Carmelita Secular

Discernir para educar

Partilhar:
Pin Share

Queridos amigos, cheguei à desafiante fase de conviver com dois adolescentes. Não tem sido nada pacífico nem harmonioso, mesmo com muita oração e água benta!

A providência, através do meu amado esposo, colocou-me nas mãos um livro muito inteligente que aborda estas temáticas. A minha cabeça, cansada do trabalho de cada dia, fica como diante de uma obra de arte sem ânimo para a confrontar com a minha realidade.

A escola, as redes sociais, a sociedade de consumo e outros agentes de educação como psicólogos, médicos e enfermeiros por vezes atuam em colaboração, mas outras vezes como desestabilizadores. Na última consulta de desenvolvimento a que levei a minha filha de doze anos, tanto a enfermeira como a médica insistiram em dizer-lhe que, por já ser menstruada, pode e deve voltar ao centro de saúde, mesmo sem o conhecimento dos pais, para pedir preservativos que são grátis e os há em abundância. A minha filha não sabia o que é um preservativo. Somos nós, os pais, que temos que falar destes assuntos, quando intuímos que é o momento para falar destes temas, aos nossos filhos. 

Naquela sua escola, incomoda e desgasta o excessivo ruído de muita gente a falar ao mesmo tempo que a professora, pelo que a sala de aula se parece bastante a uma feira popular. E não é só na sua turma, é algo generalizado. Quero com isto exemplificar como os demais agentes educativos não só não nos ajudam como prescindem de nós.

O tempo que cada um dos “meus” adolescentes dedicam às redes sociais é infinitamente maior do que dedicam ao que dizem e fazem os pais.

Não quero moralizar, mas tomar consciência de que os filhos são marionetas de muitas ideologias, sem que sejam conscientes, e nós, pais, temos pouco tempo e energia para dar a nossa perspetiva, até porque eles não a pedem.

Os modelos das redes sociais vão tornando comum o que não é normal, saudável, humano, virtuoso. Custa muito despertar a curiosidade por outras formas de vida alternativas, mais sensatas, mais livres, mais pessoais e autênticas.

Todos os psicólogos são unânimes: a felicidade de cada ser humano está totalmente condicionada pela qualidade das suas relações interpessoais. Nem todas as suas amizades conjugam felicidade com generosidade, escuta, resiliência, capacidade de expressão, criatividade, doação de tempo e de vida aos demais… Por isso os pais temos de estar presentes nestas amizades, de modo discreto, afável, mas em discernimento.

Outra questão vital, que muitas vezes sabemos, mas não operacionalizamos adequadamente é o deixar que os filhos, quando propõem algo ou pedem algo, esperem pela decisão dos pais. E esta decisão dos pais tem de ser tomada na ausência deles, noutro momento, noutro espaço, sem que eles participem.

Aqui está a essência da solução dos diversos problemas educativos: é que o casal, tem de crescer naquela unidade tão especial e tão peregrina da procura do consenso. Tendemos a ter visões tão opostas dos “métodos”, reagimos com tanta impulsividade, que o diálogo sereno diante de uma circunstância é a prioridade. Falamos de sinodalidade e de discernimento na igreja. Isto aplica-se à nossa igreja doméstica: que se torne um hábito, uma oposição às tentativas de sabotagem destas criaturas tão inocentes, curiosas, invasoras, conhecedoras e hábeis diante da fragilidade de pai, mãe e sobretudo da falta de unidade e consenso. Isto da sinodalidade e discernimento aplicado ao casal também significa que não é questão de simplificar: hoje faz-se como a ti te parece e amanhã como a mim me parece. Sem inteligência e assistência do Espírito Santo não os ajudamos, adiamos problemas.

O otimismo é outra das posturas cruciais. Como é importante ver como uma bênção o processo que estão a viver. Distanciando-se dos pais, os adolescentes procuram a sua identidade, auto-conhecimento, a sua criatividade e os seus limites.

Teresa de Jesus ensina que criamos pessoas para Deus, para a eternidade. Sair da pressa do imediato, recomendar cada pessoa à Sagrada Família, imaginá-los felizes e totalmente autónomos dentro de uns 10 anos…, faz-nos ver como estamos todos em processo. Nele, Deus é Pai, Jesus é caminho, o Espírito Santo guia, e o Anjo da Guarda protetor com todos os santos e santas de Deus. Viver com confiança os passos de desenvolvimento (não apenas físico, mas psicológico e espiritual) restaura a paz interior na missão para a qual já recebemos a capacidade, no batismo, no matrimónio, na eucaristia e na reconciliação. Pedir e dar perdão há-de ser como inspirar e expirar, algo tão banal que até nos esquecemos que disso vivemos.

Em muitos dias, ao meu filho mais velho, pela multiplicidade das suas atividades, só temos os instantes de um beijo à saída de casa e outro quando chegamos. Sei que mais importante do que ocupar espaço, estar fisicamente próxima, preciso de fazer perguntas delicadas para perscrutar, desde a sua liberdade, tudo o que pode e quer partilhar comigo. Preciso que saiba que dou a vida por ele, concretamente.

Revejo a minha adolescência e a parábola do Pai misericordioso (Lc 15). Fui filha pródiga, rebelde, mas com as lições da vida voltei a respeitar pai e mãe, voltei a ser grata e serviçal. Fui como o filho mais velho, insensível à qualidade do amor que me rodeava, mas aprendi, com as lições da vida, a apreciar cada gesto de afeto, cada sorriso e cada olhar com cumplicidade silenciosa. Finalmente compreendi que todos estamos neste mundo para sermos presença do Pai, não apenas para os filhos que nos foram confiados: para todos os que cruzarem os nossos caminhos. É que um gesto de amor feito a um qualquer irmão “cobre uma multidão de pecados” (cf 1 Pe 4,8), repercute em todo o corpo de Cristo, em toda a Humanidade. A finalidade da sinodalidade é o crescimento da unidade. Da mesma forma, a unidade que cresce entre os pais é a finalidade, o fruto maduro que vai irradiar e pacificar as turbulências quotidianas. Sinodalizemos então, para o bem dos nossos jovens!

Partilhar:

Artigos

Relacionados

O bicho da seda e a borboleta

Moradas ou Castelo interior é mais do que um livro da Santa e Doutora da Igreja, Teresa de Jesus. Com este símbolo do Castelo retrata-nos traços do mistério da relação do homem com Deus. Porque o homem é capaz de Deus, as portas que Santa Teresa nos ajuda a abrir franqueiam-nos a possibilidade de entrar dentro do nosso Castelo Interior e aí construir uma verdadeira história de amizade «com Quem sabemos nos ama».

read more