Mai 14, 2024 | Cinzas e pão, Cultura

O meu 25A ou o país dos cravos

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Arrastando as botas, por mim passou agora mesmo o 25A. Ia lento numa passadeira e eu respeitei. E demorado lhe mirei o pedúnculo do cravo partido, o casaco grande demais para o corpo mirrado e a corcova acentuada. Levava uma medalha ferrugenta ao peito. Lá foi. Eu acompanhei-o com o olhar. É daqui a raiz do que segue.

Tenho três notas para contar. Uma bênção. Um lusco fusco. Um molho de cravos.

BÊNÇÃO

O meu avô Manuel, pai de meu pai – o de minha mãe também era Manuel – visitou-nos a pé, no dia 26 de Abril de 1974. Vivíamos nós algo longe dele, ali onde a pequenina aldeia terminava e começava o monte e a empinar a ladeira da Richeira. Tinha eu seis quase sete anos e andava livre e descalço, que todo esse era o calçado de por quase todo ano. Estando meu pai há quase meia dúzia de anos para lá de muito longe, na imigração, meu avô que rádio não tinha, que ler não sabia, mas assinar, sim, vender e mercar vinho, bois e milho, também, talvez por na venda de Aboim ter ouvido notícias da Revolução, veio ver-nos.

Veio ele e viu-nos a saltar à macaca. Minha mãe chamou-nos para o saudarmos. Ele tirou o chapéu de feltro preto com um lacinho preto à nossa frente e, um a um, brincou-nos com os caracóis do cabelo; sério, disse depois a minha mãe:

– Houve um «barulho em Lisboa» que já chegou cá! Ninguém ainda sabe que onda vem por aí acima. Pelos tempos mais próximos fique por cá e nem à vila vá – insistia ele com minha mãe! Tem algo que lhe falte?

Ninguém sabia nada que desse ou viesse daquele «barulho», nem meu avô, nem minha pobre mãe, claro. Não sabendo nada até onde se prolongariam os ecos, minha mãe agradeceu a visita, os conselhos e, de pé, ainda mais nos apertou contra ela; como a galinha aos pintainhos – ninguém lhe roubaria os filhos.

Na hora da despedida saímos para o caminho donde, daí a pouco, haveríamos de ver meu avô subindo a ladeira íngreme. A mim que era o mais velho, e seu afilhado, minha mãe increpou-me:

– Vá, pede a bença ao teu avô!

Como não havia lugar para hesitações perante a intimação, descalço, lhe implorei:

Bote-me a bença, meu avô!

Meu avô tirou novamente o chapéu preto de lacinho preto, fez sorrir o bigodinho à Chaplin, pôs-me a mão direita na cabeça – precisamente onde agora mais me falha o pelo! – e disse:

– Deus t’abençoe, meu filho!

Minha mãe pingou duas lágrimas e, desde esse dia, eu carrego feliz a bênção de meu patriarca. Logo ele virou costas e pespegados ao altar dali o vimos subir a ladeira, e ficar cada vez mais pequenino, mais pequenino, mais pe-que-ni-no, até desaparecer por detrás do cocorucho da Richeira – o guardião mais elevado que nos protegia dos maus ventos sobre o lar.

Não lembro quantas vezes, pelo mesmo motivo – os ecos do «barulho de Lisboa» – regressou meu avô até nós. Sei que na última, já bem depois de meus anos, aprestava-se ele a regressar a casa, e ouvi a mesma increpação:

– Vá, pede a bença ao teu avô!

Eu pedi e ele, com o bigodinho de novo a bailar, botou:

– Deus t’abençoe, meu filho!

E, virando-se, subiu devagarinho a ladeira. Foi em finais de julho e fazia muito calor. Uma hora depois de nos ter deixado meu avô morria de enfarte. Trazida por meu único tio, minha mãe soube da notícia ao cair da noite.

Seja como seja, desde o 25A eu carrego feliz toda a bênção de meu avô Manuel.

LUSCO-FUSCO

Um dia fui ao teatro – há um, dois, três anos, não lembro bem. Lembro que era sobre o 25A, e esta era toda a minha curiosidade: saber o que por aí se andava a cozinhar para ser servido nos cinquenta anos do 25A.

Confesso: foi uma desilusão – tão desilusão que não lembro o título da peça, o nome do autor ou a companhia. Tecnicamente tinha soluções engraçadas, com o seu quê de testemunhal, e atractivas qb. Porém, nada me ficou na memória. Nada, não; duas coisas ficaram.

No fim da peça passaram vários relatos sobre como o 25A fora vivido por aquela – sim, julgo que era aquela companhia de teatro. É deste momento que me ficaram as duas memórias.

Primeira. A companhia como era seu dever, ou sentira que era, andara por Portugal inteiro, ou tão-só pelo norte – isso também já não lembro bem – a endoutrinar o povo sobre as mais valias do sol da nova era. Nuns sítios foi bem acolhida, noutros não.

Apresentava-se ela ao povo onde fora – numa eira, num terreiro, num adro. Num lugar que não recordo se disseram qual, dispôs-se o povo com antecedência a preparar um púlpito, digo, um palco, para «os senhores actores». Pediram-se sugestões, pediram-se as medidas. E fizeram. Quando a companhia chegou ao local as medidas dadas haviam sido tão mal interpretadas que o palco ficara mui desconformemente alto, impossibilitando que a peça fosse executada, e se executada, jamais seria vista e apreciada pela plateia! Não recordo qual foi a solução achada de recurso – só sei que sorri ao ver quão elevados estavam os endoutrinadores na sôfrega consciência do povo!

Segunda. Num outro lugar – também não recordo se identificado – usaram um palco de que a paróquia dispunha. Os actores eram naturalmente vários e, como se imagina, actuavam para a embevecida plateia no escuro. Nos camarins e atrás da cortina, pelos vistos, tudo era escuro também. Vai daí, de quando em vez, aproveitando-se da escuridão – provavelmente mais metafórica que real! – aqui e a ali, alguém passava a correr com pezinhos de lá e dava uma cacetada no primeiro actor ou actriz que apanhasse à espera de entrar em cena! A coisa repetiu-se bastas vezes, por forma a que a sessão avançava com fartos galos a cantar o olarilolela.

Aquilo, óbvio, era mais que um aborrecimento, e não só pelos riscos físicos, também pelo obstar à endoutrinação urgida a que a ungida companhia se julgava messianicamente enviada. Vai daí, como um dia é da caça e outro do caçador, os endoutrinadores puseram-se à coca como seria de esperar, e tanto esperaram que apanharam o pauliteiro – o Pároco do lugar!

(Desta me lembrei eu quando também aqui, no Claustro, ouvi dos ganhos da Igreja com a entronização do regime democrático em Portugal! Sim, ganhámos todos, todos, todos, e a Igreja também. Com mais ou menos galos para ambas as partes, há que reconhecer-se!)

JOÃO

(O que a seguir contarei aconteceu mesmo, confiem!) O menino poderia chamar-se como lhe chamo, ou Joaquim, André, Diogo ou Zé. Chama-se João. De há uns anos a esta parte cabe ao pai organizar e presidir à Festa lá do sítio. Este ano também, claro, afinal eram os cinquenta da Revolução!

– Foi rija a festa, pá!

– Foi boa, pá, foi mesmo boa! Como tinha de ser!

Despediram-se e foi cada qual para seu casulo. Era bem passada para mais de meia tarde quando pai e filho subindo subiam as empedradas ruas históricas do vilório. O pai ia na frente ocupada a cabeça em projectos e na agenda complicada que tinha passada a noite. A rua que subia o burgo era peatonal, sem perigos, e o miúdo vinha logo atrás, que o pai sentia-lhe os passos pequeninitos seguindo os seus, decididos, fartos e fortes. Que ele vinha sabia o pai. Que aqui e ali o miúdo de oito anos se agachava o pai achava que percebia, mas enleado nas linhas dos projectos de pouco mais se dava conta.

Não sabe o pai o tempo que caminharam assim: o pai, pensativo, o filho alevantando-se, dando corriditas, e agachando-se de novo. Ora se assim era, e era, chegado seria o momento em que o pai haveria de botar os olhos à criatura. E, por fim, lá botou. E que viu ele? Viu o filho com um braçado de cravos vermelhos nos braços!

(– Linda figura, ainda pensou o pai! – O que, porém, lhe saiu foi uma reprimenda mal disfarçada, pois, afinal, o rapaz apenas salvava o símbolo da Revolução!)

– Que fazes tu, João!

– Recolho os cravos do chão e levo-os para casa!

(Seja, pensou, e porque não? A que ajuntou o pai, em seus dispersos pensamentos: os miúdos deste tempo têm cada coisa…)

Chegaram a casa. O filho com um molho de cravos, o pai com um de pensamentos! Foi o pai para o escritório para definir umas coisas, o filho para o segundo andar – a zona dos quartos. Seis ao todo. Entrementes o silêncio do garoto era tão ensurdecedor que acordou o pai e o resgatou do poço dos problemas em que houvera mergulhado naquele fim de tarde. Que andará o rapaz a preparar, inquietou-se. Levantou-se e foi de encontro aos pensamentos. Subindo subiu ao segundo andar e que viu? Viu que a soleira de cada quarto tinha oito cravos vermelhos, linda e esteticamente bem colocados!

– Anda cá, João!

Prevendo tempestade, o João pausou o videojogo e logo veio, mais reguila que comprometido.

– Que é isto, filho?!

– Ó pai, então amanhã, não vamos ter os nossos amigos a dormir, aqui, durante duas noites?

– Sim, vamos… e?

– E eles merecem ter flores tal como Jesus tem, na Páscoa, quando vem à nossa porta!

Calma, calma! Ainda não está tudo perdido!

NÓTULAS FINAIS

Hoje, 22A, deixaram um cravo na mão do Fradinho e depois alguém o levou.

Hoje, 23A, deixaram dois cravos na mão do Fradinho e depois alguém os levou.

Hoje, 24A, deixaram um molho de cravos aos pés do Fradinho e depois alguém o levou.

Hoje, 25A, deixaram dois cravos vermelhos, plásticos e do tamanho de repolhos, na mão do Fradinho e também alguém os levou.

Há um país que gosta de cravos.

Arrastando as botas, por mim passou agora mesmo o 25A. Ia lento numa passadeira e eu respeitei. E demorado lhe mirei o pedúnculo do cravo partido, o casaco grande demais para o corpo mirrado e a corcova acentuada. Levava uma medalha ferrugenta ao peito. Lá foi. Eu acompanhei-o com o olhar. É daqui a raiz do que segue.

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