Jan 11, 2022 | Cuidar do jardim

Professor. Carmelita Secular

É tempo de cuidar do jardim

Em breves palavras procuro explicar como nos tempos que correm (connosco), mais urge aprofundar e afinar as vias da interioridade e da comunhão com Deus.

Para se ter um jardim bonito, refrescante e aprazível, com canteiros de flores, e mais flores e relva e arbustos e árvores — se possível uma fonte no meio —, é necessário semear ou plantar, regar, cavar-lhes em volta e adubar, podar os excessos, observá-las e contemplá-las, mimá-las — enfim, um jardim exige cuidado, atenção, desvelo, tempo para perder. E em certos períodos urge o esforço de ir ao poço ou à fonte para hidratar e alimentar as plantas, a fim de se tornarem coloridas, bonitas, majestosas; e se no estio, este é movimento que deve fazer-se pela fresca da manhã, e no fim do calor, ao anoitecer.  Na realidade, um jardim precisa do nosso tempo e atenção ao longo de todo o ano, que se nos descuidarmos corre-se o risco de nascerem e crescerem ervas daninhas e silvas a eito. Sim, sem o nosso cuidado e carinho o jardim vira monte bravo, o qual quer dizer que melhor será não ter jardim. Não ter jardim, porém, é assunto que aqui se não assume, pois que todos temos um jardim e não, não foi semeado por nós, não! Todos nascemos com um jardim interior, que se instaura como desafio permanente às nossas forças e desvelos. Será, pergunto-me, que cada um e cada uma de nós cuida do seu jardim como se exige? (E nem ouso lembrar que alguns podem não ter descoberto serem jardim!) Ou só nos lembramos dele quando precisamos de colher uma bonita flor para dar à namorada, à esposa, à mãe? Ou para colocar num altar ou numa mesa?

Todos os dias se nos propõem vários desafios e decisões a tomar.

Vivemos num mundo globalizado e, cada vez mais, com muita influência da tecnologia. O telemóvel está sempre colado na mão e a roubar a nossa atenção. A maior parte das vezes, não nos damos conta que o dia-a-dia é sempre um corre-corre, cheio de stress, com muitas tarefas para fazer e sem tempo para as coisas essenciais. Os dias passam tão rápido que no fim do mês nem temos noção do tempo que passou.

Vivemos um tempo sem qualidade, assoberbado, sem tempo (e sem espaço) para o jardim. Para o cuidado interior, quero dizer.

— Já é Natal!? Ufa… já?! O ano passou muito, muito depressa! Tão depressa… Ainda não consegui, ainda não tive tempo de comprar todas as prendas, ainda não comecei ou ainda não acabei o presépio… nem… de pôr o bacalhau a demolhar para a ceia, nem tempo tive de comprar o peru, ou o polvo! Meu Deus, como é que o tempo passou tão depressa? E com esforço e muito stress lá conseguimos comprar todas as prendas e o bacalhau — mas congelado, já demolhado, pronto a colocar na panela; e lá se foi o ritual que aprendi com a avó-madrinha. Ah, e os doces típicos da época natalícia não se fazem? Mas onde andarão as receitas? Valha-me Deus, que já não há tempo para telefonar à sogra… Pensando bem — já em modo desistência — talvez seja mais fácil e cómodo comprá-los, porque depois… bom depois, é só consumir. Perde-se o ritual legado pela tradição, é certo, mas quem é que tem tempo de ir para a cozinha sujar um monte de panelas, pedir ajuda aos miúdos (que só querem o Fortnite!), aproveitar para lhes contar aquelas estórias que alimentam as raízes, e correr o risco de esquecer algo essencial da receita? Quem é que hoje tem tempo para manter os saberes e os sabores que encantaram o paladar dos nossos avós? Sim, sim, que perdendo-se os saberes, perdem-se os sabores, e todos acabamos comendo as mesmas iguarias de igual sabor sem que nos apercebamos que as nossas mães e avós possuíam um toque mágico que faziam com que as suas rabanadas, fritas a fogo lento, “como fazia a avó da minha avó’ (!), fossem as ‘suas’ rabanadas! Lá está, não há tempo a perder para se ser tradicional, original, simples e criativo.

E lá se vão as raízes.

É também muito frequente dizer-se que o Natal é tempo de estar com a família, tempo de amor, aconchego, ternura em dobro, e de solidariedade. De festejar o nascimento do Divino Menino Jesus, que nasceu pobre, numa manjedoura e no meio de uns animais. Anunciado pela Estrela, foi visitado por simples pastores e pelos Reis Magos, vindos do Oriente, trazendo ouro, incenso e mirra para O adorar. Mas, passa o Natal e … já é dia 1 de janeiro. E… já passou o tempo de perder tempo, e … “vira o disco e toca o mesmo”!

Ao terminar o ano, as organizações, em geral, fazem um balanço do que passou e do que planeiam para o seguinte, definindo objetivos e metas a alcançar. Mas, será que cada um de nós faz isso para o seu jardim? Será que fazemos um balanço do ano anterior nas diversas dimensões da vida? Ou só fazemos um balanço do ponto de vista profissional? Será que temos objetivos pessoais, para a família, amigos… para mim, para o jardim e para a “nossa relação com Deus”?

Ao iniciar o ano de 2022 e, após se fazer um balanço do ano anterior, sejamos capazes de pensar e planear o novo ano, para além dos objetivos profissionais e de (alguns) pessoais. Porque não desafiarmo-nos a colocar alguns objetivos para melhorar e aproximar a “nossa relação com Deus”? Não interessa propor muitos e depois não os concretizar; o mais importante é fazer uma reflexão e estabelecer alguns objetivos para alcançar durante o ano. Seguem algumas simples sugestões, que se podem propor, para ajudar a cuidar do jardim:

i) Leitura de um livro. Um bom livro é sempre um bom amigo e bom conselheiro, tal como Santa Teresa de Jesus reconhece e recomenda.  Existem muitos livros bons, mas é preciso escolher um. Dispõe-te, por exemplo, a ler a História de uma Alma, das Edições Carmelo, para conheceres a “história da Florzinha colhida por Jesus”, Santa Teresa do Menino Jesus, que de forma simples pretende “apregoar as delicadezas absolutamente gratuitas de Jesus (…) que quis preservar a sua Florzinha dos ares envenenados do mundo” (História de uma Alma, Manuscrito A, 3vº). O mais fácil é… começar.

ii) Diariamente, de manhã e à noite, procura ter um tempo de silêncio, para regar e fortalecer a “relação de amizade com Aquele que mais nos ama”, como sugere Santa Teresa.  Podem ser 5, 6, 7, 10 ou 15 minutos … ou o tempo que te for possível. O mais fácil é… começar.

iii) Fortalece a amizade com a tua família. Como? Procurando, por exemplo, nas principais refeições, nomeadamente ao jantar, e nas do fim de semana, que a família esteja reunida mais tempo à mesa para conversar e conviver, sem tecnologia por perto a intrometer-se. Convém relembrar, que da base da pirâmide da Dieta Mediterrânica fazem parte as refeições em família e em grupo, à volta da mesa, para comer e beber, conversar e conviver, sem pressa.  A Dieta Mediterrânica foi reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade a 4 de dezembro de 2013, e dela participam Portugal e outros seis países da bacia mediterrânica. Para além disso, é considerada o padrão alimentar mais saudável e mais sustentável do mundo. O mais fácil é… começar.

iv) Caminhar e olhar a natureza. Dispõe-te a parar uns breves minutos e a olhar a natureza. Olhar, simplesmente. Aprende a perder tempo para olhar, pois também isso é cuidar do jardim. Pode ser olhar o céu, o mar, um rio, uma ponte, o cabeço duma serra, uma árvore, uma planta, um fruto, um carreiro de formigas… Olhar as cores, o tamanho, ouvir o som da água, o cantar dos pássaros, o zunir das abelhas… Olhar para o que Deus nos deu gratuitamente…, pois o olhar de Deus é gratuito, é amor, é como o sol que envia os seus raios para enxugar, aquecer, aformosear e resplandecer (Cântico Espiritual de São João da Cruz, 32,1.9). O ano tem 365 dias. O mais fácil é… começar.

v) A Eucaristia. Um amigo, numa conferência, cujo tema foi A Igreja Vive da Eucarística, referiu com palavras simples que um cristão sem Eucaristia está morto; precisamos, pois, dela, porque ela é um encontro e uma refeição que nos recorda a última ceia de Jesus, com os Discípulos. A Eucaristia é um mistério de fé, é certo, mas é também alimento e comunhão. Participar na Eucaristia centra a vida do nosso jardim na água viva e vivificante que é Jesus Cristo; lembra-nos que Ele se deu inteiramente para que na secura do deserto árido, em qualquer deserto, floresçam jardins belos! Jesus deu-se para que fôssemos jardins verdejantes. De facto, podemos trabalhar-nos muito, cultivar muito as letras e as artes, sermos um poço de sabedoria ou um belo monumento andante, mas que importa isso se o Amor não transformar o jardim?

Que importa tudo quanto possas fazer, se não sabes cuidar de flores? Até podes ir à Missa, mas que importa isso se não abres a porta do teu jardim ao teu Amigo e não o convidas a passear contigo pelo jardim da tua alma? Olha que o mais fácil até é… começar. Por tudo isto e muito mais é urgente cuidar do jardim.

Em breves palavras procuro explicar como nos tempos que correm (connosco), mais urge aprofundar e afinar as vias da interioridade e da comunhão com Deus.

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