Set 20, 2022 | Casa comum, Economia e fé

Professora. Carmelita Secular

Da investigação à Espiritualidade

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Existe, fora do contexto das Igrejas e dos templos uma retoma da religião? E da espiritualidade? A sociedade laica – empresas e universidades, por exemplo – retira benefícios do incremento da religião? Propõe-se uma reflexão onde se procura clarificar esta relação.

Atualmente assistimos a um aumento significativo da produção científica por parte da comunidade académica em Portugal. Noto em particular nas áreas em que trabalho: ciências empresariais onde incluímos a gestão, a contabilidade, o marketing e outras áreas afins. Na justificação deste aumento poderão estar várias razões. Eventualmente a introdução de indicadores nas grelhas de avaliação docente (como a publicação de artigos em revistas científicas), a aposta num maior número de bolsas promovendo o estímulo ao emprego científico, ou ainda a melhoria das condições aos investigadores e docentes do ensino superior. Também a aposta de várias instituições de ensino superior nos centros de investigação, na sua dinamização, no seu orçamento mais “simpático”, promoveu melhores condições para a ciência. Olhamos para boas revistas científicas internacionais[1] e já aparecem nomes de vários investigadores portugueses, situação invulgar e muito menos frequente há 15 ou 20 anos.

Vejo isto com bons olhos. É importante que tenhamos espírito crítico e o desenvolvimento intelectual aconteça, que se possam envolver nas pesquisas jovens investigadores que iniciam a sua carreira na elaboração das suas dissertações de mestrado ou teses de doutoramento. Precisamos de maior reflexão sobre diversos temas e essa reflexão pode ser feita também no seio da academia, das escolas que educam e produzem conhecimento.

Assumindo a educação como um fator estruturante para o desenvolvimento humano, começou também a ser desenvolvida uma linha de investigação que cruza os problemas das empresas (organizações em sentido lato) com a religião. Foi como uma boa surpresa que este ano me cruzei com 3 exemplos de estudos de investigadores portugueses que fizeram esta ligação.

Em junho passado participei em seminários de contabilidade cujo tema era: Olhar para o futuro: Reflexões sobre a educação em contabilidade com impacto.  Entre os oradores convidados estava a professora Marta Almeida, da Universidade Nova de Lisboa, que falou à audiência sobre “Explorar o papel da espiritualidade na educação (em contabilidade)”[2]. Também numa conferência realizada em finais de junho, o artigo vencedor foi atribuído ao trabalho: “Mindfulness e a criatividade dos funcionários da linha da frente: o efeito mediador da motivação intrínseca e do envolvimento no processo criativo”[3]. Este estudo trazia a meditação como fonte de maior tranquilidade no trabalho.

Também me tenho cruzado com trabalhos já publicados como, por exemplo, o texto: Espiritualidade e a empresa social: uma lente paradoxal[4] publicado em livro. Este capítulo teoriza a espiritualidade na empresa social através de uma lente paradoxal. Discute temas como: (1) as empresas sociais são diferentes, mas potencialmente incorporam uma forte dimensão espiritual; (2) por causa das diferenças organizacionais, a espiritualidade manifesta-se de formas diferentes em diferentes tipos de organizações sociais; (3) as expressões da espiritualidade organizacional podem ter um componente paradoxal.

Também o artigo “A espiritualidade influencia a felicidade e o desempenho académico?”[5],  desenvolvido por investigadores portugueses e indianos, nos traz a perspetiva da religião e de como esta influencia comportamentos. Este estudo explora os papéis da espiritualidade, do perdão e da gratidão no desempenho académico dos estudantes. Os resultados mostraram que o perdão e a gratidão se relacionaram, positiva e significativamente, com a felicidade e desempenho académico. Também foi possível perceber com este estudo que a espiritualidade modera a relação entre o perdão para si mesmo e a felicidade do aluno. Concluiu-se que existe um impacto moderador da espiritualidade e felicidade na relação entre gratidão e desempenho académico.

A comunidade científica internacional tem estado mais atenta a estas temáticas. Sem querer ser exaustiva apenas refiro o exemplo de um estudo de autores italianos, publicado este mês (setembro) na revista Meditari Accountancy Research[6] com o título: “A religiosidade leva à auditoria de relatórios de sustentabilidade? Evidências de empresas europeias”. Este estudo tem como objetivo investigar se a religiosidade e a diversidade religiosa afetam a adoção da auditoria de relatórios de sustentabilidade por empresas sediadas em países predominantemente católicos romanos e protestantes. Os resultados mostraram que as empresas sediadas em países altamente religiosos são mais propensas a adotar práticas de auditoria para demonstrar conformidade com as normas sociais religiosas de seus stakeholders.

Estes são apenas alguns dos muitos exemplos de como a religião tem vindo a ser associada a estudos científicos nas áreas das ciências empresariais.

Oxalá a ciência moderna possa cruzar o seu conhecimento com a espiritualidade e cada ser humano possa perceber a importância do seu lugar no mundo, o sentido para a sua vida, o ser divino que habita em nós, e que a vida deve ser vivida em qualquer contexto. Quer sejamos gestores, professores, estudantes ou alguém que assiste a vida a passar… precisamos de estar em relação com a nossa espiritualidade: Deus habita em nós, somos seres capazes de experimentar relacionar-nos com o Divino, não há como o negar.


[1] A título de exemplo refere-se revistas como: Journals of Business Ethics; Accounting, Auditing and Accountability Journal; Business Strategy and the Environment; Journal of Accounting in Emerging Economies; Sustainability, Accounting, Management and Policy journal; entre outros.

[2] Podem encontrar mais informação em https://www.iscap.ipp.pt/destaques-1/noticias/looking-ahead-reflections-on-impactful-accounting-education acedido em 13 de setembro de 2022.

[3] Mindfulness And Frontline Employees’ Creativity: The Mediating Effect of Intrinsic Motivation and Creative Process Engagement. Autores: Miguel Machado (Politécnico de Leiria), Filipe Coelho (Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra), Miguel Pina E Cunha (Universidade Nova de Lisboa) e Greg Oldham (Universidade de Tulane). Apresentado na Conferência ICARME, Leiria, 30 de junho a 1 de julho, 2022.

[4] Spirituality and the Social Enterprise: A Paradox Lens. Autores:  Miguel Pina e Cunha, Miguel Alves Martins, Arménio Rego e Ricardo Zozimo, In book: Social Innovation and Social Enterprises, Toward a Holistic Perspective. DOI: 10.1007/978-3-030-96596-9_6.

[5] David, Rajasekhar, Sharda Singh, Neuza Ribeiro, and Daniel Roque Gomes. 2022. Does Spirituality Influence Happiness and Academic Performance? Religions 13:617. https://doi.org/10.3390/

rel13070617.

[6] Terzani, S. and Turzo, T. (2022), “Does religiosity lead to sustainability reporting assurance? Evidence from European companies”, Meditari Accountancy Research, Vol. ahead-of-print No. ahead-of-print. https://doi.org/10.1108/MEDAR-02-2022-1587

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