Abr 19, 2022 | Colina da Moria

Carmelita Descalço

O desafio da paz

Santa Teresa de Jesus diz que o beijo é sinal de paz e de grande amizade entre duas pessoas. Fala da amizade com Deus e da paz com os homens. Viveu em guerra espiritual, alcançou a verdadeira paz e desperta-nos para a paz de Deus e dos homens.

Está o Rei no seu palácio, e há muitas guerras em seu reino. As nossas potências, parece fazerem-nos guerra. Paz, paz, minhas irmãs, disse o Senhor e admoestou os Seus Apóstolos tantas vezes. Pois, crede-me que, se não a temos e não a procuramos em nossa casa, não a acharemos na dos estranhos. Acabe-se já esta guerra.

Jesus é a fonte da paz: Também tenho pensado se pedia aquela união tão grande, como foi Deus fazer-se Homem, aquela amizade que trocou com o género humano. Ninguém lhes pode tirar a paz porque esta só de Deus depende. A esta outra fonte, vem a água da sua mesma nascente, que é Deus. Ele produz esta água com grandíssima paz e quietação e suavidade no mui interior de nós mesmos, começa em Deus e acaba em nós.

O nosso pecado contra Deus é uma guerra campal: Oh! Não entendemos que o pecado é uma guerra campal de todos os nossos sentidos e potências da alma contra Deus! Não deixe eu o meu Deus, não deixe eu de gozar em paz tanta formosura. Oh! Jesus! Quem soubesse as muitas coisas da Escritura que deve haver para dar a entender esta paz de alma! Deus meu! pois vedes quanto importa, fazei que os cristãos a queiram buscar. E pareça – como de facto assim é – que estamos em guerra e que, até termos a vitória, não há-de haver descuido. Vós, meu verdadeiro Amador, começais esta guerra de amor. Oh amor forte de Deus!… Oh ditosa alma que chegou a alcançar esta paz de seu Deus.

A verdadeira paz que Deus concede à alma é a sua união com ela. Ó santa Esposa, venhamos ao que pedis, que é aquela santa paz que faz aventurar a alma a pôr-se em guerra com todos os do mundo, quedando ela com toda a segurança e pacífica. Oh, quem pudesse dar a entender a vossa senhoria a quietude e sossego com que se encontra a minha alma, está como num castelo com senhorio, e assim não perde a paz. Imaginou o céu como a continuação da paz que Deus lhe fez gozar na terra, porque ali, entre outras coisas, os bem-aventurados gozarão de paz perpétua.

A paz é dom do Esposo à Esposa e alta petição da Esposa ao Esposo: E, Senhor meu, se significa paz e amizade, por que não Vos pedirão as almas que a tenhais com elas? Que melhor coisa podemos pedir do que o que eu Vos peço, Senhor meu: que me deis esta paz com um beijo de Vossa boca? Esta, filhas, é altíssima petição. Esta há-de ser a oração dos carmelitas: Assim, se o Senhor vos trouxe a este estado, pouco vos falta para a amizade e a paz que pede a Esposa. Não deixeis de a pedir com lágrimas muito contínuas e desejos. Vos aconselho que sempre peçais com a Esposa esta paz tão regalada. Leia-lhe a última morada e diga-lhe que àquele ponto chegou aquela pessoa, e com aquela paz que lá se descreve, e assim vai vivendo vida muito descansada.

O mundo está ardendo. A Europa estava em guerra religiosa. Hoje está em guerra política. Abandonou a estratégia da força de armas e adoptou a oração pela paz: Fazei, Senhor, que se acalme este mar. Não ande sempre em tamanha tempestade a nave da Igreja! E salvai-nos, Senhor meu, que perecemos!

Desenhou a arquitectura da paz e trabalhou como artesã da paz, promovendo-a entre calçados e descalços: Foi Deus servido que os Descalços se separassem dos Calçados. Agora, Calçados e Descalços, estamos todos em paz e ninguém nos impede de servir Nosso Senhor.

Queria ver tudo em paz. Digo-lhe que não sei como posso estar em paz dando-me Vossa Mercê tanta guerra. Ensina-nos o caminho da paz: Importa muito guardar as virtudes para ter paz que tanto nos encomendou o Senhor interior e exteriormente. Todas estas coisas ajudam muito à paz e conformidade de umas com as outras. O mosteiro da Encarnação era uma casa de paz: Oh, senhora, quem se viu no sossego das nossas casas e se vê agora metida nesta barafunda! Contudo, glória a Deus, há paz, que já não é pouco». Olhai, irmãs, o que nos importa amar-nos umas às outras e ter paz.

Propõe a paz pela não-violência activa: Mande-me Vossa Senhoria fazer saber se há alguma notícia de paz, porque se, pelos meus pecados, este negócio ser resolve por meio da guerra, temo grandíssimo mal nesse reino, e a este não pode deixar de vir grande dano. Por amor de Nosso Senhor procure um acordo. Praza a Sua Majestade pôs nisto as suas mãos, como todos Lho suplicamos, que eu digo a Vossa Senhoria que sinto isto tão ternamente, que antes desejo a morte – se Deus permitir que venha tanto mal – para o não ver. O Senhor nos dê luz para que se entenda a verdade sem tantas mortes como há-de haver se se lançam às armas; e em tempo em que há tão poucos cristãos, que se acabem uns aos outros é grande desventura.

A oração exige a paz: O que mais convém para este caminho é paz e sossego na alma. Canta a aventura da vida, a ditosa guerra para alcançar paz crescida. Dai-me guerra ou paz crescida / Só acho paz aqui: / não há paz na terra /Oh glorioso vencimento! / Oh ditosa esta guerra! / Não haja nenhum cobarde! / Aventuremos a vida! / Pois Jesus é nosso guia / E o prémio desta guerra.

A oração alcança a paz: Ó Deus de minha alma! Que pressa nos damos em ofender-Vos e como Vós Vo-la dais maior em perdoar-nos! Oh! Oh! Oh! Que grave coisa é o pecado, pois bastou para matar a Deus com tantas dores! Ó cristãos verdadeiros! Ajudai a chorar o Vosso Deus. Ressuscitai estes mortos. Não Vos pediu Lázaro que o ressuscitásseis; por uma mulher pecadora o fizestes. Vede-a aqui, Deus meu, e muito maior. Resplandeça Vossa misericórdia. Eu, embora miserável, Vo-lo peço pelos que não querem pedir. Porque não haveis, pois, de querer viver para sempre? Oh! dureza de corações humanos! Abrande-os a Vossa imensa piedade, meu Deus!

Se a oração é viva, mexe dentro, reaviva o fogo da missão, reacende a alegria, provoca-nos continuamente para nos deixarmos inquietar pelo grito sofredor do mundo. Perguntemo-nos: como estamos a levar à oração a guerra em curso?

O Deus da paz esteja com todos vós.

P. Manuel Reis

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