«Escoavam-lhe por entre os dedos todas as ofertas que lhe faziam e não se alegrava senão quando as repartia por todas as irmãs da comunidade…e não só!»
Que grande lição de vida, a experiência que Lúcia me transmitiu naquela simplicidade pura e quase inocente, ao partilhar os seus pensamentos numa comum viagem de carro (uma de entre bastantes que com ela tive a graça de fazer quando a transportava até alguns centros médicos para efectuar exames clínicos!):
– Não sei o que tanto inquieta e move toda esta gente, na ânsia de correr, correr para possuir mais e mais, sem nunca se sentir saciada nem parar para contemplar e disfrutar daquilo que é deveras importante!
Costumava confidenciar-me estas inquietações do seu coração, ao sair extramuros (coisa que não apreciava particularmente), e verificar a imensa azáfama com que se moviam as pessoas, que lhe parecia nunca se satisfazerem com nada! Vislumbrava nos semblantes de muitos transeuntes uma sombra de tristeza, que ela sabia interpretar melhor que ninguém e que, certamente, significava o distanciamento de Deus!
Comentava com alguma ironia e muito, muito humor:
– Parece que nada nunca lhes chega ou satisfaz! Vejam lá bem; são casas, carros, ruas, cidades e aldeias, pessoas em correria desenfreada… e, aonde é que há lugar e tempo para contemplar, encontrar a paz, dar louvor de gratidão Àquele que permite a existência da vida, contemplado a beleza da Sua criação? Tanta pressa para nada! Se virmos bem, é tudo uma ilusão! São muito pequenas as diferenças que geralmente movem a ganância e a avareza com que as pessoas se preocupam sem lembrarem que, num instante, tudo acaba e nada nos pertence! Apenas será eterno o bem que fazemos que, com bondade e amor, conseguimos repartir com os nossos irmãos!
Bendita Irmã Lúcia! Quão sábios conselhos e advertências nos seus pensamentos! Como ressoaram profundamente no meu íntimo, e que transformação operaram nas minhas atitudes e priorização das opções!
Sim, também eu me revia, então, naquele louco e permanente desassossego que regia a minha vida, onde prevalecia a inquietude, a ambição e o desejo permanente de alcançar o sucesso, a aprovação do mundo, a avidez pelo reconhecimento humano.
Tal como Jesus o fizera um dia, a nossa querida Irmã Lúcia tocava e alertava os corações de tantas “Martas” deste mundo para que pousassem seus olhos nas “Marias” que, tão sabiamente, se colocavam aos pés de Jesus, privilegiando em primeiro lugar a escuta e a companhia d´Aquele que é tudo em todos!
Não se trata, evidentemente, de descuidar os nossos deveres deste mundo ou de negligenciar as tarefas desta vida, pois o trabalho é um desígnio que Deus colocou ao Homem!
Cumprir com zelo e amor os nossos compromissos não significa, porém, deixar de lado o reconhecimento da nossa relação amorosa com Deus, da nossa dependência d´Ele, que nos concedeu como bem maior a nossa liberdade, podendo mesmo rejeitá-Lo apesar do dever de gratidão e louvor que Lhe devemos.
Também, nesse âmbito, a Irmã costumava, como ninguém, ser exemplo.
Sempre solícita a cumprir as tarefas que lhe eram propostas na comunidade, procurava fazê-las com todo o esmero e cuidado, dando sempre o seu melhor na execução do que era pedido. E queria deixar aqui sublinhado que nada a diferenciava no tratamento relativamente a qualquer outra Irmã, bem como na distribuição dos trabalhos e dos ofícios que a todas competia fazer. Não havia privilégios nem excepções por ser quem era. A única excepção foi nunca ter sido Prioresa da comunidade, apesar da enorme importância que tinha como dinamizadora de vários projectos de recuperação do Convento, à data muito degradado, em virtude da ocupação deste edifício pelas tropas do exército da República de então!
A solicitude com que acorria a ajudar quem lhe pedisse auxílio ou a ensinar as Irmãs mais inexperientes que iniciavam a aprendizagem das tarefas atribuídas era outra das muitas características do seu carácter. Preocupada com todas, fazia questão de executar com perfeição os seus trabalhos, exigindo empenho e ensinando pacientemente quem dela carecia de orientação. E, apesar do seu rigor e exigência, todo este trabalho era acompanhado duma alegria e bom-humor admirávei!. A todos contagiava com a sua confiança no Senhor, semeando em seu redor um ambiente de esperança e alegria, sinónimos da sua entrega total à Divina Providência, quaisquer que fossem as circunstâncias, e à proteção da Mãe Santíssima que lhe prometera ser «o seu refúgio e o caminho que a conduziria até Deus»!
Afirmava frequentemente:
– «É tudo por causa de Nossa Senhora! Ó Jesus, é por Vosso Amor!”.
A Irmã Lúcia foi na minha vida vector determinante, corrigindo-me nos caminhos da apressada e secularizada vida quotidiana a que quase sempre somos pressionados nos mundanos percursos com que somos seduzidos, introduzindo-me na Luz que ilumina a vida e dá sentido à existência.
Sempre que abrimos o coração à escuta atenta de Deus, a Ele nos entregando em plenitude, com confiança, humildade e verdade, encontramos a Paz e a Alegria que preenche a alma e serena o coração tão sedento de Deus.
É exigente o caminho e não se encontra isento de sacrifícios nem de renúncias, pois a Cruz é marca sine-qua-non da nossa existência.
Mas, quando O encontramos e a Ele aderimos em total liberdade e verdade, não mais O queremos abandonar, e sentimos uma inadiável e urgente necessidade de transbordar para os nossos irmãos toda esta esperança e felicidade com que somos inundados.
Lúcia espelhava essa Luz em que um dia se vira imersa, aspergindo-A sobre a terra, como Deus lhe designara, quando menina, e a quem ela dera o seu SIM incondicional!
Bem-haja, querida irmã Lúcia!


