Fev 3, 2026 | Já só amar

Professora de História. Membro GOT.

Oração como caminho interior

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Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher, chamada Marta, recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a Sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me».

O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada» (Lucas 10:38-42).

A meditação desta passagem de Lucas desencadeia uma visualização crítica da minha experiência vivencial. A premência de realização de múltiplas tarefas, necessárias à manutenção do equilíbrio de várias dimensões da minha vida pessoal, fez com que fosse mais Marta do que Maria – penso mesmo que a onda interminável de solicitações e problemas fizeram com que Maria se fosse progressivamente desvanecendo até ficar um ponto impercetível no horizonte da minha existência.

Hoje, compreendo que a escuta atenta e contemplativa é fundamental na vida cristã e, descurando esta dimensão, certamente se perde a melhor parte, porquanto o fazer de Marta pode desaparecer por ausência de sustentação e pode, eventualmente, ser móbil do desenvolvimento de ressentimentos, nefastos para o equilíbrio psicológico e espiritual, face ao não reconhecimento dos outros por quem desafiámos limites e rasgámos horizontes.

Com alguns Santos do Carmelo aprendi, progressivamente, a ressignificar o conceito de liberdade e a compreender que não são as circunstâncias que nos aprisionam e causam sofrimento. Pelo contrário, o fundamento do problema está num coração desassossegado que, numa busca desenfreada, procura cura em distrações exteriores que apenas retardam a tomada de consciência do próprio cativeiro. Um êxodo silencioso, lento e solitário, conduziu-me ao reencontro com o meu eu interior e a uma nova relação com Cristo e com a Cruz, entendida como supremo Amor.

Atualmente sei que a oração deve ser encarada como elemento fundacional da ação: trabalhar muito e bem, mas fertilizando o trabalho com contemplação, faz com que tudo se converta em terreno de encontro e de diálogo com Deus. Deste modo, a oração não se limita a um espaço formal e a um tempo específico, podendo vivificar todos os momentos da nossa vida, tornando-a plena e dotada de sentido. Jesus, enquanto judeu, seria um homem orante que, certamente, terá assumido todas as dimensões da prece individual e comunitária, enquanto diálogo filial com Deus-Pai. Todavia, não assumiu de forma acrítica e dogmática a tradição, aconselhando os discípulos ao afastamento do exibicionismo e dos excessos de exteriorização sem comunhão interior com Deus. Jesus operou, assim, uma profunda rutura com a tradição, ao ultrapassar as categorias de espaço e de tempo de oração: preferiu o recolhimento no silêncio solitário para entrar em sintonia com o Pai e superou a estrutura rígida dos tempos judaicos de oração. A interioridade espiritual torna-se templo da oração autêntica na qual o Espírito opera em verdade e em vida. A transformação é correlativa a este diálogo entre transcendência e imanência e será sempre para melhor – o Amor e a Bondade de Deus transformarão simultaneamente as arestas agudas do carácter do eu, assim como beneficiarão a convivência humana e tornarão sólido o compromisso de humanidade do eu com o outro, percebido como criação de Deus. A oração cristã transcende, assim a simples transformação individual do orante e exige a vinculação interpessoal, pois remete para a libertação do outro, tornando-se assim vaso comunicante de Amor. O desafio que se coloca ao homem é ver no outro a face de Cristo.

Já na Fenomenologia da Oração, Edith Stein salienta que, para além da mobilidade externa do eu orante, há uma vinculação a um ponto imóvel e central da alma que aglutina todas as vivências – dar graças torna-se a essência e o sentido pleno da oração. A oração não é entendida como um ato meramente humano, mas como algo sublime pelo qual a alma ascende a Deus e Deus desce ao homem tocando-o amavelmente no seu coração. A Trindade, como arquétipo, reflete-se no ser humano criado à Sua imagem e semelhança, pelo que a dimensão orante presente no homem não é algo simplesmente humano, antes acontece por participação na estrutura ontológica de Deus – a dimensão antropológica humana contém a marca de água da Trindade.

Assim sendo oração é epifania da verdade e reflexão da vida trinitária – o ente ascende ao arquétipo do Logos. A oração na pessoa humana, enquanto dimensão dialógica filial, deriva da participação amorosa da identidade ontológica do Verbo. A oração da Igreja é o dom de dar graças daqueles que amam profundamente a Deus, que é Amor pleno – experimentam o amor sacerdotal de Jesus. A oração cristã é uma dádiva e manifestação do Espírito no eu orante que, consciente da sua miséria e fragilidade, aceita com humildade a catarse do amor, libertando-o das paixões mundanas e abrindo -o à possibilidade da verdade e da vida autêntica. Por ação do Espírito, a oração cristã torna-se porta de abertura a Deus Pai, não para pedir mas para escutar, para discernir a vontade de Deus e identificar-se com o seu querer, aceitando a lógica da salvação. A oração torna-se, assim, a expressão da fé daquele que ama Deus, mas não fica encerrado na dimensão transcendente; a comunhão com Deus implica compromisso com todos os que são por Ele amados. O encontro com o Mistério acontece na História e na relação fraterna com os outros eus-no-mundo. A oração surge como possibilidade ontológica de acesso ao Absoluto, transcendendo as limitações dos esquemas conceptuais próprios da racionalidade que se revelam estéreis quando acedemos à dimensão metafísica. A oração cristã, gratuita e desinteressada, inaugura o Amor como abertura à Verdade.

Para Edith Stein a oração sincera implica o questionamento contínuo: Quem eu sou? Quem és tu que me olhas? Então, toda a busca incessante pela verdade sobre a existência humana é um vislumbre de oração, é a demonstração ontológica da abertura do ser que busca a Deus mesmo que de modo inconsciente. Todavia, o ser humano, sabendo-se filho e participante da estrutura arquetípica do Pai, pode não se comportar como tal – o amor de Deus sendo perfeito não impõe nem limita.

Foi a experiência em comunidades discipulares que me proporcionou a aprendizagem de um diálogo novo com o Pai, dizer o meu sim, ainda que débil, ao Segue-me – tentar um caminhar com Jesus de Nazaré, seguir a Luz com muitos tropeços e alguns pequenos avanços, aprender a essência do dar graças passou a ser um exercício espiritual pelo qual tento vislumbrar o princípio da vida e da Verdade que transcende e confunde o entendimento. Todavia a ânsia de justificação ainda emerge e continua a trair o coração.

A transformação existencial será parte do caminho, sair dos becos esconsos da nossa vida miserável e frágil e crescer na imensidão da vida em Cristo é um projeto que só os que atingem os patamares mais elevados da oração e da santidade alcançam. Assumir a nossa condição de peregrinos da Verdade é o pressuposto para acolher a mudança entendida como graça. A interferência do Espírito é fundamental na oração cristã e só por Ele o orante comunica com Deus e é inundado pela autêntica vida infundida pelo Espírito. Nisto consiste a essência da oração cristã e a sua novidade perante a tradição judaica. A estrutura fundacional da oração implica que o orante se coloque perante Deus e perante os demais, assumidos como Pessoas. Este carácter relacional, dialógico, implícito na oração, vivifica-a e permite-lhe que se estabeleça para além de um código rígido de repetições, muitas vezes, áridas de sentido.

Teresa de Jesus foi uma mulher espiritual que possuía uma profunda experiência de oração, não entendida como uma simples e contínua recitação, mas como projeto pessoal e comunitário. Para Santa Teresa, a oração, essencialmente a oração contemplativa, não implicava propriamente uma abstração intelectual, do domínio da razão, mas fundamentalmente amar muito. O amor extático, distinto do conhecimento inteligível e abstrato, conduzia a um determinado conhecimento de Deus, que podia ser definido como um sentir a Deus, de tipo espiritual e profundo. Seria uma via que tornaria possível buscar aquele Mistério indizível, que não era possível nomear com palavras, pois ultrapassava toda a conceptualização, fundando o que poderemos designar como o desvelamento do Ser pelo Amor.

Por um sentimento superior, que ultrapassava o simples sentimentalismo particular e concreto, e que ganhava densidade ontológica, encerrava-se a revelação do mistério divino e a descoberta do mistério humano como exteriorização do Absoluto.  Cristo aparecia como a única possibilidade de solução para o problema da mediação entre o ser concreto, situado historicamente, e o absoluto. Cristo era a única via de acesso ao conhecimento pleno de Deus. Daí a proposta de Teresa de viver por obséquio de Jesus Cristo.

O amor e a união emocional apareciam, assim, como a substância da verdadeira oração. E como se adquiria este amor?

«Determinando-se a agir e a padecer, e fazê-lo quando se oferecer a ocasião» – desta forma a oração conduzia à perfeição, à santidade de vida, que não consistia senão na plena conformidade de amor com a vontade de Deus e a plena conformidade a Ele.

São João da Cruz, sendo um homem douto e de grande habilidade criativa com as palavras, consubstanciou as suas reflexões em obras que se transformaram em momentos excecionais de aprendizagem do caminho para a santidade – um código para a alma que deseja e busca a luz redentora de todas as moléstias e chagas, e iniciou a ascese mística que a eleva à vivência da vida perfeita em união com Deus – deixar que Deus nos chame pelo nome e, tal como  Moisés se prostrou diante da sarça ardente, responder: eis-me aqui!

A adoção do simbolismo da cruz por parte de São João, permite-nos iniciar a descodificação hermenêutica deste significante como pressuposto da relativização da circunstância contingente e imediata e a assunção da experiência mística/amorosa como pórtico para o Absoluto, Perene e Imutável. Pelo processo de purificação, a alma, libertando-se progressivamente dos sentidos e das paixões efémeras (noite escura), ascende à união jubilosa com Deus, correspondendo com o mesmo amor ao que é por Ele amada. O Espírito Santo, tal como o fogo que consome a madeira até a converter em chama, durante a noite escura, purifica e limpa a alma das suas fragilidades, correlativamente conforta-a, consola-a e ilumina-a, deixando antever a suprema e autêntica felicidade resultante da união com Deus na eternidade. A purificação implica que o homem empreenda uma caminhada que se inicia partindo da vida circunscrita aos sentidos, aos afetos imediatos, mutáveis e finitos até alcançar, pela ascese mística, o patamar de união com Deus, através das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade (que purificam a intenção, a memória e a vontade). São João da Cruz, na descrição do processo de libertação da alma, põe em evidência a limitação do ser finito que apenas pode fazer cessar os maus hábitos, as más inclinações, mas não é, por si só, capaz de os anular completamente sem a ajuda interventiva de Deus – a pessoa humana não se basta a si mesma, precisa de Deus como garante da sua existência e substância. Esta purificação foi, por isso, denominada pelo Santo como «passiva», porque precisa da ação misericordiosa de Deus que lhe concede a graça de, pelo fogo, queimar, durante a noite escura das provações, todas as impurezas. A expressividade mística, presente na poética de São João, toma o silêncio como caminho para dimensões inacabadas da interioridade do eu que, aceitando o esvaziamento de si mesmo, busca a união plena com Deus pela via do método apofático.

O tema do silêncio implica a recuperação por parte do Santo da herança dos clássicos, nomeadamente do Pseudo Dionísio Areopagita.  Na sua obra Teologia Mística, Dionísio afirma que, quando atingimos o alto, as palavras se tornam inúteis, porque a origem do ser está além de tudo, o ar das alturas é indizível, escapa à inteligência, só nos resta o silêncio. Todavia, a expressividade mística oscila, paradoxalmente, entre o indizível e a necessidade da palavra, como instrumento teologal, convertendo-se o místico no tradutor de uma língua que, não sendo a sua, pertence ao Outro, mas pela experiência interior se torna íntima – sendo o exercício de falar de Deus. Pelo arrebatamento, a alma ascende a uma dimensão que transcende todo o mundo sensitivo na qual o conhecimento racional e a sabedoria adquiridos se tornam tolos, segundo as palavras do Santo, tratando-se de um esforço supremo de libertação do mutável, sensitivo e efémero, porque sujeito ao tempo, e capaz de catapultar a alma para a construção de um novo sentido para o seu caminho – no esvaziamento de si mesmo em direção ao inefável, buscando a intimidade ( a amizade) com o Amado.

Em suma, os pedagogos do Carmelo mencionados contribuíram para a emergência da compreensão da oração como um convite à transformação do coração que se deixa tocar e curar por Ele.

Ana Paula Capão

Professora de História. Membro GOT.

Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher, chamada Marta, recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a Sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me».

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