os nossos sonhos e desejos brotem do sagrado profundo em nós, trazendo a esperança aos desertos e ao desassossego da dor, do sofrimento e da morte e transformando os impulsos de destruição e consumo por dinamismos de vida e alegria.

Num tempo de ausência de paz em todo planeta, em que não há praticamente continente nenhum livre de guerras, desde as mais antigas e esquecidas às mais recentes, sentimo-nos atravessados culturalmente por um contexto dilemático, do qual destaco o dilema da presença-ausência em que parece impossível traçar caminhos de paz.

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