Mar 1, 2022 | Carmelo em parábolas

Uma porta para o interior!

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Peço licença para entrar neste Claustro tão especial para partilhar convosco algumas das preciosas Parábolas do Carmelo. Elas foram geradas no Claustro, na Capela ou noutro espaço singular dos conventos dos nossos mestres carmelitas mais do passado ou mais do presente. Começamos pela Parábola do Castelo.

No convento ou nas nossas casas familiares há portas majestosas, há portas singelas… Uma porta pode fechar ou abrir, mas só consigo pensar na porta para abrir. Com alegria abre-a a criança. Com cautela, abre-a a maturidade que se vai impondo… Abrem-se portas para o mundo, abrem-se portas para os sonhos, para cima, para o alto. Abrem-se portas para Deus, para a oração!

Santa Teresa de Jesus contemplou a Porta de um Castelo “todo de diamante ou puríssimo cristal, onde há muitos aposentos, tal como no céu há muitas moradas. (…) Tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e consideração. Não digo, porém, que seja mais mental ou vocal, porque, se é oração, há de ser feita com alguma consideração. Com efeito, a oração de quem não adverte com Quem fala, e o que pede, e quem é que pede e Aquele a quem pede, eu não lhe chamo oração, ainda que os lábios se mexam muito” (1Moradas 1,7).

Este Castelo tem para Teresa a beleza da interioridade que só pode ser transposto pela porta da oração, do diálogo de amigos que se recolhem no interior do Castelo. A oração, a seu ver, consiste simplesmente em estar na presença do Senhor, escutá-Lo e responder-Lhe, desfrutar da Sua companhia, mais preocupados em amar do que em pensar. Destes encontros repetidos resulta uma maneira de viver e de nos relacionarmos com os outros. A esse estar tratando de amizade, sucede-se a espiritualidade ou vida espiritual.

Teresa vai desbravando as belezas deste Castelo, da sua interioridade e conclui que este Castelo da nossa alma tem muitas moradas onde, na mais central habita Deus e para lá entrar precisamos de franquear a porta da oração, do diálogo com este Hóspede que nos habita. Havemos de fazer esta travessia esforçando-nos por nos conhecermos a nós próprios, com honestidade, reconciliando-nos com a nossa própria história pessoal e exercitando as virtudes. Saber quem somos, donde vimos e para onde vamos são os fundamentos da nossa existência, da nossa fé e bons princípios para a vida de oração.

À semelhança dos guerreiros, arrisquemos e ponhamo-nos em caminho, decididos a conquistar esse Castelo, sabendo que não são as técnicas psicológicas de introspeção ou outras que mais nos fazem avançar nesta aventura, mas é a oração que nos conduz ao mais profundo de nós mesmos, ao nosso íntimo e à nossa verdade. A oração, como afirma esta autora, é uma linda história de amizade “estando muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama” (Vida 8,5). Os protagonistas desta história de amizade e comunhão são Deus e o homem em relação, em diálogo, em oração. Pensamos que somos os primeiros a chamar por Deus quando vamos rezar, mas na verdade, é Ele que nos chama e busca primeiro. Quis estabelecer a Sua Morada em nós para que livremente O descubramos para cultivar a relação e estreitar os laços da amizade, adentrando-nos cada vez mais no seu mistério.

Este caminho orante e espiritual não o fazemos sozinhos, temos necessidade de nos rodearmos de “boa companhia” (Vida 2,5) que, no entanto, não é garantia de sucesso, se da nossa parte não houver determinação e atitude sincera para responder às investidas que Deus vai fazendo. Ele que sempre respeita a nossa liberdade aguarda o nosso consentimento. Bate delicadamente à Porta deste Castelo para que lha abramos e assim ampliar a nossa interioridade e capacidade de O receber cada vez mais.

Neste caminho, na construção desta história de amizade, vamos progressivamente conhecendo-nos a nós próprios, tomando consciência de quem somos e de quem é Aquele que realmente nos ama. Conhecendo-nos cada vez melhor, também conhecemos Deus e tanto mais conhecemos a Deus quanto mais nos conhecermos a nós próprios, porque quando nos conhecemos de verdade encontramo-nos sempre com Deus, fundamento da nossa existência. Esta relação é transformante, mexe connosco, altera a hierarquia dos nossos valores e prioridades. Esta história que se vai construindo a dois em liberdade não é só fruto do nosso esforço pessoal, é fruto da ação de Deus na pessoa que se deixa guiar por Ele, pelo caminho estreito da necessária purificação interior que leva à nossa transformação no homem por excelência que é Cristo. Tudo que Deus dá precisa da nossa colaboração para crescer.

Esta Porta do Castelo é para os cristãos a Porta do Batismo. Ao longo da vida, vamos entrando de novo porque também vamos saindo, também nos vamos distanciando da interioridade. O esforço de regressar, de entrar de novo equivale a todo o exercício de virtudes, à opção renovada pelos grandes valores humanos e espirituais. Diz Teresa no Livro das Moradas ou Castelo Interior: “E crede-me que a questão não está em trazer hábito religioso ou não, mas em procurar praticar as virtudes, submeter em tudo a nossa vontade à de Deus, ordenar a nossa vida de acordo com o que Sua Majestade quiser dela, e não querermos que se faça a nossa vontade mas a Sua. E, porque ainda não chegamos aqui, como disse, haja humildade, que é o bálsamo das nossas feridas; realmente, se a tivermos, ainda que demore algum tempo, o cirurgião – que é Deus – virá curar-nos” (3M 2, 6). Esta mulher espiritual e humanista do séc. XVI coloca de forma particular este assento na prática das virtudes, porque acredita que o espiritual se edifica sobre o humano. Tão importante é para Teresa o crescimento das virtudes que nos diz: “Eu não desejaria outra oração senão a que me fizesse crescer as virtudes” (Carta 136 ao Pe Gracian, 23 de out. de 1576) e valorizava principalmente a humildade e o amor de uns para com os outros.

Para sabermos que tipo de Portas estamos a passar, sou seja, que tipo de oração temos, só precisamos de olhar para a qualidade das nossas relações com os outros, a começar sempre pelos mais próximos: filhos, marido ou esposa, comunidade religiosa ou paroquial. Outro fruto e sinal de que moramos na interioridade do Castelo é o equilíbrio entre Marta e Maria (Lc 10, 38-41), entre ação e oração, entre vida ativa e a vida contemplativa, para que o nosso compromisso tenha motivações profundas, enraizadas em Cristo, profundamente ativo e profundamente contemplativo. Teresa, cunhadora de novas parábolas, entra na fase contemplativa da sua grande parábola do Castelo Interior dizendo: “… obras quer o Senhor. Se vires alguma doente a quem possas dar algum alívio, compadece-te dela (…) não tanto por ela, mas porque sabes que o teu Senhor assim o quer” (5M 4,11). Oração e compromisso são a mesma realidade do seguimento de Jesus.

Oração, exercício de interioridade, diálogo com Jesus, não é sinónimo de ausência de problemas, de dificuldades e de lutas, mas a certeza de que estamos ancorados num Centro, na Pessoa de Jesus que nos dá a força do Espírito para que com “determinada determinação” perseverarmos no combate confiando na iniciativa e primazia do amor de Deus. Há uma Castelo a desbravar em cada um de nós, em cada ser humano. Que porta mais majestosa temos para entrar nele senão pela Porta da Oração. Entremos então por ela!

Isabela Neves

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