Aborda-se neste texto a figura do Patriarca São José como o homem do discernimento, do silêncio, da virtude e da justiça, paradigma de dignidade e seriedade alcançadas pela entrega à família e ao trabalho humilde de carpinteiro.
Confesso que era praticamente inexistente o meu conhecimento sobre São José, até ao momento em que o seu papel na economia da salvação, foi analisado pelo Frei Carlos Eduardo, num dos muitos encontros dos GOT. A maestria da análise, com o seu empenho vivificador, foi de tal modo contagiante que despertou em mim o interesse pela procura de informação sobre a grandeza do Patriarca e os fundamentos da sua essência.
A veneração e a devoção aconteceram.
Creio que o que mais espicaçou a minha curiosidade foi a aura de mistério que envolvia o venerável, a quem Deus confiou os seus tesouros – Maria e Jesus. Que grandeza de carácter, quanta dignidade encerrava José para que Deus lhe confiasse o Seu mistério!
O silêncio impera em torno desta importante personagem do processo de salvação, excetuando algumas pequenas passagens nos Evangelhos nos quais as virtudes do Santo residem na sua missão como esposo de Maria, como homem justo e trabalhador artesão. A própria história da Igreja parece, segundo alguns comentadores, empenhar-se, ao longo dos séculos, de modo indelével na reflexão sobre as virtudes do pai terreno de Jesus. Porém, só a partir do Concílio do Vaticano II são reconhecidos a importante missão do Santo na Família de Nazaré e o seu papel fulcral na constituição da trindade na terra – João XXIII (1958-1963) proclamou-o padroeiro deste Concílio.
O Papa Leão XIII (1878-1903) refere-se à sua dimensão de operário e exemplo da doutrina social da Igreja. O Papa João Paulo II (1978-2005) reflete sobre a missão de S. José na vida de Jesus e na Igreja. O custódio da trindade terrena passa a ser visto como protetor da Igreja que é a casa de Deus. Alguns teólogos alertam para a articulação simbólica entre o Patriarca São José, visto como solvente das necessidades físicas e espirituais e José do Antigo Testamento que, no Egipto, pela sua atuação perspicaz e sensata, se converte em remediador da fome e eficaz gestor dos celeiros do faraó em favor do seu povo.
Foi, porém, pela leitura dos místicos, mormente Santa Teresa de Jesus, cujas meditações sobre as virtudes josefinas contribuem para a devida glorificação e maximização da dignidade deste homem, que consegui pressenti-lo humilde e delicado, meditativo e resiliente às derivas da sensação e da paixão.
O carisma josefino é, com efeito, de incomensurável importância na obra da Reformadora do Carmelo, que sugeria colocar imagens do Santo junto à porta de entrada dos seus conventos. A Santa Madre elege-o como remediador dos males do corpo e da alma, ou não fora São José foi o seu dileto refúgio nas agruras que experimentou ao longo da concretização das suas fundações.
José nasce na Terra Santa, local de promissão, rica em história mas pequena em termos geográficos. O Evangelho identifica-o como descendente da casa de David e refere que desempenhava a humilde profissão de carpinteiro.
A Palestina é, na época, governada por Herodes, que exerce o poder delegado pelo imperador romano. O nome José remete para a significação daquele que acrescenta, que faz crescer e acumula bençãos de Deus (J-justo, O-obediente, S-sóbrio, E-estudioso, P-paciente e H-humilde =Joseph).
Quando desposa Maria ter-se-á deslocado para Nazaré e Deus coloca-lhe a primeira provação – após o desposório, percebe que Maria está grávida. Qual terá sido a sua atitude? Alguns comentadores estabelecem uma analogia entre este momento de perplexidade, deceção e dor e a noite escura mencionada por São João da Cruz. Todavia, no meio dos trabalhos e medos, a sabedoria amorosa e misericordiosa de Deus ilumina a alma de José sobre o mistério inerente à condição existencial de Maria. Pressinto dolorosos os momentos de meditação deliberativa do Santo; contudo, Deus apiedou-se do seu coração angustiado e enviou-lhe um mensageiro que pôs fim à sua tormenta interior. José confia na revelação e obedece incondicionalmente, garantindo o seu sim absoluto.
José foi, portanto, digno de acolher o silêncio inefável de Deus, de profunda dimensão cognoscitiva, pelo qual lhe foi comunicada a verdade. É importante salientar a serenidade, o silêncio, a prudência, o aturado discernimento em todo o processo de esclarecimento, o que comprova a grandeza da alma e pureza do coração do Santo. Na vivência das dificuldades, quando ainda desconhece os planos de Deus, evita os excessos da paixão e, com amabilidade de coração, procura proteger Maria de uma lei severa que a puniria de modo cruel. Pela graça que recebe, participa da revelação divina e resolve o dilema que o aflige perante alguma dúvida sobre o comportamento de Maria. Pelo chamamento do Anjo, José acolhe a vontade de Deus, ratifica os esponsórios e aceita a maternidade divina da sua jovem esposa, assumindo um papel fundamentalmente protetor no processo de auto-revelação do Absoluto num Deus humanado.
O que me espanta é a obediência plena de José aos planos de Deus, revelando uma fé profunda: acolhe a maternidade de Maria, principalmente numa sociedade com uma estrutura de deveres rígida para as mulheres; aceita Maria e tem a delicadeza e a dignidade de não a expor à comunidade – por graça e revelação conhece o mistério da salvação e assume o papel de humilde protetor dos Tesouros de Deus, deixando tudo para promover a sua segurança. Sendo o pai terreno de Jesus, assume responsavelmente esta paternidade, colocando-se amável e ternamente ao serviço de Maria e de Jesus. Protetor na fuga, solícito no quotidiano, a terceira figura da trindade de Nazaré é exemplo vivo de fidelidade, simplicidade e humildade. Como terá sido dura a provação a que Deus terá submetido José para lhe conceder a elevada honra e dignidade de pai de Jesus e, correlativamente, Pai da Igreja!
São José aceita a dor da dúvida e o sofrimento como momentos inerentes à condição existencial do ser humano e, neste ponto específico, pode ser modelo para o homem atual que procura a felicidade superficial e o exorcismo do sofrimento através da sobrecarga ilusória de estímulos porque teme o encontro verdadeiro com a sua interioridade.
Conhecer um pouco de São José, perceber o percurso do homem que faz do silêncio palavra plena de conhecimento e revelação de sabedoria absoluta, iluminou definitivamente o meu caminho espiritual no sentido de uma apropriação consciente do meu eu interior. Diminuiu o medo e a ansiedade, aumentou a confiança e destruiu as defesas que me impediam o abandono à vontade de Deus.
É pelo silêncio que nos libertamos das perceções, subjetivas e mutáveis, e ascendemos às moradas superiores pelas quais somos capazes de escutar o eu, Deus e os outros. O silêncio seria, assim, um modo de transcender o solipsismo do eu e permitir a interação efetiva com o outro – o silêncio torna-se doador de sentido e plataforma de aproximação à verdade indizivel, permitindo alcançar níveis mais elevados e interiores de consciência. Pela oração, momento privilegiado de silêncio, arejamos as nossas misérias interiores, expomos à consciência as nossas debilidades e aí podemos encontrar o que, transcendendo o discurso, pode curar pelo Amor. O silêncio «descalço de palavras», re-configura-nos, des-aloja, des-constrói e coloca-nos numa nova direção – a dos planos de Deus – e faz-nos beber a água autêntica da vida. Este silêncio não é o do questionamento, o das dúvidas radicais, da inquietação contínua, mas sim, tal como o de Maria, pleno de sentido e de possibilidades que, como em José, implicam confiança, obediência e fidelidade a Deus. O silêncio de José e o de Maria provocam admiração pelo grau de confiança e obediência com que acolhem a Luz, cujo processo de desvelamento acontece imperativamente de acordo com a Vontade de Deus.
Penso que a reflexão sobre a vida de José com Maria e com Jesus constitui um exercicio espiritual que muito pode aproveitar ao homem de hoje, que vive imerso numa sociedade de ruídos e distrações que minimiza a dimensão gnoseológica do silêncio e acentua um nítido desdém por tudo o que não é transitório.
A sociedade atual, que Zygmunt Bauman apelidou de líquida, porque tudo se esvai entre os dedos da nossa mão, resulta simultaneamente do desenvolvimento da tecnociência, do questionamento das instituições tradicionais e dos seus valores, acentuando o individualismo competitivo, o fluir constante de tudo, que afeta as relações interpessoais, criando o ambiente propício à caverna digital – nada é, tudo é não ser. Nesta ambiência, o homem procura espiritualidades próximas da experiência individual e subjetiva que tornam o homem liquído mais permeável ao rezo do meu modo, ou ao faça-se a minha vontade, do que à procura de uma verdade imutável, príncipio e fim da vida humana, que estabelece como premissa o abandono do eu e das determinações subjetivas de uma vontade arbitrária.
Na atual cidade dos homens, habitada por insensatos egos deslumbrados pelos excessos efémeros, José constituirá, sem dúvida alguma, um momento de pausa na busca desenfreada de honras, poder e aquisições de objetos, numa busca alucinada por uma felicidade de espetáculo, mas carente de raíz.
A espiritualidade de Nazaré encerra uma mensagem diametralmente oposta: São José, terceira pessoa da trindade terrena, surge como aquele que em vida se remeteu humildemente para a sombra, acolheu a Vida e a Luz que lhe foi confiada, escolheu a ocultação despojada, submetendo-se plenamente à vontade de Deus. Torna-se, todavia, uma estrela para a Igreja – Deus concedeu a José o supremo oficío de guardião de toda a Sua casa.
Assumo, a meu ver, que pelo entendimento racional, não é possível alcançar totalmente o conhecimento de São José como pai terreno de Deus humanado, o que para mim também constitui um exercício de humildade intelectual e de desafio de fé. Só pelo coração, só pelo Amor podemos aspirar a aceder ao refúgio interior entendido como consolo e conforto nas adversidades da nossa circunstância existencial; só o Amor revela o sentido ocultado e reconhece a vida como comunhão. Aí o silêncio, descalço de palavras, torna-se linguagem de plenitude, converte-se em oração e encontro com Deus e com o outro.


