Jul 26, 2022 | Caminhamos juntos

Carmelita Secular

Olhar as feridas do mundo

Partilhar:
Pin Share

Só poderemos transformar o mundo à nossa volta se o conhecermos. Só amamos o que conhecemos e o Cristão ama o mundo e por isso quer ser instrumento de paz, defensor da justiça e sinal de amor.

“Como posso ser sinal de mudança para as pessoas que se cruzam comigo?”  “Como posso ajudar a transformar o mundo de hoje à luz dos ensinamentos de Jesus?” Com base nestas questões colocadas na primeira partilha que fiz neste espaço (Peregrinos num mundo em mudança), quero convidar-vos a refletir sobre alguns dos aspetos que têm marcado o desenvolvimento social e cultural da sociedade atual.

Mais do que uma reflexão filosófica ou sociológica, pretendo partilhar a visão de uma pessoa comum que se assume cristã na vida familiar, profissional e social. Nestes diferentes âmbitos, somos constantemente desafiados a tomar posição sobre certas questões fundadoras de uma ideia de sociedade e de pessoa. Como o “ser-se cristão” engloba todas as dimensões da nossa vida há uma tensão latente que temos de ir integrando através da oração, da meditação, do estudo, do diálogo e do amor. É um trabalho constante de definição e aprofundamento pessoal que faz parte do nosso caminho de vida.

A defesa de uma nova ordem de valores pelo “politicamente correto”

A cada passo, pela comunicação social, nas redes sociais ou num jantar de amigos somos envolvidos na discussão de variados temas sensíveis como o aborto, a eutanásia, a ideologia de género…

Numa sociedade altamente mediatizada e que anda ao sabor de “sound bites”, pretende-se criar novos padrões sobre o que é ou não é aceitável. Uma das estratégias utilizadas para a criação de novos consensos morais é a manipulação da linguagem. Numa primeira fase, utiliza-se várias palavras-chave sonantes bem aceites e cativantes. como Liberdade, Tolerância, Direitos, Opção, Igualdade. Depois, de forma dissimulada, vai-se alterando o seu significado pondo em causa o conceito inicial. (Quem não se recorda da discussão sobre o conceito de Liberdade: ser livre é fazer tudo o que queremos/podemos ou optar pelo bem?). Por fim, o poder político assume a defesa desta “nova ordem de valores”, criando legislação nesse sentido e promovendo o seu ensino na escola e em campanhas de sensibilização.

A ideia do “politicamente correto” surge nesta nova forma de olhar a sociedade, em que de um lado está o bom, o certo e o tolerante e do outro o mau, o errado e o conservador. Neste ambiente, não há lugar a qualquer troca de ideias ou discussões construtivas. Há cada vez mais temas intocáveis, onde a colocação de uma mera hipótese por uma figura pública é capa de jornal ou sofre a revolta irracional das redes sociais.

Os escândalos mediáticos passam como as semanas, um atrás do outro. Entranha-se, porém, na cultura atual e na formação das novas gerações, um conjunto de valores protegidos por esta nova lei do “politicamente correto”. Com apelo à defesa da Liberdade, da Tolerância e da própria Democracia pretende-se criar uma sociedade descaracterizada, inerte, sem as suas próprias idiossincrasias e sem história.

O individualismo e o hedonismo

As palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium 2 são particularmente eloquentes: “O grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem”.

Um antigo professor de faculdade utilizava uma expressão que me marcou: vivemos no mundo em torno do nosso “sagrado umbigo”. Há uma tendência para uma vida fechada nos seus próprios interesses, no seu próprio eu. Cada vez mais, vemos pessoas autocentradas nas suas realidades: “são os meus problemas”, “são as minhas dificuldades”, “são os meus objetivos”. Desde a escola, somos educados numa lógica do sucesso, do ser “O Melhor”. Na vida profissional e mesmo familiar, muitas vezes, não se olha a meios para atingir os fins. Tudo isto acaba por ter grandes repercussões na nossa vida e na forma como nos relacionamos com os outros. Precisamos de ter a nossa bússola de valores bem à mão para não nos perdermos no caminho.

Tudo isto é o reflexo do individualismo que defende a liberdade de cada um fazer o que bem entender, de definir o seu próprio conceito de verdade e decidir sobre o que está certo ou errado. Além disso, promove o ideal da pessoa que pode controlar tudo à sua volta.

O hedonismo é uma consequência natural do individualismo, que passa por uma absolutização dos prazeres. Tudo posso para satisfazer as minhas necessidades! Nesta ânsia de liberdade, as pessoas ficam dependentes do prazer e não sabem lidar com o sofrimento, com as contrariedades e com a morte. É nos momentos de maior dificuldade, em que a nossa vida é posta em causa (pela notícia de uma doença grave, de um diagnóstico terminal, pela morte de um ente querido, pela perda de trabalho, pelas dificuldades económicas, …) que todo o mundo de certezas é destruído, porque construído em alicerces frágeis. Fará sentido questionarmo-nos sobre a relação desta realidade com o aumento de algumas doenças mentais como a depressão e a ansiedade.

As atitudes altruístas vão surgindo e são um sinal de esperança e de vitalidade, de uma vida dada aos outros, mas temos de reconhecer que são exceções a uma regra cada vez mais sedimentada. Este “dom sincero de si mesmo”, altruísta, à luz conceito de personalismo salientado por São João Paulo II, opõe-se a este individualismo egocêntrico e egoísta.

O relativismo e o secularismo

No relativismo tudo é discutível e a verdade depende do olhar pessoal sobre a realidade. Há uma rejeição total a verdades objetivas e quem as defende são logo rotulados de fundamentalistas e conservadores em contraposição com os moderados ou modernos.

Em 2005, numa homilia, o então Cardeal Ratzinger referia-se a uma “ditadura do relativismo em que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”. Para o Papa Francisco isto “coloca em perigo a convivência entre os homens”, sobretudo na resposta aos mais pobres e necessitados. Alerta ainda que “não pode haver verdadeira paz se cada um é a medida de si mesmo, se cada um pode reivindicar sempre e só os seus próprios direitos, sem se importar ao mesmo tempo com o bem dos outros, o bem de todos, a começar pela natureza comum a todos os seres humanos nesta terra”.

A separação entre a Religião e o Estado é fundamental. Contudo, há hoje um secularismo mais radical que pretende colocar a religião apenas no campo privado da espiritualidade, da relação pessoal de cada um com o divino. Em concreto, tem-se intensificado a hostilidade e o preconceito face à Igreja. Os cristãos são hoje o grupo religioso mais perseguido do mundo. Entre 2021 e 2022 registou-se um aumento de 20 milhões de pessoas perseguidas por se assumirem como cristãs. 360 milhões de cristãos são sujeitos a pressão e violência em todo o mundo. (Um em cada 7 cristãos; cifras da ONG Portas Abertas).

Emergência social: Refugiados, fome, pobreza

Fruto dos vários conflitos no mundo e das alterações climáticas, as populações dos países em desenvolvimento são as mais afetadas pelo flagelo da fome e da pobreza. Além disso, assiste-se a um número crescente de pessoas que são forçadas a abandonar as suas terras, vivendo em condições sem o mínimo de dignidade. Números inconcebíveis face a todo desenvolvimento tecnológico e progresso científico alcançados. Nos países desenvolvimentos, assistimos a uma pobreza espiritual e de valores e a situações de solidão existencial. Nunca estivemos tão conectados e ao mesmo tempo tão isolados.

Um olhar de esperança

Estes são alguns dos desafios que os cristãos enfrentam no mundo de hoje. Não ficamos indiferentes ao que acontece ao nosso irmão e a todas as tragédias que assolam o nosso tempo.

Só poderemos transformar o mundo à nossa volta se o conhecermos. Só amamos o que conhecemos e o cristão ama o mundo, e por isso quer ser instrumento de paz, defensor da justiça e sinal de amor.

“Levemos ao mundo um olhar de esperança. Levemo-lo com ternura aos pobres, sem os julgar. Porque, lá junto deles, está Jesus, que nos espera” (Papa Francisco). Eis a esperança que nos move!

Partilhar:

Artigos

Relacionados