Escrever sobre São João da Cruz é, ao mesmo tempo, simples e grandioso. Isso porque falar de João é falar de um coração perdidamente apaixonado pelo Amado.
Com sua vida e seus ensinamentos, João grita para o mundo o quanto o Amado ama cada um dos seus irmãos e o quanto Ele os quer por perto.
Ao darmos uma vista de olhos pelas suas obras, fica claro que a relação esponsal de São João da Cruz com Cristo é, na verdade, uma linda canção, semelhante àquela entoada pela vida de Santa Teresa de Jesus.
Mesmo em meio à noite escura, marcada pelos desafios mais inquietantes da vida espiritual, ouvimos João da Cruz declamar que é essa mesma noite que o levará à união perfeita e eterna com o Amado.
João não tem medo da subida ao monte. Pelo contrário, ele anseia por cada passo dado rumo ao Amado, mesmo que seja pesado e marcado pela dor e pelo sofrimento.
Nem flores e nem espinhos são capazes de distrair João do seu caminho. A meta é certa: Cristo. Para alcançar tão sublime alvo, é preciso deixar que o Bom Deus conduza a alma como aprouver.
Se for pela via da noite escura, o segredo é aproveitar tudo para amar mais a Deus, suplicando uma fé, uma esperança e uma caridade renovada pelo poder do Espírito Santo.
Para passar por tal caminho, João da Cruz ensina aqueles que ainda estão no princípio a não desanimar, mas a terem coragem de desbravar essa via nova, contemplando sempre os frutos que Deus quer fazer crescer.
Obrigado, São João da Cruz!
Obrigado por revelar que os apetites são correntes sutis, sedas que se fazem grilhões. Prometem doçura, mas deixam ferrugem na alma. Nascem pequenos, como brisas, e logo se transformam em ventos que nos arrastam para longe do silêncio onde o Amado fala.
A alma que os segue perde-se — não por falta de caminho, mas por excesso de ruído. Cada desejo desordenado levanta poeira dentro do coração, turvando o espelho onde o Eterno quer refletir o seu rosto.
Cansa-se a alma, fatigada de buscar em mil fontes o que só jorra de uma. Corre, bebe, seca, e volta a correr. Sofre, como quem cava cisternas rotas — quanto mais tenta saciar-se, mais sente a sede. De fato, é isso que os apetites fazem.
E, no entanto, o pior não é a dor, mas o esquecimento. Porque os apetites cegam, e a alma, encantada pelas faíscas do mundo, já não vê a luz que a chama de dentro. Fica manchada, enfraquecida, como lâmpada que fumega e não ilumina mais.
Mas quando renuncia — oh, ditosa ventura! — quando se esvazia, quando diz o seu “basta” às vozes que a dispersam, então tudo muda. A noite dos apetites torna-se o alvorecer do espírito. O que antes era peso torna-se asas. O que antes era sombra converte-se em claridade. E Deus, que esperava em silêncio, entra. E o nada, enfim, descansa no Tudo.
São João da Cruz, as tuas palavras são ânimo para alma, vigor para o coração e força para a vontade enfraquecida devido às batalhas da vida. Queremos, sim, nos desapegarmos dos apetites terrenos para nos deliciarmos com as maravilhas do Céu, que só o nosso Bom Deus pode oferecer.
Por isso, ajudai-nos, amigo carmelita, a não esmorecer. Afinal, bem sabemos que os apetites entibiam a alma e roubam a força de progredir e de perseverar na virtude. Queremos nos unir como tu te uniste ao Amado das nossas almas!
* O Autor escreve em português do Brasil.

