… Quanto mais consciente está o artista do «dom» que possui, tanto mais se sente impelido a olhar para si mesmo e para a criação inteira com olhos capazes de contemplar e agradecer, elevando a Deus o seu hino de louvor. Só assim ele pode compreender-se a si mesmo e à sua vocação e missão.
Gostaria de iniciar este segundo artigo a partir desta compulsão criadora que o artista tem perante o mandato de Deus de dominarmos a terra (Gn 1,28).
A Igreja ensina-nos que, na Origem, este domínio da terra a que Deus incentivou o Homem[1] consistia na fruição de tudo o que Ele nos havia dado no esplendor e no entusiasmo do Seu acto criador. O estado de integridade da natureza humana consigo mesmo, com todo o Cosmos e com o próprio Deus, antes da Queda das origens, fazia do Homem uma “peça” harmónica com toda a criação comungando do conhecimento natural que o Homem tinha da estrutura interna da natureza[2]. Mas esta harmonia rompeu-se no dramático momento da desobediência. De tal modo esta desobediência feriu a relação do Homem com o seu Criador que todo o Cosmos e toda a natureza humana ficou, indelevelmente, afectada. Só uma nova intervenção divina nos pode redimir pela morte e ressurreição do Seu Filho Jesus Cristo e nos colocar de novo na possibilidade da comunhão com Deus.
Resgatado no seu ser, o Homem redimido retomou a possibilidade de domínio sobre toda a criação, mediante o domínio do espírito sobre a matéria; para isso a comunhão original com Deus terá que ser conquistada, de modo pessoal e eclesial com muito trabalho, suor e sofrimento. Desse trabalho faz parte a criação artística, um dos mais sublimes dos trabalhos humanos, um dos modos de unirmos a realidade visível com o que a transcende permitindo o contacto com o Ser unificador. A esse propósito, S. João Paulo II diz-nos na Carta que toda a intuição artística autêntica ultrapassa o que os sentidos captam e, penetrando na realidade, esforça-se por interpretar o seu mistério escondido. Ela brota das profundidades da alma humana, lá onde a aspiração de dar um sentido à própria vida se une com a percepção fugaz da beleza e da unidade misteriosa das coisas.
Então, como primeiro obstáculo, a realidade passou a apresentar-se, ao Homem, fracionada entre a realidade visível e a realidade invisível, contudo, não menos real. A reapropriação e a vivência plena da harmonia primordial, tornou-se, então, o trabalho humano até ao fim do fim dos tempos para em Deus permanecermos e desse modo nos mantermos participantes dessa unidade universal, visível e invisível – Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis… esta é a fé dos que crêem.
É um chamamento consciente a esta realidade que o Papa João Paulo II faz aos artistas quando lhes dirige esta Carta e os interpela afirmando que o profícuo diálogo entre os artistas e a Igreja ao longo da história, não se trata de um diálogo ditado apenas por circunstâncias históricas ou motivos utilitários, mas radicando na própria essência tanto da experiência religiosa como da criação artística.
Se o trabalho do cientista nos ajuda na tarefa de conhecer o visível e quantificável, o que é palpável e observável de modo a retomar, paulatinamente, algum conhecimento da estrutura interna da matéria, o trabalho do artista, pelo contrário, tem como objeto o conhecimento, de um modo reflexivo e expressivo, do que está oculto no visível, do que é revelado porque é invisível, do profético porque a memória do passado nos permite vislumbrar o futuro – na verdade, pela arte, o artista, atualiza o transcendente no aqui e agora e ajuda a reintegrar as partes no Todo. A arte, por conseguinte, possibilita o acesso a um conhecimento que de outro modo se manteria inacessível.
É tanto mais necessário voltar a recordar estas premissas quanto mais os movimentos artísticos na contemporaneidade se afastaram delas. Desde a Modernidade, que se tem vindo a levar à plenitude a máxima sofista de que “o homem é a medida de todas as coisas”[3] tornando, assim, a realidade truncada, pequena, limitada e fechada sobre si própria. Nesta perspectiva, a arte perde o seu objeto por excelência e torna-se apenas útil ao ser humano e aos interesses do mundo: ao mercado da arte, às ideologias sociais e políticas, a uma antropologia cultural onde não é equacionada a possibilidade de Deus. A arte tornou-se disciplina de conhecimento e autonomizou-se da sua relação original com um Deus pessoal, pondo em risco o seu real objeto de conhecimento, permanecendo somente na dimensão da psicologia humana. Contudo, estamos a perceber, lenta e penosamente que, se nos mantivermos na nossa pequena medida, não alcançaremos grandeza nenhuma a não ser a da nossa pequenez.
Mantemo-nos assim nesta tensão com a realidade depois que a razão da Modernidade nos fez crer que nos bastaríamos a nós próprios, que conseguiríamos compreender e dominar o mundo, nas suas adversidades, a partir das disciplinas de conhecimento puramente intelectual, tornando o conhecimento parcial e desintegrado. Consequentemente, o vazio foi-se instalando pela constatação da impossibilidade de dominar a matéria apenas pelo intelecto, esquecendo o espírito, correndo o risco de perder de vista o que pode preencher esse vazio – a Beleza, aquela que salva.
Pedro Antonio Urbina[4] explica-nos que a beleza não é subjetiva. Não diz apenas respeito à dimensão psicológica das emoções, do sentimento e da sensualidade humana já que tudo isto é, apesar de grande, ainda dimensionado pela pequenez do ser humano; a beleza, esta que salva não é estética; é, antes, ontológica. Esta beleza que salva é uma consequência da retidão e da ordem no mundo criado, do mundo real, objetivo e participa da absoluta Beleza. Só assim a beleza pode ser grande e verdadeiramente livre; porque também a liberdade é ontológica porque participa da absoluta liberdade que é Deus. Mas, se a luz permanece – embora ténue – nada está perdido[5] –eela permanece – porque Deus desenhou o Homem para que este não descanse enquanto não O encontre e nele repouse do cansaço da corrida, como nos diz Santo Agostinho; porque, em última análise, o Homem persegue, loucamente, Aquele à imagem do Qual foi criado – Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
[1] Gen. 1, 27 Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher.
[2] Tomaz, Eugénia, O Tempo para lá do Tempo – na conciliação de universos, ed. Vieira da Silva, 2021.
[3] Protágoras – “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são enquanto são e das coisas que não são enquanto não são”.
[4] Urbina, Pedro António, Filocalia o Amor a la Belleza, 1988, ed. Rialp,S.A. Madrid, pag. 15.
[5] idem pag. 54.


