Formadora na área comportamental. Coordenadora GOT. Carmelita Secular

Uma tangerina nas Tuas mãos

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Quando caminho em comunidade, quando caminho com irmãos e irmãs, a santidade discreta, humilde, imersa em Amor, torna-se possível pela Graça de Deus, pois é esta que me alimenta e vive em mim. Deixo-me desenganar, deixo-me acolher e acolho e o milagre da conversão, a beleza que é viver na Vontade de Cristo, acontece. Os meus passos tornam-se ousados e purificados pela justiça amorosa de Deus. A comunidade orante torna-se fecunda neste Amor que brota de Jesus. A vida de cada membro torna-se uma oração.

No passado mês de Março, de 15 a 17, em Ávila, decorreu o Encontro de Formação anual dos Grupos de Oração Teresiana (GOT). Entre alegres reencontros de antigos e novos membros dos GOT de Espanha e de Portugal, e entre profundos momentos orantes, mergulhamos mais fundo na pedagogia da oração teresiana, pois é sempre bom relembrar, partilhar, crescer e abrirmo-nos ao inesperado e este aconteceu quando os GOT foram comparados a uma tangerina (obrigada, Eduardo Gonzalez – coordenador GOT de Espanha)! A partir daqui, permitam-me a ousadia de imaginar Jesus com uma tangerina na mão. Permitam-me ainda mais uma ousadia: transformar parte desta partilha em oração:

Jesus!
Vejo-Te a percorrer devagarinho um luminoso pomar
cheio de laranjeiras, flores, tangerineiras,
pássaros nas suas alegres cantilenas e danças,
insetos a zumbir em busca do melhor néctar.

Ao passares por uma particular tangerina pequenina,
deixas que o Teu perfume caia sobre ela.
Com delicadeza tocas nela e coloca-la na Tua mão.
A sua casca é de um laranja vivo, irregular
e que mantém unido o seu interior;
por fora é uma só,
mas ao atravessares com o Teu olhar a casca,
contemplas os seus gomos:
alguns mais sumarentos, outros nem tanto,
uns mais doces, outros talvez mais azedos.
Todos diferentes,
mas juntos formam uma curiosa harmonia.

Partilham o mesmo pé, a mesma Fonte,
que atravessa o centro da tangerina.
Reparei que, de algum modo que não compreendo,
a Fonte está ligada a Ti.
Só consigo perceber uma Luz que toca no pé da tangerina
e que a irradia por dentro, que a alimenta.
Percebo de repente o Teu terno cuidado
e a forma delicada como a Luz é o Teu Espírito.
Com esta Tua Luz percebo uma pequena rede de filamentos
que unem e permitem que os gomos comuniquem
e assim se ajustem uns aos outros.

Conforme a tangerina permanece na Tua mão e a cuidas,
sinto sair dela um perfume cada vez mais delicioso,
cada vez mais parecido ao Teu.
É um perfume que convida a sentir o sabor.
Devagarinho, sem danificares,
com a delicadeza de cada parte,
começas a descascar a tangerina
e a separar os gomos para os ofereceres,
depois de beijares devagarinho cada um com alegria,
ternura e confiança.

O perfume torna-se mais intenso, doce, inesgotável.
Neste Teu gesto vejo-Te na Cruz.
Tudo tornas dádiva
e convidas cada gomo para que também se una
ao Teu gesto na Cruz.
Quando ofereces o último gomo,
a tangerina volta a estar de novo inteira na Tua mão.
Alguns gomos preferiram ficar sozinhas,
fora da tangerina e caíram ao chão,
sem que se consigam levantar.
Estão a começar a secar e a apodrecer
nesta solidão escolhida e infértil.
Delicadamente,
sem pisares nenhum destes gomos sós,
continuas a caminhar pelo pomar e a repetir
os Teus doces cuidados com outras tangerinas.

Enquanto caminhas,
o Teu olhar volta-se amiúde e com uma atenção infinita
para cada um destes gomos, pois, de vez em quando,
um deles manifesta desejo em voltar para a tangerina
e a ser perfumado por Ti.

Na cultura em que vivemos, é tantas vezes enaltecida, perigosamente, a autossuficiência, que abre um caminho ao isolamento e ao autocentrismo, em que o nosso ego se torna a nossa referência, e surge dificuldade em pedir e dar ajuda. Na Igreja podemos cair cegamente na tentação de caminharmos sós, de ousarmos caminhar na fé e almejarmos a santidade num caminho solitário, sem partilharmos pontos de vista, dúvidas, leituras, experiências, saberes, preocupações… sem nos partilharmos com o outro. Se caímos, estando sozinhos, levantarmo-nos torna-se mais difícil e podemos mesmo pensar que nos levantamos, quando apenas nos limitamos a rastejar. É uma meia-vida, este caminhar a sós.

Jesus deu-nos a graça da comunidade, do grupo… «onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles». Nos GOT, nas comunidades OCDS (Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares), tão especiais e unidos à Família Carmelita, noutros grupos que se reúnem para orar, para partilhar, para aprender, para se desenganarem uns aos outros e para se amarem, podemos crescer e tornarmo-nos Perfume de Cristo doado, gratuitamente, a toda a Igreja e a toda a humanidade. Comunidades pequeninas, cada uma com as suas características próprias, discretas, simples, que acolhem e se tornam família, muito semelhantes às primeiras comunidades cristãs que exalavam Amor. Estas pequenas comunidades, estes pequenos grupos, tornam-se num manancial unido ao Amor Infinito do Corpo de Cristo quando vivem em oração contínua, em que cada um se deixa cuidar e olhar por Jesus que, muitas vezes, se torna visível através de nós, do nosso olhar e dos nossos gestos.

Quando caminho em comunidade, quando caminho com irmãos e irmãs, a santidade discreta, humilde, imersa em Amor, torna-se possível pela Graça de Deus, pois é esta que me alimenta e vive em mim. Ali me deixo desenganar, deixo-me acolher e acolho o milagre da conversão, e a beleza que é viver na Vontade de Cristo, acontece. Os meus passos tornam-se ousados e purificados pela justiça amorosa de Deus. A comunidade orante torna-se fecunda neste Amor que brota de Jesus. A vida de cada membro torna-se uma oração.

Meu Jesus,
que grata sou,
por todos com quem me permites
partilhar caminho e vida!
Que grata sou,
pelas maravilhas que realizas em cada alma!
Que grata sou,
pela luz com que me alimentas a mim
e a todas as almas!
Que grata sou,
pela ternura com que nos envolves!
Que grata sou,
por pegares com tanto carinho em cada tangerina
e pela forma como o Teu beijo toca cada gomo!
Que grata sou,
pelo Teu perfume que nos envolve
e transporta até ao Céu!
Que grata sou!
Amen.

Quando caminho em comunidade, quando caminho com irmãos e irmãs, a santidade discreta, humilde, imersa em Amor, torna-se possível pela Graça de Deus, pois é esta que me alimenta e vive em mim. Deixo-me desenganar, deixo-me acolher e acolho e o milagre da conversão, a beleza que é viver na Vontade de Cristo, acontece. Os meus passos tornam-se ousados e purificados pela justiça amorosa de Deus. A comunidade orante torna-se fecunda neste Amor que brota de Jesus. A vida de cada membro torna-se uma oração.

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