Mar 15, 2022 | Sabedoria da Cruz

Carmelo de Aveiro

A Sabedoria da Cruz

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A cruz eleva-nos e permite-nos olhar a vida desde um miradouro de graça. E desafia-nos a nos deixarmos ensinar por Deus e a aprendermos do livro da vida.

Das quatro alas do meu claustro a que mais gosto é a da Sabedoria da Cruz. Talvez porque é a única que me permite olhar para a vida como um miradouro de graça. Quando falamos de Sabedoria da Cruz é disto que se trata: olhar para a vida desde um miradouro de graça.

Quando subimos a um lugar elevado e olhamos o horizonte contemplamos a paisagem no seu conjunto, na sua totalidade. E ela revela-se para nós um todo harmonioso com contornos e paisagens que nem sequer suspeitávamos que existissem, de uma beleza extraordinária, porque as diferenças e os acidentes aparecem perfeitamente unidos sem perderem a sua identidade e como que se exigindo mutuamente, de forma a revelar a Sabedoria d’Aquele que tudo cria como manifestação da Sua Glória e da Sua Beleza infinita.

A Cruz é este miradouro elevado — «quando Eu for elevado da terra atrairei tudo a mim» —, que nos permite contemplar a Sabedoria de Deus como princípio da graça existente em todas as coisas, em todas as circunstâncias e momentos da nossa vida.

Penetrar na Sabedoria da Cruz tem um dinamismo próprio e é o grande desafio que Deus nos faz a todos, porque se trata de reconhecer a Cruz como o que ela é: uma porta de entrada para a Verdade que é Deus. E não esqueçamos que em Deus Graça e Verdade andam juntas. A Sabedoria da Cruz não é senão o desafio a deixarmos que se cumpram em nós as palavras do Evangelista João, que dizem: «Nós vimos a sua glória de unigénito do Pai cheio de Graça e Verdade».

A nossa vida é um espaço de manifestação da graça e da verdade de Deus, mas para vermos assim temos que subir ao miradouro, temos que deixar que Deus nos pegue ao colo, nos eleve até ao seu rosto e nos faça olhar para a vida com o seu próprio olhar, desde os seus próprios olhos. Isto usando a linguagem de Isaías; mas se quisermos usar a de Paulo, o desafio aparece-nos situado na Cruz: «Pensei que entre vós não devia saber nada a não ser Cristo e Cristo Crucificado» e «longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo».

Para Paulo a Sabedoria da Cruz alcançou-lhe a liberdade sobre si mesmo, as coisas e o mundo, o Conhecimento de Deus pela Verdade e a Vida de Comunhão com Ele pela Graça. Ele experimentou o fruto da Cruz: o «Eis que faço novas todas as coisas» e diz-nos «de agora em diante já não conheço nada segundo a carne, mas segundo o espírito», que é o mesmo que dizer -de agora em diante conheço as coisas à luz de Deus, iluminadas pela luz que vem do alto e as transfigura, inserindo-as na história de amor e salvação que Deus faz comigo. Por isso, ele atreve-se a dizer: «A Graça de Deus em mim não foi em vão».

O desafio está em que a graça de Deus em nós não seja em vão e que, de facto, a sabedoria da Cruz seja para nós liberdade sobre nós, as nossas coisas e o nosso mundo, seja conhecimento da verdade de Deus em nós e graça que nos leva à comunhão de vida com Deus.

O maior desafio que Deus fez à minha vida foi o da sabedoria da Cruz. Deixar-me ensinar por Deus e aprender a ler o livro da vida, à luz da fé, levou-me, num primeiro momento, a descobrir a Cruz como uma fonte, de onde jorra um manancial de água viva que corre sem cessar e vivifica todas as coisas. Tal como o rio citado no Livro do Apocalipse que na sua margem tem arvores que estão sempre verdes, as suas folhas são medicinais e dão fruto os doze meses do ano.  Esta Cruz unia o céu e a terra, sendo como que uma ponte que unia o humano e o divino e fazendo descer até nós a graça que nos vivifica. E a água que jorra abundantemente podemos vê-la como um memorial do Sangue e água e água que brotaram do Coração trespassado de Cristo. Esta torrente vem diretamente a cada um de nós vivificando-nos e enchendo-nos da graça divina.

Ao beber desta fonte divina e desta água pura somos transferidos para a comunhão com Deus e a Cruz não é apenas fonte, mas é também porta, porta de passagem para a Santíssima Trindade para a comunhão de vida com Deus.  Aqui o nosso conhecimento da realidade é o que nos apresenta o livro dos Actos dos Apóstolos: «nele somos, nos movemos e existimos…somos da sua raça». Isto faz que tenhamos um conhecimento da nossa vida como um acolher de graça sobre graça, que se situa em Cristo enquanto alfa e Omega, princípio e fim de todas as coisas. Digamos que pela sabedoria da Cruz somos introduzidos em Cristo como num princípio, somos Cristo em crescimento e toda a nossa vida é um crescimento de graça rumo a plenitude que é Cristo tudo em nós. Nós movemo-nos em Cristo pelo amor com que o Pai nos ama. Esta é a obra da recriação do nosso ser e ao mesmo tempo a nossa participação na santidade de Deus!

Cristo em nós esperança de glória. Esta é a obra da Sabedoria da Cruz em todos nós, porque é o fruto do amor Redentor com que somos amados.

Termino deixando umas palavras do Papa Francisco acerca da Sabedoria da Cruz, que elas toquem fundo no nosso coração e nos façam aceitar o desafio de ser loucos para o mundo e sábios para Deus, sábios da Sabedoria da Cruz.

«Cristo entregou-Se até ao fim para te salvar. Os seus braços abertos na cruz são o sinal mais precioso dum amigo capaz de levar até ao extremo o seu amor: «Ele, que amava os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13, 1).

Olha para a sua Cruz, agarra-te a Ele, deixa-te salvar, porque, «quantos se deixam salvar por Ele, são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento». Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria».

O amor do Senhor é maior que todas as nossas contradições, que todas as nossas fragilidades e que todas as nossas mesquinhices, mas é precisamente através das nossas contradições, fragilidades e mesquinhices que Ele quer escrever esta história de amor.

A sua doação na Cruz é algo tão grande que não podemos nem devemos pagá-lo; devemos apenas recebê-lo com imensa gratidão e com a alegria de ser tão amados, ainda antes que o pudéssemos imaginar: «Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19).

Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo.  Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo.»

Diante da Cruz rezamos juntos:
Ó Deus,
Nunca ninguém me amou
Até entregar a sua vida por mim,
Para me dar uma vida nova.

Nunca ninguém se ofereceu por mim,
Para me resgatar de mim mesmo
E me dar a verdadeira liberdade,
Que é a liberdade dos filhos de Deus.

Nunca ninguém se fez Caminho
Para que eu pudesse chegar ao íntimo do meu ser
E encontrar-me conTigo
Que és a minha verdade última.

Só Tu, meu Deus,
Me amaste primeiro e me submergiste em Cristo
Para que Ele viva em mim e eu n’Ele.

O Teu olhar de amor
Forma o meu ser inteiro à imagem de Cristo
E eu, na fé, descubro-o revestido do meu próprio corpo.

Meu Deus,
«Para mim viver é Cristo»,
Por isso a vida do tempo presente
Quero vivê-la animada na fé do Filho de Deus,
Que me amou e se entregou por mim.

Agora sei que não há nada fora do Teu Amor
E que se vivemos, vivemos para Ti
E se morremos, morremos para Ti,
Porque nos abriste o Teu Coração de uma vez para sempre,
Quando nos chamaste à comunhão contigo
E nos fizestes conhecer a Sabedoria da Cruz.
Amen.

A cruz eleva-nos e permite-nos olhar a vida desde um miradouro de graça. E desafia-nos a nos deixarmos ensinar por Deus e a aprendermos do livro da vida.

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