Mai 3, 2022 | Casa comum, Economia e fé

Professora. Carmelita Secular

O Amor como critério de Gestão

Há uns anos atrás tive a graça de participar no lançamento de um livro que tinha um título que considerei muito apelativo, que me fez estar presente e deixar outros compromissos: “O Amor como critério de gestão[1]”. Uma grande ousadia, pensei… e mais agradada fiquei quando percebi que o seu autor era um advogado e empresário com provas dadas de grande rigor e sucesso no seu trabalho. Foi uma leitura muito interessante e já muitas vezes sugerida aos meus alunos.

Mas será então que o Amor também pode ou deve dominar nas organizações?

Como nos é referido no prefácio desta obra (p.13), as economias de mercado que melhor funcionam são aquelas em que há maior adesão natural e espontânea aos valores que asseguram o bem comum: aquelas em que há menor conflitualidade, em que a sansão do Estado é menos necessária, em que o maior número de pessoas percebe que é no interesse de todos atuar no sentido do bem comum. Os países mais avançados – que são também aqueles em que há maior qualidade de vida, no sentido mais lato do termo – são aqueles em que há menos conflitualidade social, menos evasão fiscal, menos abuso de poder económico, menos tentativa de fugir às regras do jogo competitivo. Não é por acaso que a grande maioria destes países são dominados por uma matriz de valores de origem cristã, que mesmo num mundo mais materialista e menos crente, continuam a ser os que maior impacto têm. É fundamental não esquecer que no processo de desenvolvimento se deve conseguir garantir a compatibilização entre o interesse individual e o interesse coletivo que está na base das economias mais avançadas. O elemento mais intrigante desta questão é a ideia simples de que o amor na gestão se pode resumir a um princípio simples: tratar todos como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no seu lugar. [2]

O autor vai justificando, nas diferentes dimensões empresariais, como este critério pode ser aplicado. E deixa conclusões interessantes, como agir com amor é essencial à peregrinação empresarial de um cristão. Afirma que decantado do sentimentalismo, o amor é vital para a nossa paz espiritual e para agradarmos a Deus. Sem amor, Deus não tem tempo de entrada na nossa vida e sem amor não teremos tarefa fácil na eternidade. Para um cristão a diferença essencial entre ética nos negócios e o amor como critério de gestão é que só este é o caminho prudente de salvação (pag. 72).

Ler e refletir sobre este tema levou-me a Santa Teresinha, que recebeu o título eclesial de Doutora da Ciência do Amor. Que teria ela a dizer sobre o Amor como critério de gestão? Ela que descobriu o amor como a sua verdadeira vocação e certamente compreendeu muito bem como o Amor pode trazer muitos benefícios a todas as organizações.

Teresinha na leitura dos capítulos 12 e 13 da Primeira Epístola aos Coríntios percebeu que o apóstolo São Paulo, depois de ter falado dos carismas em geral, com ritmo crescente, louva a excelência da caridade, ressaltando a sua necessidade, os seus valores e a sua sobrenatural perpetuidade. Esta leitura trouxe paz a Teresa, porque compreendeu finalmente como podia realizar todos os seus desejos. Movida por um impulso inicial que a fez desejar todas as vocações, deteve-se um momento na sua busca. Com efeito, São Paulo afirma claramente que não se pode ser ao mesmo tempo profeta e doutor, pois a Igreja compõe-se de diversos membros e que o olho não poderia ao mesmo tempo ser a mão. E Teresinha escreveu: “Sem desanimar, continuei a leitura, e consolou-me esta frase: ‘Procurai com ardor os dons mais perfeitos, mas vou mostrar-vos ainda um caminho mais excelente’. E o apóstolo explica como os dons mais perfeitos não valem nada sem amor, que a caridade é o caminho mais excelente para ir a Deus com segurança.

A explicação da perfeição da caridade que o apóstolo faz oferece a Teresa o modo de penetrar profundamente no mistério desta virtude e de compreender a sua fecundidade. Analisando o Corpo místico de Cristo, Teresa descobre no coração deste Corpo místico a fonte do amor que se converte para a Igreja em atividade ardente.

“A caridade deu-me a chave da minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha um corpo composto de diversos membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não lhe faltava: compreendi que a Igreja tinha um coração, e que esse coração estava ardendo de amor. Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja; que se o Amor se apagasse, os apóstolos já não anunciariam o Evangelho, os mártires recusar-se-iam a derramar o seu sangue. Compreendi que o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que abarca todos os tempos e todos os lugares… numa palavra, que é eterno. Então, num transporte de alegria delirante, exclamei: ‘Ó Jesus, meu Amor! encontrei finalmente a minha vocação: a minha vocação é o Amor!’ Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, e esse lugar, ó meu Deus, fostes Vós que mo destes… No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, assim serei tudo, assim o meu sonho será realizado!!!” (Manuscrito B 3v). 

Teresa de Lisieux tem a convicção de que a autenticidade do nosso amor a Deus se manifesta na qualidade de amor aos outros. Teresa sente-se uma criatura impotente, um débil passarinho, mas tem a força do amor, já que amor com amor se paga, como aprendeu de S. João da Cruz que dizia: «o mais pequeno movimento de puro amor é mais útil à Igreja que todas as muitas obras juntas» (Cântico Espiritual 29, 2; Cf. Manuscrito B 4v).[3]

Creio que é deste amor que as empresas precisam e que António Leite nos falava. E como que por analogia podia “replicar” este amor para as empresas: se os empresários não amarem os seus colaboradores permitindo-lhe condições dignas de trabalho e uma boa articulação da vida profissional com a vida familiar; se os colaboradores não amarem o seu trabalho desempenhando-o com responsabilidade e rigor; se os clientes não cumprirem os seus compromissos financeiros pagando na data acordada; se os fornecedores não se pautarem por regras de qualidade e excelência na produção de matérias primas ou no fornecimento dos seus serviços; se os consumidores se demitirem do seu papel de exigência perante os produtos, de preferir produtos amigos do ambiente e da sociedade, provenientes da um produção limpa e que respeite os direitos humanos dos trabalhadores… então como será a nossa sociedade?

O Amor transforma… e as organizações precisam desse perfume transformador…

Então, também os empresários, colaboradores, banca, clientes, concorrentes, fornecedores, ONGs, consumidores, academia… seja qual for a nossa posição de shareholders ou stakeholders,  que nos deixemos abraçar por este Critério de Gestão: o AMOR!


[1] O Amor como Critério de Gestão, de António Pinto Leite, 2012, Principia Editora. Este pequeno texto pretende suscitar no leitor o interesse pela leitura completa deste livro para uma reflexão mais profunda sobre este tema.

[2] Ideias retiradas do prefácio redigido por António Borges.

[3]  Ideias retiradas do texto escrito por Frei Joaquim Teixeira: “Teresa no coração da Igreja”.

Há uns anos atrás tive a graça de participar no lançamento de um livro que tinha um título que considerei muito apelativo, que me fez estar presente e deixar outros compromissos: “O Amor como critério de gestão[1]”. Uma grande ousadia, pensei… e mais agradada fiquei quando percebi que o seu autor era um advogado e […]

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