Out 11, 2022 | Do pó à poesia

Carmelita Secular

Maria, ponte entre o Antigo e o Novo Testamento

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Não me surpreenderia que Maria, desde o dia da Anunciação, ou até antes, tenha procurado nas Escrituras a compreensão do que estava a acontecer. A Encarnação do Filho de Deus era uma revolução. Deus estava entre o Seu povo, mas a Encarnação traria algo novo: o rosto de Deus. Desde aquela hora, as preferências de Deus, os sentimentos de Deus, a vontade de Deus, ficam definitivamente expressas pela Encarnação.

Maria viveu um caminho de pura fé, já que não era evidente a divindade daquele pequeno Menino, pois ao seu alcance só tinha as Escrituras e as moções privadas do Espírito Santo.

Já no início, junto da sua prima foi capaz de afirmar convictamente, como um dado já assumido por ela, que Deus “pôs os olhos na humildade da sua serva” e exaltou os humildes.  Quando Jesus alegremente bendiz o Pai, o Senhor do céu e da terra por Se ter revelado aos simples, olhamos para Maria e José e vemos que não são só palavras. São escolhas que trazem alegria.

Maria visita a sua prima e partilha o seu modo de viver. Ela se alegra em Deus seu salvador. Conviver com Deus traz a alegria de ser salvo, traz um canto sempre novo que se sabe partilhar com as pessoas que nos são mais íntimas. O inimigo faz desconfiar de Deus e realça as aparências para entristecer o homem. Maria diz-nos que a hora da alegria é o agora porque Deus já assumiu tudo Nele e levará toda a criação ao abraço misericordioso do Pai. A alegria e a felicidade não estão na meta, estão no caminho. Não são a recompensa do futuro. São presença do Emanuel.

Quando, no Magnificat, Maria menciona Abraão, pensa na alegria que sente por ser parte do povo escolhido; quando menciona “o braço de Deus” pensa na libertação do Egito que foi a maior manifestação de como Deus exerce a paternidade com o Seu povo. Maria assume as Escrituras para estar ao serviço do cumprimento delas em Jesus.  E revela as atitudes que permitem caminhar na presença do Deus encarnado: humildade, alegria, inserção na história do povo eleito, abertura aos dons de Deus.

Diante da Encarnação é preciso oferecer-se ao plano salvador, com todo o ser. O motivo de felicidade de Maria tem eficácia em todos os tempos e lugares, mas só é percetível para os que se deixam transformar.

Maria ensina a alegria da simplicidade vivida sob o olhar de Jesus: Se experimentamos tristeza por viver entre coisas pequenas é porque ainda não fomos ensinados, nem por Jesus nem por Maria, que o nosso foco não está na eternidade nem na Encarnação.

Há uma atitude fundamental que permite a Maria caminhar na fé: a decisão de sair de si e servir; é o descentramento dela mesma e das suas circunstâncias que permite ter olhos para as obras de Deus e para o anúncio gozoso delas.

Nós precisamos de assumir isto como programa de vida: um descentramento do que é passageiro (em Maria é a ocupação romana, a pobreza, os problemas sociais dos judeus, as lideranças religiosas que oprimiam o povo, o facto de que nem José nem a sua família podem ainda compreender o seu novo estado de mãe) para estar ao serviço daqueles aos quais o Espírito de Jesus nos envia.

Sem esta atitude as obras de Deus passam-nos ao lado e ficamos na superfície, perdendo a oportunidade de sermos os agentes de mudança que Deus sonhou ao confiar-nos a filiação no nosso batismo.

Estar ao serviço permite reconhecer a fragilidade inerente à nossa condição humana e que é partilhada por todos. E é por isso que os soberbos que são dispersos, os poderosos que são derrubados, os ricos que ficam de mãos vazias, não estão a sofrer uma represália de Deus. Na verdade, Maria, dizendo que Deus derruba e exalta, anuncia que Deus não é indiferente num mundo de injustiça e desigualdade. Há um olhar crítico sobre a realidade, mas o Salvador é sempre Jesus.

Mas como dispersa Deus os soberbos? Como derruba os poderosos? Como exalta os humildes? Como enche de bens os famintos e como despede os ricos de mãos vazias? Repare-se: Deus não é misericordioso para os frágeis e vingativo para os soberbos, poderosos e ricos. Deus mostra o Seu poder salvando-os, conduzindo cada um à sua própria verdade, ao melhor de si mesmos, à sua capacidade de bem, e abrindo para eles um caminho de encontro e conversão de tal forma que o seu egoísmo, diante da luz de Deus, dê lugar à resposta de amor que liberta.

Dar-se a si mesmo a Deus, em favor dos irmãos, opção fundamental de Jesus, Maria e José, (e já que vos escrevo em Fátima, de Lúcia, Jacinta e Francisco e tantos outros) abre os olhos para as possibilidades do momento presente com vista a um futuro certo: Deus reinará em cada pessoa.

Apesar de aparentemente nada mudar, Deus atua poderosamente em todos os que se deixam transformar. Neles se mostram ao mundo os atributos de Deus: a força, a misericórdia, a santidade, a vitória humilde da paciência, a utopia da fraternidade já acessível. O testemunho alegre dos que aceitam a verdade da sua pequenez e se deixam transformar é o grande sinal para todos. No contexto atual de pós-modernidade ou pós-verdade – onde a busca da verdade e do agir em consequência não é tema de conversa habitual – o diálogo de Isabel e Maria é um despertador para a obra de Deus. No meio dos males do nosso tempo, o Reino cresce com a experiência da bondade de Deus, com a partilha dos dons que recebemos e com a celebração festiva destas realidades que poucos vêm, mas que são fermento do mundo novo e definitivo.

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