Mai 24, 2022 | Do pó à poesia

Carmelita Secular

A Ascensão é uma despedida ou um novo começo?

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Um dos mistérios da fé que mais transformou a minha vida foi a realidade de sermos TODOS um só em Cristo. Esta verdade está amplamente desenvolvida por S. Paulo em especial no capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios, mas também está clara no evangelista João, por exemplo, na oração sacerdotal do capítulo 17 ou na alegoria da videira, da qual somos ramos. Somos membros uns dos outros e somos Corpo de Cristo, sem confusão nem divisão.

Durante muito tempo, procurei de onde vem esta ousadia de nos vermos já um com Cristo. Daí redescobri outros mistérios da fé, nomeadamente que encarnação não significa que Jesus foi uma criatura como nós. Jesus é Deus. Na encarnação, no corpo de um homem, assumiu tudo o que existe. No Seu próprio corpo acontecem todas as coisas. Tudo o que existe é sempre Cristo. Com a encarnação mostrou o que é ser homem e o ser de Deus. Venceu a morte, é o Vivente. Na ascensão voltou para o Pai, mas não foi sozinho, levou-nos a todos em Si. Junto do Pai iniciou uma liturgia celeste que envolve toda a criação. Os padres da igreja usavam a expressão “Cristo total”, pois Jesus é a cabeça do seu corpo.

Tudo isto vem do mistério pascal, da vitória continuada sobre todas as formas de morte. Toda a divisão entre irmãos é realmente uma ferida dolorosa em Cristo, mas todos podemos ser agentes da comunhão que permite restaurar a unidade.

Ascensão, Rupnick

Esta imagem, da escola de Rupnick e o livro, “A fonte da liturgia”, de Jean Corbon ajudam-me a continuar a expressar a beleza deste mistério que me fascina. No ícone da ascensão de Rupnick, Jesus, que volta para o Pai, leva-nos a todos unidos a Si.

Ainda no referido ícone figuram algumas das expressões de Corbon que transcrevo: “Na Ascensão, Cristo celebra a liturgia junto do Pai, eterna e vivificante, e difunde-a sobre o mundo pela efusão do Seu Espírito. Só existe uma Páscoa, mas a sua força poderosa desdobra-se numa Ascensão e num Pentecostes contínuos. Aquele que descera às profundezas das trevas, ergue-se até encher tudo com a sua luz. Na Ascensão começou um tempo novo: a liturgia dos últimos tempos. O Senhor não partiu para repousar. Ele está nesse trabalho que é a liturgia, levou os cativos que somos nós para o mundo novo da sua ressurreição e derrama sobre os homens os “seus dons”, o Seu Espírito. A Sua Ascensão é um movimento progressivo para que “cheguemos todos à medida de Cristo. O movimento da Ascensão só ficará completo quando todos os membros do seu Corpo tiverem sido atraídos para o Pai e vivificados pelo Seu Espírito. A liturgia celeste faz passar este mundo à glória do Pai, numa grande Páscoa cada vez mais poderosa e celebra o acontecimento contínuo do regresso do Filho – e de todos n’Ele – à casa do Pai. A história não se encerra na Ascensão, mas prossegue para a sua libertação final.” Na celebração inaugurada na ascensão vivemos o movimento de regresso, da passagem deste mundo para o Pai. A liturgia leva-nos para o Pai, por Cristo no Espírito Santo. Em cada Eucaristia somos imersos nessa liturgia celeste; isto também se dá na Liturgia das Horas e em todos os momentos, mas nós, raramente, nos apercebemos desta forte unidade.

Esta imagem da escola de Rupnick não tem os símbolos habituais da ascensão que são Jesus a benzer o mundo com uma mão e segurando o rolo, o Livro da História, na outra. No entanto, tem a beleza de associar ao seu corpo que ascende ao Pai TODA a Humanidade representada nestas poucas pessoas que estão presas, mais do que às vestes, ao Corpo ressuscitado; parecem ser puxadas por Ele. Também une à Ascensão o Pentecostes (nas línguas de fogo) e a descida aos infernos para, em Adão, devolver ao Pai o Homem caído. A liturgia está visível nos símbolos do pão, do cálice e da bênção.

A representação da Ascensão no centro da abóboda das igrejas era muito frequente até ao início do segundo milénio. Os cristãos eram conscientes de que comungando, o Espírito Santo os constituía o Corpo de Cristo total em Quem regressavam ao Pai. Não que tinham diante não lhes falava de uma partida, mas pelo contrário, de uma vinda. A expressão de Apocalipse, 22 – “Escutem, Eu venho em breve, Eu estou” – era uma certeza que infundia confiança e esperança.

Rupnick, Basílica da Santíssima Trindade, Fátima.

Também no painel da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, Rupnick procurou ilustrar estas mesmas realidades. O Cordeiro degolado que venceu a morte volta para o trono do Pai, com toda a Humanidade. Ainda não vivemos esta realidade em plenitude, mas em caminho. Por exemplo, dois dos santos representados são Olga e Vladimir, santos ucranianos que levaram a fé ao povo russo. Hoje há tanto ressentimento entre estes povos irmãos. Um dia, Cristo será tudo em todos. Todos estaremos com Ele, para sempre, e em paz.

Os evangelhos narram que Jesus ascende ao Pai com um gesto de bênção. Nessa bênção comunica o Espírito Santo, que é a alma da igreja e Aquele que tudo reconduzirá a Cristo e por Ele ao Pai. Porque a ascensão não é apenas um facto histórico, mas, sim, a base da história, uma constante e uma realidade perene, nas aparições em Fátima, Jacinta, Francisco e Lúcia puderam participar também deste mistério, por terem visto S. José e Jesus a abençoar o mundo. Desejo, amigos leitores, que nos firmemos nesta bênção e desde o altar do nosso coração deixemos viver em nós o Cristo total.

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