Mai 31, 2022 | Casa comum, Cuidar do jardim

Professor. Carmelita Secular

Cuidar do jardim através dos sentidos

Este artigo pretende desafiar-nos a aprimorar os nossos sentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato. Foram-nos oferecidos pelo Criador. Só precisámos de os usar. Quero dizer, de os treinar. 

Cuidar do nosso jardim (interior) dá trabalho. No artigo “É tempo de cuidar do jardim”, aqui publicado nos primeiros dias deste ano, foram lançados alguns desafios, que nos podem ajudar a aprofundar as nossas vias da interioridade e da comunhão com Deus. Neste artigo, pretende-se abordar a importância dos nossos sentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato. Foram-nos oferecidos pelo Criador. Só precisámos de os usar. Quero dizer, de os treinar.

Nem sempre estamos conscientes da utilização dos nossos sentidos. Existe muita “coisa” à nossa volta que nos distrai. A vida humana gira muito à volta do que vemos, ouvimos, saboreamos, cheiramos e tocamos. Os sentidos dão-nos a perceção do ambiente que nos rodeia, é um meio de aprendizagem, de memórias e de criação de relações. Muito se pode dizer sobre os sentidos. Aqui apenas se pretende fazer uma simples e breve reflexão da forma como utilizamos os sentidos para cuidarmos da nossa relação com o nosso Amigo, Aquele que nos ama sempre.

A visão

É através dos olhos que captamos a luz e a perceção de imagens. Precisámos da visão para ver o que nos rodeia, ler, caminhar, conduzir, apreciar, contemplar, … e muito mais.  A visão guia o caminho a seguir. Por isso, podemos ver como está o nosso próximo (um familiar ou amigo ou colega de trabalho), se está triste, doente, a sorrir ou a precisar de ajuda. Podemos encontrar Deus no próximo, se estivermos atentos. Temos olhos para ver e às vezes não vemos ou não queremos ver. Convém salientar que a fé, que significa acreditar sem ver, é “uma experiência de exterioridade, uma saída das nossas visões parcelares, um romper com as nossas perspetivas” [1: p. 210].

A audição

É através dos ouvidos que identificamos e interpretamos os sons. Escutamos a voz das pessoas, a música, a água e os pássaros. É, porventura, uma das competências que menos desenvolvemos, porque “escutamo-nos tão pouco” [1: p.143]. Temos dois ouvidos para escutar e nem sempre escutamos.  Existe muito ruído que nos distrai, pois “se queremos perceber como se ativa uma escuta autêntica: «Abre o ouvido do teu coração». Quer dizer: a escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração. A escuta não é apenas a recolha do discurso sonoro. Antes de tudo, é atitude, é inclinar-se para o outro, é disponibilidade para acolher o dito e o não dito, o entusiasmo da história ou o seu avesso, a sua dor” [1: p.143]. Escutar o próximo com atenção, em silêncio, para o podermos ajudar, aproxima-nos de Deus.

O paladar

É através das papilas gustativas na boca que identificamos os sabores básicos dos alimentos (doce, salgado, ácido e amargo). Na boca apercebemo-nos da temperatura, textura, consistência, viscosidade e do sabor. Em geral, é à mesa que comemos os alimentos que mais gostámos e evitámos os que menos apreciámos, juntamente com a família e os amigos, em convívio. Uns gostam mais dos doces e outros dos salgados. As nossas avós e mães sabem bem do que mais gostámos. Só que, por vezes, somos muito gulosos e não damos atenção devida ao que o outro gosta. Deveríamos estar mais atentos. Nos “seus Exercícios Espirituais, Santo Inácio de Loyola explicava: «Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas sim sentir e saborear internamente as coisas». Estes dois verbos – sentir e saborear – resumem muito da proposta da experiência de Deus que ele nos faz. É numa viagem interior que entramos, mas partindo dos nossos sentidos e das suas operações, dos sentimentos que investimos na vida e dos afetos que desenvolvemos. Só assim a experiência de Deus se pode tornar uma experiência integral, que nos mobiliza afetivamente” [1: p.110].

O olfato

É através do nariz que captamos os cheiros no ambiente. Vários autores estimam que possamos diferenciar cerca de 10 mil odores. Identificamos os alimentos, as bebidas, os ambientes e as pessoas pelos seus odores. Pode-se dizer que o olfato tem “uma linguagem invisível, que não ocupa espaço, (…) rapidamente se propaga. (…) É um fantástico centro de interpretação da vida. Cada instante tem o seu odor. Cada estação. Cada pessoa. O odor imprime tonalidades afetivas a um instante que queremos distinguir de outro. O odor é volátil, (…) uma espécie de mapa, uma forma íntima de conhecimento” [1: p.115].

O tato

É através da pele que captamos os estímulos táteis, de pressão, dor e da temperatura. A pandemia afastou-nos uns dos outros, deixámo-nos de nos cumprimentar com a mão, ou dar dois beijinhos e de abraçar. Isolámo-nos. Houve momentos que sentimos a ausência de tocar noutra pessoa. O toque pode ser descrito como “um produtor e um descodificador de linguagens, e estas seduzem ou repelem, interrompem e prolongam, acariciam e isolam (ou vice-versa)” [1: p.57]. Na nossa vida espiritual, o toque pode ser “como uma dança em que nunca tocamos, nem permitimos que nos toquem. Confiamos demasiado nas palavras, acreditando que elas bastam, que só elas nos dirão” [1: p.63].

Se quisermos, podemos trabalhar os nossos sentidos, principalmente, com as pessoas mais próximas. Só requer um pouco de atenção. Citando o Cardeal José Tolentino de Mendonça, no livro A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa [1]: “É impossível pensar um caminho de fé que não tenha a ver com o que ouvimos, o que vemos, o que tateamos, o que nos chega através do odor, muitas vezes invisível, ou então do sabor de Deus”.

Os sentidos ajudam-nos a reencontrar o nosso interior e a presença de Deus. Olha que o mais fácil até é… começar.

Por tudo isto e muito mais, é urgente cuidar do jardim.

Referências bibliográficas [1] Mendonça, José Tolentino, (2014). A mística do instante. O tempo e a promessa. Editora Paulinas. ISBN: 9789896733964

Este artigo pretende desafiar-nos a aprimorar os nossos sentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato. Foram-nos oferecidos pelo Criador. Só precisámos de os usar. Quero dizer, de os treinar.  Cuidar do nosso jardim (interior) dá trabalho. No artigo “É tempo de cuidar do jardim”, aqui publicado nos primeiros dias deste ano, foram lançados alguns desafios, […]

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