Num tempo de agitação, de pressas, de mil tarefas a que somos chamados durante um dia, fácil é esquecer os pequenos nadas (importantes) que julgamos menos urgentes e facilmente adiamos ou abolimos, por vezes, de forma egoísta, num movimento de fechamento ao outro. Os pequenos nadas de um olhar com tempo, de um telefonema com escuta, de um compasso de espera no tempo do outro, de uma visita espontânea a um amigo, a um familiar, com genuína empatia, com genuína e gratuita ternura.
Hoje escrevo para mim e para ti, que vivemos num tempo de agitação e desafio, num tempo que busca desesperadamente o olhar de Cristo através do nosso.
Hoje escrevo percebendo o quanto Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, nos toca, nos sustenta, nos anima, purifica e impele com Ternura pelo caminho da santidade, para nos abraçar em Seu eterno abraço já nesta vida, já aqui e agora.
Facilmente dizemos e escrevemos “com ternura” ou “um abraço terno em Cristo”. Instiga-me o Espírito a ir mais fundo, a investigar com mais rigor, mais detalhe, o que isto, afinal, significa.
No dicionário online da Infopédia, Dicionários da Língua Portuguesa, encontramos esta breve definição de “Ternura”: «qualidade do que é terno; meiguice; afeto brando e carinhoso; disposição para os sentimentos suaves»[1]. Trata-se de um substantivo feminino, maternal, que nos evoca a manifestação de carinho, de afeto. Encerra uma manifestação sublime, unificante, poderosa e vulnerável do amor entre duas pessoas.
Inevitavelmente, torna-se em mim presente uma das manifestações da Ternura maternal de Deus junto da Humanidade: Maria. Aquela que acolhe o Filho no seu ventre, que cuida, abraça, ampara, incita, escuta e a Quem obedece com amor e confiança. Maria abre o seu coração à Trindade com esta ternura maternal, vulnerável, dialogante e disponível para a Cruz. Esta é uma Cruz suave, que vai muito além da dor. Um paradoxo. Um paradoxo onde tudo é suportado com mansidão e humildade, em nome do Amor, em nome da Trindade, que Se infunde em todos os corações com rasgos de ternura divina, através de outros corações. Há um “coração-a-coração” e um “coração-a-Coração”. Em simultâneo. A ternura é Amor tornado relação visível e invisível, profunda, vital.
Antes desta Ternura da Trindade se infundir (se encarnar) na Humanidade duma forma física, próxima, carnal, no seio de Maria, já o Três conspirava uma suave e nova investida na vida do ser humano, tão bem descrita por São João da Cruz:
«Uma esposa que te ame,
Meu Filho, dar-te queria,
Que por teu amor mereça
Ter a nossa companhia.
E comer pão numa mesa,
Do mesmo Pão que Eu comia,
Para que conheça os bens
Que em tal Filho Eu possuía.
E comigo lhe compraza
Tua graça e louçania».
«Muito te agradeço, Pai,
– O Filho lhe respondia –;
À esposa que me deres
A minha luz eu daria
Para que por ela eu veja
O quanto meu Pai valia
E como o ser que possuo
Do seu ser recebia.
Vou recliná-la em meu braço,
Teu amor a abrasaria,
E tua eterna bondade
Com deleite exaltaria»[2].
Perante este diálogo, o nosso coração derrete-se em gratidão, em terna adoração. Percebemos com que infinito cuidado e solicitude a Trindade nos ama, cuida e deseja reconduzir ao Seu Seio, como nos apresenta João: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o Seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que n’Ele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (3,16). Nenhum medo já nos pode derrubar, pois Deus está connosco: «Nada temas, porque Eu estou contigo; não te angusties, porque Eu sou o teu Deus. Eu fortaleço-te e auxilio-te; e amparo-te com a minha mão direita e vitoriosa» (Isaías 41,10). Com Ternura maternal, a Trindade estende-nos a mão e livra-nos de todas as angústias: «No entanto, estive sempre contigo, e Tu me conduziste pela mão» (Salmo 73,23); e ainda: Os justos clamaram e o Senhor atendeu-os e livrou-os das suas angústias» (Salmo 34, 18).
Os justos! Os justos, aqueles que procuram escutar a Vontade de Deus e desejam que esta se concretize na sua vida, como assim o procuraram José e Maria, em todas as circunstâncias, independentemente das consequências humanas. Os justos, aqueles que amam e ousam ser ternos até à Cruz, como um dia Rute:
«Não insistas para que te deixe,
Pois onde tu fores,
Eu irei contigo
E onde pernoitares, aí ficarei;
O teu povo será o meu povo
E o teu Deus será o meu Deus.
Onde morreres,
Também eu quero morrer
E ali serei sepultada.
Que o Senhor me trate com rigor
E ainda o acrescente,
Se até mesmo a morte
Me separar de ti[3]».
Na oração incessante, persistente, a alma é profundamente alimentada, purificada e transformada durante a sublime contemplação mútua. Nesta contemplação entre a alma e o Esposo Amado, o Esposo diz: «Volta, minha pomba. Que, ferido, o veado / Lá no outeiro assoma / Ao sopro do teu voo e o fresco toma!». O Amado-Esposo visita a alma casta e delicada de forma amorosa. O Veado (o Amado-Esposo), ferido pelo amor da alma esposa, começa a mostrar-Se na sublime contemplação[4]. A alma será docilmente imolada na Cruz, para que toda ela se torne este terno abraço a Cristo, em Cristo, por Cristo, a todo o próximo. Para que toda a alma se torne Luz. O pecado deixa de ter poder sobre a alma, e este apenas aumenta a sua humildade, seduzindo a Trindade a ocupar ainda mais toda a alma:
«Como é grande a distância dos céus e da terra,
Assim são grandes os favores para os que O temem.
Como o Oriente está afastado do Ocidente,
Assim Ele afasta de nós os nossos pecados.
Como um pai se compadece dos filhos,
Assim o Senhor se compadece dos que O temem[5]».
A mulher adúltera (João 8, 1-11) percebeu no seu coração o quanto Cristo trabalhou nela: Jesus reescreveu a sua alma num gesto de profunda ternura, fortaleceu-a e enviou-a a amar, a ser terna com a Ternura que recebera, a ser mais forte do que qualquer pecado. Já nada, nem ninguém, a voltaria a separar deste Amor, desta Ternura feita anúncio Eucarístico que a habitou: «Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso»[6]. Fortalecidos com este Amor, com a Ternura, seguiremos protegidos e acompanhados:
«O Senhor é quem te guarda e está a teu lado.
Ele é a tua proteção.
O Sol não te fará mal durante o dia,
Nem a Lua durante a noite.
O Senhor protege-te de todo o mal
E vela pela tua vida[7]».
A Última Ceia, toda a Paixão, tornam-se um incomensurável gesto de Ternura para connosco, como, por exemplo, a Oração Sacerdotal (João 17) e a Instituição da Eucaristia: «Enquanto comiam, tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo: Tomai: isto é o meu corpo. Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por vós[8]».
Que nos impede a ousadia de sermos ternos? Quem nos pode impedir? Ninguém!
Este nosso mundo, aquele em que trabalhamos, convivemos, descansamos, aprendemos, partilhamos tempo com os nossos próximos, espera pela coragem desta Ternura feita Cruz, gratuita, repleta de um sorriso profundo, que nasce da Fonte Trinitária. A Ternura, o olhar terno que nasce de Cristo, é a revolução em que podemos começar a instalar, pedaço a pedaço, o Céu aqui na Terra. A Ternura é virtude dos fortes, dos que não precisam de maltratar ou negligenciar os outros. A Ternura é a ousadia da vulnerabilidade, o caminho de santidade, pela Cruz suave, humilde e luminosa.
A ti, meu irmão leitor, minha irmã leitora, um abraço muito terno em Cristo!
[1] https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/ternura
[2] São João da Cruz, Poesia 3.
[3] Rute 1, 16-17.
[4] Cfr São João da Cruz, Cântico Espiritual,
[5] Salmo 103, 11-13.
[6] Romanos 8, 38-39.
[7] Salmo 121, 5-7.
[8] Marcos 14, 22-24.


