Jul 19, 2022 | Carmelo em parábolas

Qual veado sequioso

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Neste claustro, onde uma vez mais nos encontramos, vamos partilhar uma breve reflexão sobre o Cântico Espiritual de S. João da Cruz, místico carmelita e doutor da Igreja que nos deixou, entre outras, esta belíssima obra.

Nosso pai e príncipe dos poetas espanhóis glosa o tema do amor e escreve quase em clave de amor. É consciente de que a linguagem que usamos diariamente é insuficiente para explicar as experiências mais profundas do ser humano. A imagem do amor esponsal permite-lhe falar de si, de Deus e da relação que se estabelece entre ambos. À semelhança do que se passa com os enamorados que, muitas vezes, encontram na poesia e na música a melhor maneira de expressarem os seus sentimentos, João da Cruz tem necessidade de testemunhar o que vive em profundidade e para tal precisa de cunhar uma nova linguagem, pois a linguagem comum tem os seus limites. Recorre frequentemente aos símbolos, pois o símbolo projeta para a frente, abre caminho e sugere, sugere mais do que diz, apesar de dizer muito.

Os místicos, à medida que avançam no caminho de encontro com o Mistério, sentem-se incapazes de explicar por palavras o que estão a viver e, muitas vezes, sentem-se incapazes de falar o que não compreendem. Santa Teresa de Jesus dizia que «uma graça é o Senhor dar a mercê; outra é entender qual a mercê e qual a graça; e outra é saber dizê-la e explicá-la» (Vida 17,5).

O Cântico Espiritual desenvolve o símbolo do matrimónio de maneira direta e explícita. É um símbolo que tem presença destacada na Bíblia. João da Cruz usa-o para iluminar a relação interpessoal Deus/pessoa. É uma relação de amor ativa-passiva, desde Deus, e passiva-ativa, desde a pessoa[1]. A sua poesia mística está enraizada na familiaridade cultivada com o livro sagrado do Cântico dos Cânticos que apresenta uma leitura nupcial, segundo a visão cristã, das relações entre Cristo e a Igreja. Organiza este poema a partir deste símbolo total, que é o amor dos esposos, mas desdobra-o em muitos símbolos parciais conforme vai estruturando os distintos momentos da história de amor entre Deus e a alma.

Nesta relação esponsal aparece Deus, o Esposo da alma, figurado no simbolismo do veado, notável na sua “ligeireza”, na fuga, à procura de segurança e solidão, enquanto a esposa acreditava que já O tinha alcançado. A esposa, símbolo de todo o ser humano, sente-se ferida de amor e decide sair à sua procura.

Aonde te escondeste,
Amado, e me deixaste num gemido?
Qual veado fugiste
Havendo-me ferido.
Atrás de ti clamei: tinhas partido!

Esta primeira canção brota de um coração enamorado, pleno de um amor iluminado pela verdade de Deus, como único Bem, coração enamorado que sente a ausência do Amado e não pode viver sem Ele. Foi ferido e o amor fá-lo sair de si negando-se a tudo o que não seja o Amado. João da Cruz insiste na necessidade de O conhecer para compreender bem a impossibilidade de poder viver sem Ele. Diz-nos ele no comentário a esta canção: «Deixando-me assim chagada, morrendo com feridas de amor por Ti, escondeste-Te tão depressa como um veado. Este senti­mento é muito forte porque, naquela ferida de amor que Deus provoca na alma, o afeto da vontade ergue-se subitamente para possuir o Amado, do qual sentiu o toque; mas, com a mesma rapidez, sente a sua ausência, sem O poder ter como desejava. (…) Chamam-se feridas espirituais de amor por serem muitíssimo sa­borosas e agradáveis à alma. Por isso desejaria ela estar sempre a morrer mil mortes com estas lançadas, porque a fazem sair de si e entrar em Deus» (Cântico Espiritual 1, 19).

O conhecimento do Amado fará a esposa cair na conta do estado penoso em que se encontra, por estar longe d’Ele, e impulsiona-a a sair à sua procura, deixando para trás tudo aquilo que não é Ele; quer dizer, para que a pessoa possa encontrar e unir-se ao seu Amado, precisa de entrar num processo de desprendimento, de relativizar tudo aquilo que pode falar d’Ele mas não é Ele.

A anotação que precede a primeira canção do Cântico Espiritual recolhe a experiência que marca o verdadeiro processo de conversão cristã e que consiste em «cair na conta» que significa tomar consciência, entender desde o coração, o amor que Deus lhe tem, um amor que a precede, acompanha, e que não merece. A tomada de consciência desse amor capacita-a a começar uma aventura de amor com Ele. Cai na conta e sai de si mesma, dão-se assim dois movimentos: interiorização e saída.

Cair na conta não significa compreender totalmente o mistério do amor de Deus que se revelou em Cristo, o que é obviamente impossível, como já dizia Santo Agostinho[2]: Se compreendes não é Deus. Se pudestes compreender, não foi Deus que compreendeste! Também não é ter claro tudo o que temos de fazer para O servir. É somente o ponto de partida de um processo que dura a vida toda: descobrir que toda a história da salvação lhe diz respeito enquanto esposa/alma/igreja, e que a encarnação de Cristo, a Sua morte e ressurreição se realizam “por ela” e que mesmo que não houvesse mais ninguém sobre a terra dar-se-ia de igual forma. Tudo se opera gratuitamente e sem mérito algum da sua parte. E a alma intui tudo isso e põe-se a caminho.

A esposa experimenta. Realmente, só quem experimenta a sedução e encanto das belezas de Deus, embarca nesta aventura, neste caminho de união de amor. A experiência de Deus nem sempre é luminosa e saborosa, também tem momentos de secura e escuridão, e pode mesmo ser desconcertante, mas o que vislumbra pela frente faz manter a pessoa nesta tensão e neste desejo de maior união.

Este veado incansável na busca da água refrescante do amor de Deus não descansa enquanto não se encontra mais intensamente com o Desejado que o feriu. Diz João da Cruz: «O veado, quando tocado por certa erva venenosa, não descansa nem sossega, procurando remédio por um lado e por outro, ora mergu­lhando numas águas ora noutras. (…) Nunca para de procurar remédios para a sua dor; mas, além de não os encontrar, ainda mais a aumenta com o que pensa, diz e faz. Ela, [a alma] sabendo que é assim, e não tendo outro remédio senão pôr-se nas mãos de quem a feriu, para que lhe acabe com a dor e a mate de vez com a força do amor» (Cântico Espiritual 9,1).

Como o salmista, recorramos a este poderoso símbolo para expressar esta pressa com que a alma busca a Deus: «O Senhor dá aos meus pés a agilidade do veado e faz-me andar seguro nas montanhas» (Sl 18,34). Estas montanhas revelam como esta busca das águas mais puras da graça nos pedem decisão e determinação no caminho, porque a decisão revela a liberdade de buscar e sobretudo acolher Aquele que nos busca há muito mais tempo e se nos quer entregar.

Os poetas e místicos, como João da Cruz, dizem com uma linguagem simbólica e figurada, verdades essenciais da condição humana: a busca que Deus faz do ser humano e a resposta que ele Lhe dá, buscando-O em liberdade. Somos, por natureza, buscadores, porque fomos e somos buscados constantemente. É no encontro destes dois procuradores que se dá a união de amor. Enquanto caminhamos esta união é sempre limitada, deixa a ferida de um amor não plenificado, e por isso nos relança sempre para o caminho na esperança de um amor maior que só o encontro definitivo nos fará experimentar até à saciedade.


[1] Cf. Herráiz García, Maximiliano – La nupcialidad en San Juan de la Cruz. Biblioteca Digital de la Universidad Católica de la Argentina. 17-19 mayo 2016

[2] Cf. Santo Agostinho, Sermão 52, 16

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