Médica do Carmelo de Coimbra e Carmelita Secular

Irmã Lúcia – a saudade

Partilhar:
Pin Share

Lembrar a nossa querida Irmã Lúcia, como ela vive e habita em nosso coração, é saudade, nostalgia e ternura, mas é também e, sobretudo, gratidão, aprendizagem, exemplo e coerência!

Tem-se dito, escrito e mesmo especulado sobre esta grande personalidade, agigantada na sua simplicidade e discrição, projectada mundialmente pelos desígnios de Deus, que fez da sua pequenez vector da difusão no mundo inteiro de mais um apelo à Humanidade para a conversão e salvação.

É assim, efectivamente o nosso Deus! Amor e Misericórdia!

Não se cansa nunca de amar, perdoar e acolher todos os seus filhos, preferencialmente os mais frágeis, marginalizados ou humildes.

Lúcia era assim que se via! Um humilde e insignificante instrumento nas Suas Divinas mãos.

E, de facto, assim agia. Obediência total, coerência e fidelidade eram as suas grandes armas para levar a cabo a imensa obra que, através dela, Deus lhe pedia. E, no seu Sim fiel audaz e definitivo, encontrou o caminho que a realizou em plenitude e a conduziu ao âmago do Coração de Deus, através de Sua Mãe Santíssima. De facto, foi uma grande Graça que Deus me concedeu, fazendo convergir o meu caminho com o dela! Que enorme aprendizagem para mim! Que grande oportunidade para corrigir atitudes e modificar comportamentos! Que bênção poder conviver com ela na intimidade mais profunda e absorver os valores que dela emanavam, como luz estruturante da sua própria natureza! E não pensemos que isto a envaidecia ou a assoberbava. Pelo contrário! No convento, era a mais normal e discreta entre todas! Com efeito, a grandeza da humildade manifesta-se sobretudo na assunção da verdade, na perseverança da fidelidade a Deus, à palavra e à Igreja, quaisquer que sejam as circunstâncias, e ainda na audácia das acções e atitudes, sempre enraizadas na Fé que nos fortalece, na Esperança que nos traz a alegria apesar das vicissitudes e na Confiança no Amor Maior que nos nutre e dá coragem.

Esta experiência veio mostrar-me e ensinar-me que a santidade é uma meta perfeitamente ao alcance de todos! É tangível e possível! Assim nós o queiramos!

Reconhecer a nossa pequenez, a nossa debilidade e a nossa falibilidade é a condição primeira para encetar o caminho! Renunciar ao orgulho e autossuficiência, sabendo-se vulnerável, é o primeiro passo no rumo da perfeição que procuramos, para que fomos criados, mas que nunca está adquirida e exige de nós um contínuo empenho e esforço.

Lúcia transparecia estes atributos e procurou sempre, na sua humanidade, ser espelho deste projecto de Deus, caminhando na senda que ela aprendera “Na Escola de Maria”!

Frontal e directa, não se furtava a manifestar as suas opiniões sem nunca se deixar intimidar ou acobardar. Educada e assertiva, com um humor notável, dizia sempre o que lhe ia na alma, privilegiando, todavia, o respeito pelas seus interlocutores que cuidava sempre de nunca magoar ou ofender. 

Como sinto saudade da sua presença amiga!

E como foi mestra na minha vida!

Se eu fui designada para tratar da sua saúde física, ela foi, sem qualquer dúvida, minha médica e cuidadora espiritual. Com ela, na espiritualidade carmelita e de seus Santos, mergulhei e conheci a verdadeira alegria e realização pessoal, onde o cuidado pelos doentes, fruto da minha profissão, foi inserido no Plano Maior de Amor ao próximo que cuida, serve e se dá em plenitude.

Consciente e intelectualmente lúcida até aos últimos momentos da sua vida terrena, conservou vivas e actuantes as memórias e as promessas que fizera à “Senhora Mais Brilhante que o Sol”!

Mesmo no sofrimento, a alegria e a preocupação com todos era atitude constante que nunca abandonou, sendo muitas vezes ela própria a encorajar os que a rodeavam! Nas vicissitudes e contrariedades encontrava a força para prosseguir na fidelidade à Vontade de Deus, mergulhando na oração que apazigua, encoraja e fortalece a fragilidade da nossa condição humana.

No sofrimento espelhava a serena alegria que habitava em sua alma, abraçando-nos no terno laço que a todos abrangia e se estendia, em particular ao Santo Padre que tanto amava!

Partiu naquele dia 13 de Fevereiro de 2005, de tão doces e ternas memórias, a que eu tive o privilégio de assistir e pessoalmente cuidar de modo tão próximo e íntimo.

Até sempre, querida Irmã Lúcia! Até breve minha querida amiga… pois, na Eternidade, e junto de Deus, não há tempo nem espaço!

Quis Deus que, também eu, “ficasse cá mais algum tempo”! E só Ele sabe quanto! Até lá espero o seu abraço amigo e fraterno numa oração junto da Mãe.

Branca Paúl

Médica do Carmelo de Coimbra e Carmelita Secular

Lembrar a nossa querida Irmã Lúcia, como ela vive e habita em nosso coração, é saudade, nostalgia e ternura, mas é também e, sobretudo, gratidão, aprendizagem, exemplo e coerência!

Artigos

Relacionados

O que procuramos quando não conseguimos estar sós?

«Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saberem permanecer em repouso num quarto.» Esta observação de Blaise Pascal, nos Pensamentos, continua a interpelar-nos mais de três séculos depois. Talvez porque toca numa experiência profundamente humana. Quantas vezes procuramos preencher cada instante de silêncio? Quantas vezes sentimos necessidade de verificar o telemóvel, abrir uma nova página, iniciar uma conversa, ouvir uma música ou encontrar qualquer ocupação que afaste o vazio?

read more

Elogio da Ternura

Num tempo de agitação, de pressas, de mil tarefas a que somos chamados durante um dia, fácil é esquecer os pequenos nadas (importantes) que julgamos menos urgentes e facilmente adiamos ou abolimos, por vezes, de forma egoísta, num movimento de fechamento ao outro. Os pequenos nadas de um olhar com tempo, de um telefonema com escuta, de um compasso de espera no tempo do outro, de uma visita espontânea a um amigo, a um familiar, com genuína empatia, com genuína e gratuita ternura.

read more