Nov 29, 2022 | Até quando?

A empatia

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Em tempos de tanta distração e hiperestimulação, aumenta o isolamento e solidão. Urge-se, por isso, treinar as novas gerações para o ser e sentir com o outro, para a empatia.

Sempre me fascinou esta palavra. Há palavras mágicas, sem dúvida. Esta é uma delas: empatia.

A sua força conceptual e semântica é avassaladora. Aliás, não serão as Bem-aventuranças, isso mesmo, um exercício de empatia? E aquela morte na Cruz?

Pathos, enquanto palavra grega, significa sofrimento, paixão ou afecto. Mas a empatia é mais que isso. Pode ser a experiência da alegria do outro.

Como professor de E.M.R.C. ensino aos meus alunos de 1.º ciclo um pouco sobre a empatia. Eles conhecem o seguinte roteiro:

1) Estar atento;
2) Perguntar;
3) Escutar;
4) Consolar (ou actuar ou transformar). Ou simplesmente ser com o outro.

Julgo que vivemos distraídos com mil e uma sensações, flashes, notificações, impressões ou pensamentos ensimesmados que não nos permitem estar atentos a um rosto, a um olhar, a um timbre de voz. Dizemos “bom dia, tudo bem?” sem olharmos para os olhos da pessoa, sem dizermos, muitas vezes o seu nome, sem pararmos para ouvir a resposta à pergunta que formulámos de forma mecânica.

Perguntar é dos actos mais importantes num aluno. Digo-lhes muitas vezes para não saírem da sala de aula com dúvidas na minha ou em qualquer outra disciplina, desde o 1.º ciclo até à faculdade. Se há dúvidas, perguntemos! Mas perguntemos também o que se passa, quando vemos, por exemplo, o rosto de alguém cabisbaixo. Perguntar demonstra interesse no outro, preocupação. Evidencia respeito, amizade, humanidade. Neste âmbito, faço exercícios de teatro com alunos, dois a dois, em que um entra na sala de aula, denotando um sentimento no rosto ou na própria expressão corporal. O outro aluno, tentar perceber (não é adivinhar) o que se passa de diferente no outro, perguntando. Uma boa pergunta é tão ou mais importante do que uma boa resposta.

Mas se perguntamos é preciso escutar a resposta sem a impor. Escutar o que se diz e o que não se diz. Escutar sem apressar. Escutar sem assunções, presunções, comparações, sentenças ou mesmo fórmulas mágicas. Escutar.

Depois de escutarmos consolamos, rimos, intervimos nem que seja para dizer “aqui estou eu. Não estás sozinho”. Com verdade, simplicidade e com toda a força do nosso ser.

Uma vez (conto esta história muitas vezes) ouvi um aluno (Pedro) dizer a outro aluno (João) entusiasmado: «O meu pai deu-me um ontem uma PlayStation»; ao que o outro colega respondeu: «Eh, já tenho uma PlayStation há quatros anos. Só tens uma agora?». Um aluno que demonstre empatia fica feliz quando o outro está feliz. Não desvaloriza, não sente ciúme, não reivindica os holofotes para si mesmo. Ao ouvir aquela resposta do seu colega, o sorriso daquele aluno deu lugar ao desânimo. Não pretenderei, nesse caso concreto, que o João simplesmente se alegre com o Pedro. Não. Pedagogicamente, pretendo que o João seja capaz de viver a alegria do Pedro.

Edith Stein ensina-nos que a empatia não é apenas uma ferramenta de acesso epistemológico ao outro. É mais que isso. Através da empatia captamos a essência da vivência do outro, vivenciando-a, como se fosse nossa, nunca esquecendo, porém, o respeito pela experiência original do outro.

Li algures que que nas escolas dinamarquesas a “empatia” é matéria obrigatória diária, desde 1993.  Como consequência, não me surpreende que este país ocupe, agora no relatório 2022, o segundo lugar do Índice de Felicidade.

O que mais me fascina, é que esta felicidade não se centra no “eu” mas no “nós”. Ou no “eu” em relação com outros “eus”.

De mãos dadas somos mais felizes.

E ainda acrescentaria: no “eu” aberto ao Transcendente. Um transcendente com rosto. O rosto de Jesus Cristo que vivencia a Humanidade.

Não seria possível a São João da Cruz escrever este belíssimo poema sem empatia (e ao lê-lo quem não o vivencia?!…):

Un Pastorcico, solo, está penado
ajeno de placer y de contento,
y en su pastora ha puesto el pensamiento,
el pecho, del amor, muy lastimado.

No llora por haberle amor llagado,
que no le pena verse así afligido
-aunque en el corazón está herido-
más llora por pensar que está olvidado.

Que solo de pensar que está olvidado
de su bella pastora, con gran pena
se deja maltratar en tierra ajena,
el pecho del amor muy lastimado.

Y dice el Pastorcico: “¡Ay, desdichado
de aquel que de mi amor ha hecho ausencia
y no quiere gozar la mi presencia!”
Y el pecho, por su amor, muy lastimado.

Y a cabo de un gran rato se ha encumbrado
sobre un árbol, do abrió sus brazos bellos,
y muerto se ha quedado, asido dellos,
el pecho, del amor, muy lastimado.

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