Ago 15, 2023 | Desafios, Sabedoria da Cruz

Carmelo de Aveiro

A Sabedoria da loucura de Deus

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Agradecer a morte será (uma aparente) loucura da sabedoria?
São Paulo responde a esta pergunta dizendo: «A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem, mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus e sabedoria de Deus». Nós vamos tentar responder entrando na espessura da loucura da Sabedoria, escrita por Deus, no livro da na nossa vida.

Depois do desconcerto da sabedoria que tinha desembocado na minha morte interior, vamos, agora, olhar para o horizonte da loucura da Sabedoria de Deus.

O meu único projecto de vida era seguir a Cristo na radicalidade do Evangelho e isto porque Ele o gravou no íntimo do meu ser, quando me chamou a segui-l’O mais de perto. Agora, que estava morta, e nem sequer sabia porque é que Deus me tinha entregado à morte, convidavam-me a agradecer… Agradecer o quê? A minha morte? Diante do absurdo que era agradecer a morte, exteriormente permaneci em silencio, mas no íntimo do meu ser perguntei a Deus: O que é que eu tenho para agradecer? Será que tenho alguma coisa para agradecer?

Pensando que a minha pergunta não tinha resposta, e que ninguém me escutava, levantei o olhar para o horizonte e deixei o pensamento perdido no absurdo que era agradecer a morte, enquanto à minha volta tudo era silêncio…

Mas algo aconteceu…

Naquele instante, diante de mim, surgiu a Cruz e Jesus Crucificado nela. Era claro. Isto era o que eu tinha para agradecer: Jesus Crucificado na Cruz. Isto era o que a minha morte simbolizava: estar crucificada com Cristo na Cruz. A morte era Crucifixão e a Cruz de Jesus era a minha Cruz. Eu estava crucificada com Cristo na Cruz. A mesma Cruz para os dois e eu perdida n’Ele.

Deus tinha-me escutado e tinha dado resposta à minha pergunta. Contudo as angústias da morte e os sulcos de dor tão profundos e intensos gravados no meu interior ocultavam a presença de Deus e impediam-me de ver o quão grande era a Sua proximidade e como me sustentava com o Seu amor infinito e eterno. Como nada Lhe era oculto, conhecia muito bem o meu sofrimento íntimo e a minha incapacidade para perceber o que estava a acontecer. Então, fez com que do meio do grupo de pessoas que me rodeavam surgissem uns acordes de viola e um cântico, que mais parecia Deus a explicar-me o que eu estava a viver; o cântico dizia: «Ninguém te ama como Eu, olha para a Cruz é a minha maior prova… Foi por ti, só por ti porque te amo. Ninguém te ama como Eu». Naquele instante emudeci diante da proximidade de Deus!

A resposta de Deus ajudava-me a entender o “absurdo da morte”, mas não me libertava dela, nem da cruz. Deus tinha respondido à minha pergunta, mas eu tinha de prosseguir o caminho tal como estava. A questão estava em ter forças para, mesmo morta, prosseguir adiante, mesmo sem saber se existia caminho, mesmo sem saber se Deus me aceitaria assim, desfigurada pela morte… já tinha perdido tudo, não tinha mais nada a perder, restava-me apenas esperar contra toda a esperança. Uma esperança que era simplesmente um não apresentar resistências ao caminho que diariamente se abria diante de mim, mesmo sem saber se aquilo era caminho ou apenas um amontoado de acontecimentos sem nexo, que se sucediam no tempo. Tudo se traduzia por um deixar-me levar pelo Deus Escondido à minha fé.

Existe um texto do Profeta Isaías que me permitiu, e nos permite a todos, identificar muito bem os movimentos interiores que a loucura da sabedoria de Deus nos faz viver.  Mas antes de entrarmos aí, gostaria de recordar que estar unido com Cristo, na sua própria Cruz, é o mais alto grau de união que é possível alcançar com Ele; isto é Paulo quem no-lo afirma e de facto é assim que o experimentamos: «Com Cristo estou Crucificado já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim e a vida do momento presente vivo-a animada na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim».  Outra coisa que gostaria que tivéssemos presente é que para chegar aqui existe o processo da aprendizagem da sabedoria, quer dizer o processo de trocar o sabor das coisas humanas pelo sabor das divinas. A isto chamam os espirituais de purificação. E a purificação não é mais do que o caminho a percorrer para voltar a alcançar a graça original. Um caminho composto de luz e trevas, de alento e desilusão, secura e aridez, gozo e consolação, morte e vida… um caminho que pode levar mais ou menos tempo, mas que contém as mesmas etapas pelas quais todos os que somos chamados — e todos o somos, de facto— a chegar à Sabedoria de Deus, temos que passar.

Gosto de chamar a este cântico de Isaías o cântico da vida eterna, precisamente por retratar muito bem a morte como descida ao nosso nada e dar-nos a verdadeira chave de compreensão da morte — a vida eterna. Entramos, já agora, no mistério da morte interior para nos abrirmos à comunhão de vida com Deus, à relação com Ele, tal como diz S. João: «isto é a vida eterna: que te conheçam a ti único Deus verdadeiro e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo». É o conhecimento do coração, o face a face da fé, tal como Moisés falava a Deus: como um homem fala com o seu amigo. Na realidade é a entrada da eternidade no tempo, enquanto antecipação da vida futura, vivida na graça e por graça de Deus.

A par deste cântico da vida eterna existe o salmo 129 — De profundis — que é um verdadeiro grito de vida eterna; quando ele se amassa com o barro da nossa morte experimentamos o sabor mais requintado do abismo profundo a que podemos descer, mas que a seu tempo se converte na suavidade, divina e doce, que a comunhão em graça com o Pai e o Filho imprimem na nossa alma. A isto o Espírito Santo ensinou-me a chamar de vida eterna. A vida para além da morte. Enfim, a morte abriu-me a porta da vida eterna e marcou o rumo e o ritmo da minha vida.

Faço várias vezes a viagem à terra santa da minha existência. Numa das últimas viagens o Espírito Santo despertou-me para o facto de rezarmos este salmo no mistério da Encarnação do Verbo (25 de Março) e no dia do seu Nascimento (25 de Dezembro), dia em que Deus, em Jesus, se faz um de nós. No concreto o De profundis mais do que um salmo penitencial é um salmo que manifesta o abismo da união da miséria de cada um de nós com Deus. A união, em Cristo, de cada ser humano com o próprio Deus. É um salmo que nos enche da alegria e do gozo da vida eterna, porque nos faz sentir muito amados por Deus, neste dinamismo amoroso de transformação da morte em vida.

O Cântico de Isaías 38, 10-14.17-20 e o salmo 129 foram a síntese perfeita que, a seu tempo, o Espírito de Luz e Verdade me deu para entender a loucura da Sabedoria de Deus que a morte escondia no íntimo do meu ser.

Vamos progressivamente apresentar o Cântico de Isaías e como o vivemos.

«Em meio da vida, vou descer às portas da morte, privado do resto dos meus anos. Não mais verei o Senhor na terra dos vivos, não verei mais ninguém entre os habitantes do mundo».

De facto, a morte apanha-nos de surpresa no momento mais crucial da nossa vida. É uma total privação de viver, porque ainda que estejamos no tempo estamos agonizantes e moribundos, privados daquela vida que, até então, vivíamos, e sem conhecimento de nenhuma outra. Estamos exiliados de tudo e todos. Todos se tornaram estranhos a começar por nós mesmos que vivemos a terrível ausência de Deus.

«Para longe de mim foi arrancada a minha morada como tenda de pastores. Como tecelão eu tecia a minha vida, mas cortaram-me a trama.»

A morte é a experiência de nos ser tirada a vida. A vida que parecia estar nas nossas mãos, que nós tecíamos, organizávamos e projetávamos e que num repente acaba, pois nos cortaram a trama. Estamos diante da fragilidade da vida que tecemos e que reclama, em nós, a existência de outra Vida maior do que nós. É o aniquilamento do eu que significa despojamento total interior e exterior, o nada.

«Dia e noite sou consumido e grito ao amanhecer. Como leão que dilacera os meus ossos assim sou consumido dia e noite.»

A morte não dá tréguas; ela acompanha-nos dia e noite, e desperta-nos sem outro horizonte que a própria morte. O grito ao amanhecer é a suplica para que o peso da morte se torne mais leve, contudo a morte é um estado contínuo do qual não vemos o fim. É um para sempre que se torna insuportável só de o pensar.

«Grito como a andorinha e gemo como a pomba. Cansam-se meus olhos de olhar para o alto socorrei-me Senhor.»

O nosso olhar fixa-se no mais além e espera. Uma espera sem garantias e por isso sem nenhum outro apoio além de Deus, a quem clamamos de o profundo abismo em que estamos submergidos: Socorre-me Senhor.

«Por vós, Senhor, viverá o meu espírito e o meu sofrimento se converterá em paz. Preservaste a minha alma da corrupção da morte, perdoastes todos os meus pecados.»

Estamos perante os efeitos da morte. Apesar da morte ser aniquilamento total e uma descida ao nosso nada, ela é também geradora de vida nova. Enquanto comunhão da Cruz do Crucificado ela opera em nós a transformação do novo nascimento, que é exatamente como diz o Profeta:

Vivo por Vós Senhor;

O meu sofrimento é convertido em paz;

A minha alma é preservada da corrupção da morte; a morte já não tem domínio sobre a minha interioridade, enquanto destino último, porque ela se converteu em porta aberta para a vida eterna. Depois de morrermos uma vez, e passarmos pela porta da morte, fica-nos uma certeza impressa na alma: já ninguém nos pode tirar a vida, porque morremos duma vez para sempre e a vida que agora vivemos é já vida eterna, é comunhão com o Pai e o Seu Filho Jesus Cristo.

Os meus pecados foram perdoados; introduziste-me no tempo da graça que é em si mesmo movimento de cristificação. Introduziste-me em Cristo princípio e fim de todas as coisas, o primeiro e o último, o que vive — eis o verdadeiro mistério da remissão do pecado.

A purificação não é senão um enxerto em Cristo. É o momento em que o Cristo que cada um de nós é se desenvolve e cresce; é o momento em que assumimos a nossa verdadeira identidade de ser Cristo pela comum união entre Ele e nós. A morte enquanto purificação tem como fim fazer-nos ser Cristo, viver por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Deus une-nos ao Crucificado, pelo caminho da morte, para nos fazer chegar a viver a sua própria vida divina. Diz-nos Paulo: «Os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Portanto, o que é tido como loucura de Deus, é mais sábio que os homens, e o que é tido como fraqueza de Deus, é mais forte que os homens.»

Neste sentido o Papa Francisco desafia-nos a ser loucos para alcançar a Sabedoria:

«Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém de entre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se “louco” para ser sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus».

«Paulo diz-nos que a força da palavra de Deus, aquela que muda o coração, que muda o mundo, que nos dá a esperança, que nos dá vida, não consiste na sabedoria humana».

Com efeito, ele diz de si mesmo: «Vanglorio-me apenas dos meus pecados». «Noutro trecho, diz: Eu só me vanglorio em Cristo e neste Crucifixo». Portanto, «a força da palavra de Deus está naquele encontro entre os meus pecados e com o sangue de Cristo que me salva. E se não se verificar aquele encontro, não há força no coração». Se esquecermos isto — diz Francisco — «tornamo-nos mundanos, queremos falar das coisas de Deus com a linguagem humana, e não serve», porque «não dá vida».

«A força da vida cristã e a força da Palavra de Deus consiste precisamente naquele momento em que eu, pecador, encontro Jesus Cristo. E aquele encontro transforma a vida e dá a força para anunciar a salvação aos outros». Segundo o Papa, seria necessário perguntarmo-nos: «Mas eu sou capaz de dizer ao Senhor: sou pecador?». Uma questão não teórica, mas prática, porque o exame de consciência diz respeito sobretudo à capacidade de reconhecer «o pecado concreto». O Papa sugere-nos também outras perguntas que devemos fazer a nós mesmos: «Sou capaz de acreditar que precisamente ele, com o seu sangue, me salvou do pecado e me deu uma vida nova? Tenho confiança em Cristo? Sinto-me orgulhoso da sua cruz? Vanglorio-me também dos meus pecados, neste sentido?».

Ele aconselha-nos a voltarmos ao momento do «encontro com Jesus Cristo», para verificar se não o esquecemos, perguntando-nos: «Encontrei Jesus Cristo? Senti a sua força?».

 Rezamos juntos o salmo 115

Amo o SENHOR,
porque ouviu a voz do meu lamento.
Ele inclinou para mim os seus ouvidos,
no dia em que o invoquei.

Cercaram-me os laços da morte,
caíram sobre mim as angústias do sepulcro;
estava aflito e cheio de ansiedade,
mas invoquei o nome do SENHOR:
“Ó SENHOR, salva-me a vida!”

O SENHOR é bondoso e compassivo,
o nosso Deus é misericordioso.
O SENHOR guarda os simples;
eu estava sem forças e Ele salvou-me.
Volta, minha alma, ao teu repouso,
porque o SENHOR foi bom para contigo.
Ele livrou da morte a minha vida,
das lágrimas, os meus olhos,
da queda, os meus pés.
Andarei na presença do SENHOR,
no mundo dos vivos.
Eu tinha confiança, mesmo quando disse:
“A minha aflição é muito grande!”
Na minha perturbação, eu dizia:
“Todo o homem é mentiroso!”
Como retribuirei ao SENHOR
todos os seus benefícios para comigo?
Elevarei o cálice da salvação,
invocando o nome do SENHOR.
Cumprirei as minhas promessas feitas ao SENHOR
na presença de todo o seu povo.

É preciosa aos olhos do SENHOR
a morte dos seus fiéis.
SENHOR, sou teu servo, filho da tua serva;
quebraste as minhas cadeias.
Hei-de oferecer-te sacrifícios de louvor,
invocando, SENHOR, o teu nome.
Cumprirei as minhas promessas feitas ao SENHOR
na presença de todo o seu povo,
nos átrios da casa do SENHOR,
no meio de ti, Jerusalém!
Aleluia! Irmã Ana Sofia da Cruz, ocd

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