O coração fechado não tem esperança? É inevitável o perigo de colapso e sufoco interior? O que é que temos de fazer para conseguir escapar às masmorras de frio desespero e desapontamento que tentamos disfarçar? Como é que a abertura do coração se pode dar? Podemos dizê-lo numa palavra: na oração, oração a Deus, apenas na oração (Karl Rahner)
– Onde está o amor de Deus? Onde está o amor de Deus?? Não o encontro, não encontro. Ou Ele não me encontra, não é? Estou a ficar cansado, perdido, mal-amado! Eu faço tudo o que é suposto, eu esforço-me por cumprir as Horas, ter oração silenciosa. Mas onde está o amor de Deus? Onde está?
Esta confissão súbita do Tomás, vinda praticamente do nada, surpreendeu o seu amigo, o Frei Elias do Silêncio. Tinham combinado dar um pequeno passeio a pé por Lisboa, para pôr a conversa em dia. Tinham-se encontrado no Largo do Rato e decidiram descer a Rua da Escola Politécnica. Entraram por instantes na Igreja de São Mamede e pediram inspiração ao Espírito Santo, representado no teto da Igreja. Depois continuaram e estavam a passar em frente do portão da antiga Escola Politécnica, quando a conversa derivou para a vida espiritual e desembocou quase de imediato naquele desabafo cuja violência impressionou o Fr. Elias. Recompôs-se e lembrou-se de todas as lutas e desilusões por que também tinha passado.
– Sabes, Tomás – tentou dizer com uma voz conciliadora -, aquilo que me estás a descrever é normal. Todos passamos por isso.
– Não assim, Frei Elias, tenho a certeza – replicou de imediato o Tomás, com uma expressão que quase se poderia classificar de raiva e despeito, cerrando ligeiramente os olhos e falando para o chão:
– Eu sinto que estou a ponto de desistir. E sou atormentado por uma grande infelicidade, de sentir que Deus não me liga absolutamente nada. E não suporto mais o seu ultrajante silêncio. Estou farto e revoltado, Frei Elias, estou farto e revoltado!
O Fr. Elias compreendeu então que o assunto era grave. Aquela alma podia perder-se. Já se perderam muitas assim. Estavam a passar em frente ao portão de acesso ao Jardim Botânico. Fez menção de parar por um pouco. Olhou lá para dentro e pensou em todas aquelas árvores maravilhosas e como a sua contemplação o reconfortava tanto em Deus. Mas não era tempo de entrar e correr o risco de dizer alguma coisa que irritasse ainda mais o Tomás, como “A Natureza fala de Deus”, ou qualquer coisa assim. Circunspecto, retomou o passo e disse seriamente:
– Compreendo, Tomás, compreendo … o que poderá ser mais devastador para um cristão do que a sensação do abandono de Deus? Sim, desculpa se minimizei o que me disseste. Se Deus é o centro da nossa vida mas não o encontramos onde e como achamos que Ele deve estar, então ficamos perdidos, ficamos … – e procurava a melhor palavra para acabar de forma suave. Mas o Tomás tinha incorporado aquelas palavras na sua indignação e disparou logo:
– Desesperados! Ficamos desesperados!
– Sim, sim, tens razão – anuiu o Fr. Elias de forma simultaneamente envergonhada e empática -, fala-se muito do apoio de Deus aos que estão em desespero, acreditar em Deus nas fases difíceis da nossa vida, mas isso é diferente, porque o que está aqui em causa é … – e procurava de novo a expressão correta, mas o Tomás antecipou-se de novo:
– É o desespero causado pelo próprio Deus! – atirou com violência.
O Fr. Elias ficou atrapalhado. Identificava-se muito com aquela crise de fé, mas esta última tirada do Tomás estava a roçar perigosamente a heresia. Precisava de acalmar a conversa. Calhou bem, estavam mesmo a passar pelo jardim do Príncipe Real e se calhar podiam fazer uma pausa num banquinho.
– Olha, Tomás, e se nos sentássemos a contemplar um pouco aquele maravilhoso cedro-do-buçaco?
– Qual cedro-do buçaco? – respondeu o Tomás meio estremunhado, interrompido do transe em que estava. – É primo do cedro do Líbano, do Salmo 92?
– Ah, não! – respondeu o Fr. Elias, aliviado por poder fazer uma pausa com um fait-divers. – Na verdade é um cipreste. Um cipreste monumental com mais de 150 anos! A culpa deste equívoco foi dos ingleses, que no século XVIII lhe chamaram Cedar-of-Goa (Cedro-de-Goa)!
Sentaram-se num banco, por baixo do cedro-que-não-é-cedro, a contemplar aquele despropósito de árvore, suportada por uma estrutura metálica feita à medida. O Tomás ficou pensativo por alguns minutos e de repente fez um sorriso cínico:
– Caramba, se não fosse paradoxal e irónico, até diria que Deus tenta enviar-me uma mensagem!
– Como assim, Tomás?
– O cedro do Líbano é uma árvore muitas vezes citada na Bíblia, e penso que um símbolo de fortaleza e crescimento espiritual, não é, Frei Elias?
– Bem, sim, é verdade. Basta pensar no Salmo 92 que referiste: “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano”.
– Pois é, então é mesmo uma ironia: eis que pensei, por instantes, que ia ver um primo do cedro do Líbano, uma inspiração espiritual, um sinal de Deus… já me contentava com um primo … e afinal é um cipreste impostor, como eu!
O Fr. Elias estava estupefacto. Não sabia se havia de empatizar a rir ou a chorar, mas decidiu investir:
– Ó Tomás, se calhar estás a levar tudo demasiado à letra? Deus não é óbvio. Nem com os cedros, nem com os ciprestes … nem na forma como nos fala.
Mas assim que disse isto arrependeu-se porque já estava, de alguma forma, a julgar. Calou-se mais um pouco. O Tomás não reagiu. Parecia estar a culpar o cipreste-que-se-faz-passar-por-cedro. O amigo pensou que estaria na hora de sair dali. Como tinha intuído à porta do jardim botânico, a exposição ao reino vegetal não estava a ajudar na conversa…
– E se fôssemos andando até ao Largo do Camões, Tomás?
– Boa – respondeu o Tomás com entusiasmo pela primeira vez naquela tarde -, e paramos no Miradouro de São Pedro de Alcântara, que é sempre uma alegria ver Lisboa dali!
Começaram então a descer a Rua D. Pedro V, em silêncio. Era uma amena tarde de Primavera e, em condições normais, qualquer um deles estaria muito feliz por estar a passear pela sua amada Lisboa. Mas nesse dia passaram dois vultos ensimesmados em frente ao Pavilhão Chinês. O Fr. Elias lembrou-se do Espírito Santo representado no teto da Igreja de São Mamede e pediu ajuda. Percebeu então que tinha de mostrar ao Tomás que não era melhor que ele.
– Sabes Tomás – começou ele hesitante -, não posso saber exatamente como é o teu desespero. Mas posso falar do meu. Penso que este desespero por Deus é essencialmente o mesmo em todos nós, católicos que nos esforçamos verdadeiramente; simplesmente tem matizes específicos de cada pessoa. No meu caso sinto-me muitas vezes perdido porque parece que me esqueci do caminho para Deus. Fico perdido de mim e de Deus. E na minha impotência para sair dali também me sinto desesperado. O meu contexto é diferente do teu, mas o problema é, no fundo, o mesmo: o coração parece ficar bloqueado. Queríamos, de alguma forma, receber uma “comunicação divina” que nos tirasse daquele estado alheado e desesperado. Mas ela não chega. E aumenta o desespero, não é?
– Sim, é muito isso – concordou o Tomás, agradecido pela humildade do Fr. Elias. – Não me reconheço totalmente nem compreendo totalmente tudo o que disseste, mas sim, parece-me que uma caracterização boa deste nosso desespero é o de ter o coração bloqueado. Nada entra e nada sai. E não há discernimento para o saber fazer. E é como dizes: estamos perdidos e, eu diria mesmo, quase sem a consciência de que estamos perdidos.
– Temos então uma base comum. – O Fr. Elias sentia que finalmente estava a conseguir chegar ao amigo. – E acrescentaria, pelo menos no meu caso, que é uma sensação de vazio, impotência e frustração. Tens a memória, a lembrança de que há Deus, mas é só isso que te consegues lembrar vagamente, porque os teus sentidos, a tua vontade, simplesmente não estão lá. E depois soçobra uma sensação esmagadora de rejeição. E fico a flutuar num certo niilismo: o desespero de não ver sentido em nada e não conseguir sair dali.
– E então o que fazes quando isso te acontece?
– Bem, nada…espero, espero que passe … por um lado … mas por outro lado descobri que a própria consciência do desespero é uma porta aberta para Deus.
Estavam quase a chegar ao miradouro, mas desta vez o Tomás não arregalou os olhos para ver a cidade:
– Como assim? Mas o desespero é um buraco escuro … e Deus é Luz. Como é que isso pode levar a Deus?
– É um dos paradoxos pelos quais tentamos entender Deus, embora um paradoxo seja, essencialmente, não compreender …
– Confesso que estou a ficar perdido. – Disse o Tomás num tom já aflito.
– Repara que, por um lado, no estado de torpor mental – chamemos-lhe assim – não conseguimos convocar a razão para focar o nosso ser em Deus – e até perdemos a memória desse processo. Mas, por outro lado, ficamos imersos numa profunda sensação de desespero e rejeição…
– Sim, e o que há de paradoxal nisso?
– É que só podes ter essa sensação de rejeição se, no fundo da tua alma, Deus te continuar a chamar. Não poderias ter essa sensação de rejeição se, no fundo, não continuasses a gemer por Deus, para adaptar a expressão de São Paulo. Ou seja, no fundo desse desespero encontras Deus, e não foi pela via racional. É simplesmente porque Ele está lá, no fundo da tua alma. O paradoxo fundamental é assim este: desesperar por não encontrar Deus já é encontrar Deus. Porque desesperar por não encontrar Deus não é estar ausente nem perdido de Deus.
O Tomás ficou meio parado a olhar para as pequenas nuvens que se avistavam por cima do castelo de São Jorge. Tinham chegado ao Miradouro de São Pedro de Alcântara e contemplavam a cidade.
– É complicado… – desabafou ele
– Olha – replicou logo o Fr. Tomás com o ar de quem se vai socorrer de uma boia -, talvez seja melhor usar as palavras de Karl Rahner. Por acaso estou agora a ler umas meditações que lele escreveu para a Quaresma de 1946 [1]. E há uma que se aplica que nem uma luva a esta nossa conversa. A tradução é minha, e do inglês, não é brilhante, mas dá para perceber.
– O Karl Rahner não foi aquele teólogo alemão muito influente no Concílio Vaticano II?
– Sim…
– E que escrevia coisas muito difíceis de ler? Acho que até há uma anedota … o irmão dele dizia que ia traduzir a sua obra para alemão!
– Pois é verdade, mas também (e sobretudo) tinha uma vida espiritual profunda. Por trás de um grande teólogo está sempre um grande místico!
– Ok, chuta então. Estou a ouvir-te… – disse o Tomás com ar antecipadamente entediado.
– Imagina o contexto em que as palavras que te vou ler foram proferidas. Vamos viajar no espaço e no tempo. Agora estamos aqui a apreciar a vista de Lisboa, mas vamos para Munique, na Quaresma de 1946, menos de um ano após a derrota dos nazis na Segunda Grande Guerra Mundial. Munique é uma cidade em ruínas, há muitas dificuldades e falta de comida. Os alemães estão desesperados. Vive-se um tempo negro. Os alemães católicos sentiam grande remorso e desespero por tudo o que se passou. É a estes católicos desesperados e de coração fechado, que Karl Rahner começou por se dirigir nestes termos:
O coração fechado não tem esperança? É inevitável o perigo de colapso e sufoco interior? O que é que temos de fazer para conseguir escapar às masmorras de frio desespero e desapontamento que tentamos disfarçar? Como é que a abertura do coração se pode dar? Podemos dizê-lo numa palavra: na oração, oração a Deus, apenas na oração. Mas porque ainda estamos a tentar compreender o que “oração” quer dizer, precisamos de ir devagar e falar com precaução. Perguntemos então o que precisamos de fazer quando nos encontramos nesta situação de coração bloqueado.
– Ah, então Karl Rahner também estava a ensinar a essas pessoas como rezar? – perguntou o Tomás, para tentar perceber todo o contexto da leitura.
– Bem, sim, o tema dos sermões dessa Quaresma era a oração. Mas para começar a orar é preciso desbloquear o coração de tanto desespero. E foi por aqui que ele começou.
– Será que ele próprio sentia esse desespero?
– Acredito que sim. – Respondeu o Fr. Elias a acenar a cabeça com pouca amplitude, enquanto contorcia ligeiramente o lábio. – Ele estava na Universidade de Innsbruck em 1939, quando os Nazis a ocuparam. Foi então para Viena, onde ficou no Instituto Pastoral até 1949. Mas Viena também fazia parte do Terceiro Reich, pelo que me parece inevitável que tenha sentido dor e vergonha por tudo o que estava a acontecer.
– Mas protestou, de alguma forma?
– Que eu saiba, não há nenhum documento de Karl Rahner, do período da guerra, que aborde o problema do nazismo.
– Bem, então, muito provavelmente sentiria o dilema de falar contra o regime ou não … – concluiu o Tomás -, talvez o tenha sentido até ao fim da vida … sim, acho que o desespero de que estava a falar também era o dele.
– E nem podia ser de outra forma, não achas? Só podemos falar do que vivemos. E sabes? Há uma resposta famosa que o Karl Rahner deu a um jornalista que lhe perguntou como poderia acreditar num Deus que tinha permitido o Holocausto.
– E qual foi? – perguntou ansioso o Tomás, pois não saberia responder àquela pergunta (e tinha medo que lha fizessem).
– Foi: “Acredito porque rezo”.
– Uaaahh…
Pararam por instantes, esmagados por aquela resposta, dada há mais de setenta anos. O burburinho que subia da Avenida da Liberdade sugeria que lá em baixo ninguém ficaria muito impressionado.
– Mas continuemos. – Recomeçou o Fr. Elias. – Karl Rahner vai agora dar uma breve (mas importante) instrução e depois descreve o comportamento de um desesperado. Ora ouve:
A primeira coisa é esta. Devemos ficar nessa situação e deixá-la ir. Quando reparamos que, de facto, as nossas almas estão bloqueadas, ou começamos a defender-nos com o desespero de alguém que se afoga, mesmo o de uma pessoa que está a ser enterrada viva – mergulhando em tudo, em todas as formas de atividade e ocupação que nos dê esperança de nos enganarmos a nós próprios sobre o nosso desespero; ou então desesperamos mesmo: quer em grande frenesim, quer num praguejar frio e silencioso, odiando-nos a nós próprios e ao mundo, afirmando que não há Deus. Dizemos que não há Deus porque confundimos o Deus verdadeiro com o que tomámos para nosso Deus. E quanto a isso, estamos realmente certos. O Deus em que pensávamos não existe: o Deus da segurança terrena, o Deus da salvação dos desapontamentos da vida, o Deus do seguro de vida, o Deus que toma conta de tudo, de forma que as crianças nunca chorem e que a justiça marche sobre a Terra, o Deus que transforma as lágrimas em riso, o Deus que não deixa que o amor humano acabe em desilusão.
Ficaram os dois em silêncio, mais uma vez. “Palavras fortes, mas com que todos nos identificamos”, pensaram eles. O Fr. Elias recomeço então:
– Agora o perigo de não compreender o desespero:
Mas, como no primeiro caso [as pessoas que se afadigam em tarefas], as pessoas do segundo grupo não podem, de facto, permanecer em desespero. Elas pensam que, corajosamente e honestamente, retiraram a conclusão correta da sua experiência de vida, mas não compreenderam o desespero, porque nele viram a morte de Deus e não o Seu verdadeiro advento.
– Ah, mas aí está o ponto em que paraste há pouco e que ainda não compreendi bem…como é que o desespero pode ser o advento de Deus?
– O advento de Deus na nossa alma. – Replicou o Fr. Elias. – Olha, é interessante, porque neste ponto Karl Rahner muda de destinatário do discurso. Até agora era “the people” (“as pessoas”, que me pareceu estranho em português e traduzi para “nós”), mas agora passa para o “tu”. E o “tu” agora és mesmo tu! Ele agora vai-te dizer que o desespero não te tira tudo. Só te tira o que realmente é finito e nulo.
– “Nulo”? – interrogou o Tomás sem perceber muito bem.
– Também tive essa dúvida. Na tradução inglesa escolheram a palavra “null”. E depois faz sentido: as coisas não essenciais, as ilusões desta vida, não passam de coisas nulas, não é? Penso que é neste sentido que devemos entender esta palavra. Cá vai:
Não, a verdade é que esta situação do coração bloqueado pareceu tirar-te tudo, mas, realmente, apenas perdeste as coisas finitas e nulas, não importa quão grandiosas e maravilhosas eram, não importa mesmo se perdeste o teu próprio eu – o teu eu com os teus ideais; o teu eu com os teus projetos de vida, planeados de forma tão precisa e inteligente; o teu eu, com a tua imagem de Deus, que na verdade era como tu e não como o Deus para lá de toda a compreensão. O que te pode ser retirado nunca é Deus. Se vês todas as saídas bloqueadas, na verdade são apenas as saídas para o finito que estão bloqueadas, as saídas para o que realmente são becos sem saída. Não fiques chocado pelo deserto e solidão da tua prisão interior, que parece apenas preenchida por impotência e desesperança, com cansaço e vazio! Não fiques chocado.
– Repara – acrescentou ainda o Fr. Elias -, a desesperança de não encontrar Deus existe genuinamente. Se a sentes, és uma alma em ascensão. Como sabes, a poesia de São João da Cruz parte dessa insuportável sensação de afastamento:
Em mim eu não vivo já,
E sem Deus viver não posso;
Pois sem Ele e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.
Mas quanto deste desespero não tem origem nos planos do teu eu? É que mesmo a forma como idealizamos a nossa relação com Deus pode ser uma construção do eu! Um plano, uma ambição, como outra qualquer!
– Sim, é verdade – concordou o Tomás -, o subconsciente é tão profundo e inacessível que nos pode enganar acerca das nossas próprias motivações. É preciso procurar discernir…
– Isso é o trabalho de uma vida! Mas só se consegue com a luz de Deus, que ilumina até aos recantos mais fundos da alma … e Deus está lá, sempre. O desespero não to tira, ao contrário do que sentes com todas as células do teu corpo. É isto que Karl Rahner está a dizer:
Porque – olha! – se permaneceres firme, se não fugires do desespero, se no desespero dos ídolos que tiveste até agora, ídolos do corpo e da mente, belos e honoráveis (porque sim, eles são belos e honoráveis), ídolos a que chamaste Deus – se neste desespero não desesperares do Deus verdadeiro, se conseguires manter-te firme (o que já é um milagre da graça, mas que está aí para ti), então vais perceber de repente que afinal não estavas a ser enterrado vivo, que a tua prisão estava apenas a separar-te do que é nulo e finito, que o seu vazio mortal é apenas um disfarce para uma intimidade com Deus, que o silêncio de Deus, essa quietude assustadora, está preenchida pela Palavra sem palavras, por Ele, que está acima de todos os nomes, por Ele que é tudo em tudo. E o seu silêncio está a dizer-te que Ele está aqui.
– Portanto – concluiu o Tomás -, se me mantiver firme no meu desespero, sem lutar contra ele, se me mantiver imóvel e silencioso, sem julgamentos ou ânsias de ir a lado nenhum … então vou acabar por reconhecer que também “isto” é Deus.
– “Isto”? – perguntou logo a Fr. Elias, entusiasmado com o impacto das palavras de Karl Rahner na predisposição do Tomás a olhar para fora dele próprio.
– Isto, esta situação, o desespero, a recriminação que lanço a Deus…
– Sim, claro, movemo-nos em Deus. Olha, ele agora, vai dizer essencialmente o mesmo, colocando desta vez a tónica no barulho interior e no silêncio necessário:
E esta é a segunda coisa que deves fazer no teu desespero: nota que Ele está aqui, reconhece que Ele está contigo. Está bem ciente que há muito tempo Ele tem estado à tua espera na masmorra profunda do teu coração bloqueado. Fica bem ciente que Ele tem estado a ouvir há muito tempo, para ver se tu – apesar de todo o ruído da tua vida ocupada, de toda a conversa a que chamas “filosofia sem ilusão”, ou talvez mesmo apesar da tua oração, barulho e conversa na qual estás apenas a falar para ti próprio, apesar de toda a desesperança, choro e suspiros contidos pelas necessidades da tua vida – Ele tem estado a ouvir, para ver se consegues finalmente ficar em silêncio perante Ele e deixá-Lo ter a palavra, a palavra que parece apenas silêncio mortal à pessoa que fostes até agora.
– É bonito e terrível. – Suspirou o Tomás. – Realmente, agora me apercebo que o meu desespero faz muito barulho. E que o silêncio, verdadeiro, profundo, também me desespera.
– Nos dias de hoje, o conceito de silêncio é cada vez mais longínquo. – respondeu o Fr. Elias. – Podemos achar-nos muito elevados, muito espirituais (o que é vaidade, obviamente), mas não conseguimos desligar-nos completamente do mundo ruidoso que nos cerca. Um mundo em que tem de estar sempre a acontecer alguma coisa, o mundo do Homo Faber. Mas o silêncio de Deus é o oposto de tudo isto. E insisto, por mais espirituais que nos achemos, não temos noção de como o espírito do tempo está em nós enraizado. Deixar cair o Homo Faber que há em nós é uma tarefa que temos de repetir todos os dias. É neste sentido que Karl Rahner continua:
Quando abandonas a ansiedade frenética e violenta sobre ti próprio e a tua vida, o teu sentimento não deve ser que estás a cair de alguma forma; quando duvidas de ti, da tua sabedoria, da tua força, da tua capacidade para viveres a vida e a felicidade que vêm da liberdade, não deves desesperar. Ao contrário, deves sentir que estás com Ele, subitamente, como através de um milagre que tem de acontecer todos os dias de novo e que nunca se pode tornar rotina. Vais perceber repentinamente que a face petrificante do desespero é apenas Deus a subir na tua alma, que as trevas do mundo não são mais que o brilho sem sombras de Deus, que o que parece ser um beco sem saída é apenas a imensidão de Deus, Deus que não precisa de caminhos porque já cá está.
Já estavam um pouco cansados. Aquela leitura estava a tocar profundamente o Tomás, e o Fr. Elias percebeu que era preciso fazer um compasso antes do parágrafo final. Propôs então:
– Vamos acabar o texto na Igreja de São Roque? Merecemos aquela beleza, depois desta jornada épica!
– Sim, boa ideia – assentiu o Tomás com alívio -, a Igreja de São Roque é uma das minhas preferidas!
– Olha, e sabes o que é curioso? O que liga a nossa conversa a esta Igreja?
– Não!?
– Não vais acreditar, mas a Igreja de São Roque foi a primeira igreja da Companhia de Jesus em Portugal!
– E o que é que isso … – o Tomás não estava a ver a ligação, mas depois fez-se luz. – Ah, claro, Karl Rahner era jesuíta! … Espera! Então andas a ler a concorrência? – e deu uma gargalhada franca, pela primeira vez naquela tarde.
– Eles também leem os nossos! Olha, e já agora, a nossa Edith Stein também foi muito influenciada por um sacerdote jesuíta, Erich Przywara; que por sua vez também influenciou, sabes quem?
– Não!
– Karl Rahner! – Concluiu o Fr. Elias com um rasgozito de soberba, como se tivesse feito uma jogada magistral de xadrez. – Como vês, vamos onde for preciso para pedir ajuda e estamos sempre em casa.
Após uma curta caminhada pela estreita Rua de São Pedro de Alcântara, chegaram à Igreja de São Roque. Por uma rara coincidência, uma das igrejas mais visitadas de Lisboa estava vazia.
– Não está ninguém – disse o Fr. Elias. – Vou ler-te aqui o último parágrafo:
Finalmente vais perceber que Ele não precisa realmente de vir até ao teu coração bloqueado – ao invés, tens de compreender que não deves tentar fugir do teu coração porque, afinal, Ele está lá, e por isso não pode haver razão para escapar deste desespero bendito em direção a uma consolação que seria falsa e inexistente. Então vais perceber que tu – e este é o teu “sim” livre, da tua fé e do teu amor – tens de te virar e entrar neste coração bloqueado, para que O possas encontrar, a Ele, que sempre esteve ali, à espera, o verdadeiro Deus vivo. Isto, portanto, é a segunda coisa. Ele está lá. Ele está mesmo no centro do teu coração bloqueado. Apenas Ele. Ele, no entanto, que é tudo, e, portanto, parece que é nada. Ele está lá por causa – não apesar – de não teres mais nada, nem mesmo a ti próprio.
Ficaram em silêncio por muitos minutos. Naquele momento eles estavam ali, mas também em Munique, na Quaresma de 1946. E estavam com Karl Rahner, com São João da Cruz, com Erich Przywara e com Edith Stein. Estavam ali os dois e Deus. E tudo. E pareceu-lhes perceber o que é ser tudo em todos. Naquele silêncio, Tomás encontrou Deus.
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Referências e notas
[1] Todos as meditações da Quaresma de 1946 estão compilados em
RAHNER, Karl. The need and the blessing of prayer. Tradução de Bruce W. Gillette. Introdução de Harvey D. Egan. Collegeville: Liturgical Press, 1997.
Eu extraí esta meditação de
ENDEAN, Philip (Org.). Karl Rahner (Modern Spiritual Masters). Maryknoll: Orbis Books, 2004.
[2] A imagem é da Igreja de São Miguel, em Munique, o local onde Karl Rahner proferiu as suas meditações em 1946. Na altura a igreja estava significativamente danificada pelos bombardeamentos dos Aliados. Esta imagem é pública, disponível em
e foi tirada pelo fotógrafo Masood Aslami, https://www.pexels.com/@masoodaslami/


