Fev 8, 2022 | Vida da Terra

Professora aposentada. Carmelita secular.

A caminho da ecologia integral

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Tudo está ligado no planeta Terra, por isso a ecologia integral proposta pelo Papa é indisciplinada, não se deixa fechar numa das gavetas convencionais do saber.

A ecologia nasceu na segunda metade do século XIX pelas mãos do biólogo alemão Haeckel (1866) e do botanista dinamarquês Warming (1895) como ciência que estuda as relações dos seres vivos, nessa altura sobretudo vegetais, com o meio natural[1]. Na mesma época, o geólogo austríaco Suess formula uma nova entidade mais global para o estudo da vida, a biosfera (1875), que se relaciona com as múltiplas interações do mundo geofísico da litosfera, atmosfera e hidrosfera. A importância da ecologia como ciência da biosfera será realçada mais tarde pelo geólogo russo Vernadsky (1926). Estavam doravante estabelecidos os principais alicerces para novos campos do estudo científico da vida no planeta Terra.

No século XX, a ecologia evoluiu para a ciência dos ecossistemas. Primeiro, o botânico inglês Tansley propõe em 1935 uma modelização qualitativa do sistema ecológico, o ecossistema que integra organismos vivos, ainda essencialmente vegetais, e factores físicos do meio. O segundo passo é dado em 1942 pelo jovem biólogo americano Lindeman (1915-1942), associando ao ecossistema as leis da termodinâmica e conceitos económicos. O ecossistema passa a representar redes de fluxos de energia e produtividade de matéria entre todos os seres vivos. Após a 2ª Guerra mundial, a teoria geral dos sistemas e sua aplicação na biologia, mais os conceitos de auto‑regulação e feed-back oriundos da cibernética, permite o aprofundamento da ecossistémica de Lindeman e a divulgação da ecologia científica pelo mundo inteiro (Odum, 1953)[2].

A ecossistémica conferiu à ecologia um estatuto de ciência dura, própria para analisar e quantificar o estado e a evolução do ambiente. Mas o que é o ambiente? Nos meados do século XX, os debates mal saíram da esfera académica, nem se difundiu ainda junto das sociedades humanas uma noção integradora de ambiente. A ciência demonstrou que “tudo é energia” numa perspectiva biogeoquímica, mas a questão das intervenções humanas na biosfera não é clarificada, senão em termos de produtividade e de eficácia económica.

Tudo muda nos anos 1960 e, neste ano de 2022, podemos realçar que estamos em tempos de efemérides. Nos anos 1962-1972, iniciou-se um movimento imparável de consciencialização ecológica, pois o mundo é dominado por padrões de progresso técnico e económico pouco sensível aos seus efeitos no ambiente e nas desigualdades sociais. A Igreja está a viver os tempos fortes do Concílio Vaticano II, mas não deixa de participar neste movimento, iniciando o seu caminho para a mudança que estamos agora a viver em prol do cuidado da “casa comum”.  

Rachel Carson (1907-1964) é uma bióloga americana que recebeu por parte da mãe presbiteriana uma educação marcada pelo respeito da natureza. Trabalha primeiro sobre a vida marinha, interessando-se nos anos 1950 pela protecção do ambiente ameaçado pelos pesticidas então largamente utilizados na agricultura. Em 1962, publica Primavera Silenciosa[3], ou seja, uma primavera sem o canto dos pássaros, resultado de uma pesquisa no terreno, que demonstra os efeitos negativos do uso de DDT sobre o processo de reprodução das aves. O livro teve um enorme impacto nos Estados-Unidos e ajudou imenso na difusão da noção de ambiente e do ambientalismo por todo o mundo.

Em Junho de 1972, as Nações Unidas convocam uma Conferência sobre o Ambiente Humano, primeira Cimeira da Terra, para a introdução de princípios ecológicos na gestão do ambiente. No final, a “Declaração de Estocolmo” coloca as questões ambientais na agenda internacional e marco o início de um diálogo entre países industrializados e em desenvolvimento acerca das relações entre crescimento económico, poluição dos bens comuns mundiais (ar, água, oceanos) e o bem‑estar das pessoas.

 É importante assinalar o relatório preliminar de apoio à Conferência, Only one Earth, síntese de 70 contribuições de cientistas e personalidades, preparada por Barbara Ward (1914-1981), economista inglesa e católica empenhada, e René Dubos (1901-1982), agrónomo, microbiólogo e ambientalista após a sua aposentação. Este documento, execional para a época, apresenta questões multidisciplinares relativas ao ambiente e soluções que fazem dos dois relatores os precursores diretos do conceito de desenvolvimento sustentável delineado em 1987 em O Nosso Futuro Comum[4]. René Dubos era adepto de uma ecologia global e de uma gestão responsável do ambiente à escala local. Deixou-nos em herança a sentença Pensar globalmente, agir localmente, que sustenta um modo de pensar as relações da humanidade com a Terra e de agir à nossa volta.

Entretanto, foi na mesma década que Lynn White, historiador medievalista e prebisteriano assumido, publica em 1967 um pequeno artigo provocador, que ainda estimula reflexões e comentários. As raízes da crise ecológica encontram-se no cristianismo ocidental que aplicou à letra o versículo “Crescei… e submetei a terra,… dominai a terra” (Gn 1, 28), denunciando um antropocentrismo excessivo na cultura ocidental. Este artigo criou um alvoroço no mundo académico e ambientalista e L. White explicou melhor a seguir a sua posição[5]. Mas a mensagem não escapou ao Vaticano.

A Igreja toma consciência dos riscos de uma catástrofe ecológica pela voz do Papa Paulo VI, muito bem informado por cientistas e pela própria Barbara Ward. No seu discurso para a celebração dos 25 anos da FAO em 1970, salienta os perigos do aumento da produtividade sobre o equilíbrio ambiental. «Numa palavra, tudo está unido intimamente, sendo, portanto, necessário prestar atenção às consequências de longo alcance… O homem empregou milénios para aprender a submeter a natureza, a dominar a terra, como diz a palavra inspirada do primeiro livro da Bíblia. Agora, soou a hora de ele dominar o seu próprio domínio.»[6] Também envia uma mensagem à Conferência de Estocolmo de 1972. «Surge hoy la conciencia de que el hombre y su ambiente natural son, como nunca, inseparables: el ambiente condiciona esencialmente la vida y el desarrollo del hombre; éste, a su vez, perfecciona y ennoblece el medio ambiente con su presencia, su trabajo, su contemplación. Pero la capacidad creadora del hombre no producirá frutos auténticos y duraderos sino en la medida en que el hombre respete las leyes que rigen el impulso vital y la capacidad de regeneración de la naturaleza: uno y otro son, pues, solidarios y comparten un futuro temporal común»[7]. Assim fechamos a apresentação de alguns exemplos do despertar da consciência ecológica durante a década 1962-1972. Nos anos 70, vários filósofos e cientistas fazem a crítica da ciência que institucionalizou uma distinção rígida entre pesquisas naturais e sociais: «Estou cada vez mais convencido de que a ciência antropo-social precisa de ser articulada com a ciência natural, e que esta articulação requer uma reorganização da própria estrutura do conhecimento» (Morin, 1977)[8]. A Igreja vai manter a chama da consciência ecológica acesa. Até ao convite do Papa Francisco à conversão ecológica pela Encíclica Laudati si.


[1] Drouin, J-M, 1993, Reinventar a natureza, a ecologia e a sua história, Instituto Piaget (1ª ed. francesa, 1991).

[2] Odum, E e H, 1970, Fundamentos de Ecologia, Gulbenkian, várias edições em português a partir dos anos 1970.

[3] Silent Spring, Houghton Mifflin; ed. portuguesa, Pórtico, 1966.

[4] Boné, E (s.j.), 1973, Nous n’avons qu’une terre, Nouvelle Revue Théologique, 95 Nº 3, recensão; Relatório Bruntland da Comissão Mundial do Ambiente e Desenvolvimento.

[5] White, Lynn, 1967, The Historical Roots of our Ecologic Crisis , Science, 155 (3767), 10 mars 1967, 5 p. ; Greiner, D., Nous sommes tous de la terre. Une lecture de l’encyclique laudato si’, Transversalités, Oct.-déc. 2016, n° 139, p. 25-37.

[6] Visita do santo padre à sede da FAO por ocasião do XXV º aniversário da instituição. Discurso do Papa Paulo VI à assembleia geral, 16 de Novembro de 1970.

[7] Mensaje de su santidad Pablo VI a la conferencia de las Naciones Unidas sobre el medio ambiente, 1 de Junho de 1972.

[8] Morin, Edgar, 1987, Método I – A Natureza da Natureza. Europa América, 1987 (1ª ed. francesa: 1977).

Tudo está ligado no planeta Terra, por isso a ecologia integral proposta pelo Papa é indisciplinada, não se deixa fechar numa das gavetas convencionais do saber.

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