Em 2026 celebra-se os 300 anos da canonização e os 100 anos do doutoramento eclesial de São João da Cruz, sob o lema «A esperança alcança tanto quanto espera», incentivando os fiéis a aprofundarem o legado místico e espiritual deste santo carmelita. Em 2025 celebrou-se o Jubileu da Esperança, mas que é isso de ‘esperança’?
Desafio quem me lê a fazer esta caminhada comigo pelas veredas da esperança, pois em certos meios de comunicação social e até mesmo nas nossas teias de relações, o futuro apresenta-se como uma noite escura, como um deserto. Todavia, chegam ao nosso conhecimento situações em que a esperança foi/é um farol. Como diz a sabedoria popular, «por trás das nuvens há sempre sol». Parece que o sol desapareceu e só se vislumbra sombra.
Conhecemos situações em que a desesperança parece o caminho mais óbvio e mais lógico. Veja-se a situação de adolescentes e idosos com um elevado índice de sentimento de desesperança, baixas expectativas de futuro, muita vulnerabilidade e batalhas internas bastante dolorosas. Veja-se quando ligamos os meios telemáticos ou folheamos um jornal ou uma revista e as notícias parecem desesperadamente devastadoras, seja o aumento dos preços de produtos essenciais, da habitação, de conflitos bélicos ou os acontecimentos climáticos ocorridos em janeiro em Portugal.
O que fazer? Desinvestir? Desesperar? Deixar-se levar pela aparente evidência? Ou perguntar onde pára a esperança?
Bem… será onde pára ou será onde está, se reformula e se (re)constrói a esperança?
«A espera é um dos lugares mais difíceis da experiência humana. Psicologicamente, ela confronta-nos com a sensação de falta de controle. O futuro não se deixa dominar, e isso desperta ansiedade, frustração e, em muitos casos, a tentação de desistir. Queremos resultados, sinais claros, garantias»[1] o mais rapidamente. Mas o tempo, na maior parte das vezes, tem o seu tempo (Eclesiastes 3). Veja-se a notícia do deserto mais árido do mundo que se enche de flores, tornando-o um espetáculo de ser admirado[2], lembrando-me de Isaías 35, 1-2: «O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores belas como narcisos. Vai cobrir-se de flores
e transbordar de júbilo e de alegria».
Há correntes filosóficas em que a desesperança paralisa ações e decisões, levando à inércia e envolvendo uma sensação de que nada pode mudar ou salvar. Nietzsche analisa a desesperança como a perceção de que os valores tradicionais não sustentam mais sentido para a vida; Sartre e Camus discutem a desesperança ligada à absurda condição humana; Kierkegaard vê a desesperança como um ponto crítico na vida: ela pode levar à angústia e ao afastamento de Deus, mas também é oportunidade para a reconciliação com a própria existência e com o divino.
É nesta perspetiva de Kierkegaard que retomo a nossa viagem, depois de admirar as imagens do deserto de Atacama.
«Uma flecha precisa ser puxada para trás antes de ser lançada para a frente», diz Soichiro Honda, pois, por vezes, para se dar um passo em frente, temos de dar dois atrás.
Esta atitude estratégica permite repensar, ganhar coragem e preparar o terreno para avançar com mais confiança. O sentido do recuo não é um sinal de fracasso, mas sim de sabedoria para corrigir rumos, reavaliar estratégias e buscar coragem para sair da situação em que se está.
A Humanidade não fica impávida a ver o que acontece no nosso pequeno grande planeta Terra. Não.
Insurge-se!
Manifesta-se!
Organiza-se!
Mobiliza-se!
Faz(-se)!
E volto a pairar no deserto de Atacama!
Admirei!
Retomo.
A esperança é uma das virtudes mais profundas da experiência humana e cristã. Não se trata apenas de desejar que algo bom aconteça, mas de uma atitude interior de confiança diante do futuro. É a força que nos faz continuar apesar das dificuldades; que nos sustenta e nos reconforta perante o sofrimento; alimenta projetos e sonhos; dá sentido à espera; e impede que o desânimo tenha a última palavra. Veja-se o exemplo de São Rafael Arnáiz Báron que não deixou a doença desvanecer os seus sonhos, para não falar em São João da Cruz quando foi encarcerado.
Na tradição cristã, a esperança é uma virtude teologal, juntamente com a fé e a caridade. Seu fundamento não está apenas nas circunstâncias, mas em Deus. Não nasce da evidência, mas da confiança. Quando tudo é claro, quando sentimos consolo e segurança, é fácil dizer que confiamos, que acreditamos, mas quando as luzes se apagam, resta apenas a decisão interior de permanecer. É aí que a esperança se torna pura.
A Bíblia fala-nos acerca deste tema, apresentando-a como uma força vital que sustenta a vida do crente e confiança firme em Deus e nas suas promessas.
No Antigo Testamento, a esperança está frequentemente ligada à fidelidade de Deus e à expectativa da salvação. No Salmo 40:4, a esperança é confiança ativa na ação de Deus na vida: «Bendito o homem que espera no Senhor e cuja esperança é o Senhor»; «O Senhor é o meu Pastor» diz Salmo 22; o Salmo 137 ressalva que a esperança era o fio que os mantinha unidos à promessa de retorno à terra e à aliança com Deus; em Isaías 40:31 fala-se de paciência e firmeza, mesmo diante do sofrimento e de um futuro de libertação: «Mas os que esperam no Senhor renovarão suas forças». Em 2Crónicas 36:22, Deus devolveu o Seu Povo à terra de origem que se encontrava no Exílio da Babilónia.
No Novo Testamento, a esperança concretiza-se em Jesus Cristo e na promessa da vida eterna: São Paulo chama a esperança de «âncora da alma» (Hebreus 6,19), indicando que é firme, segura e capaz de sustentar o crente em tempos de provação; em Romanos 5:3-5 ensina que o sofrimento produz perseverança, carácter e esperança, e esta não decepciona, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo.
Assim, na Bíblia, a esperança envolve ação, perseverança, é focada em Deus, pois não se apoia em forças humanas, mas na fidelidade divina, é transformadora já que nos sustenta nos momentos de dor, fortalece a fé e a caridade e aponta para o cumprimento das promessas de Deus, especialmente a vida eterna.
Para São Tomás de Aquino, é a virtude pela qual confiamos alcançar a vida eterna com a ajuda da graça divina. Ela apoia-se na fidelidade de Deus, nas promessas reveladas em Cristo e na certeza da ressurreição. Por isso, a esperança cristã não é ingenuidade nem fuga da realidade – é confiança ativa.
O Catecismo da Igreja Católica afirma que a «virtude da esperança corresponde ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração de todo o homem; assume as esperanças que inspiram as atividades dos homens, purifica-as e ordena-as para o Reino dos céus»[3].
Grandes místicos, como São João da Cruz, ensinam que a esperança cresce na noite, quando os apoios humanos desaparecem, quando sai de casa (desapego dos valores mundanos? Do seu conforto?) e vai ao encontro de seu amado (Deus). É na escuridão que aprendemos a esperar não nas circunstâncias, mas em Deus.
Há momentos na vida em que tudo parece escuro, projetos que não se realizam, orações que parecem não chegar ao destino, e o coração experimenta um silêncio inquietante, mas para São João da Cruz, esses momentos não são sinais de abandono de Deus, mas ocasiões privilegiadas para o amadurecimento da esperança.
Por isso, no poema Noite Escura descreve a experiência da ‘noite’ como um caminho de purificação. Muitas vezes esperamos em sentimentos, em sinais, em respostas rápidas. Contudo, Deus deseja conduzir-nos a uma esperança mais profunda: aquela que se apoia somente n’Ele. Esperar, nessa perspectiva, é desapegar-se.
Na obra Subida do Monte Carmelo, o santo ensina que para chegar ao Tudo, é preciso desprender-se do que não é Deus. A esperança esvazia-nos das falsas seguranças para que possamos ser preenchidos pelo essencial.
A noite espiritual, portanto, não é o fim do caminho: é passagem. Quando a alma persevera, mesmo sem compreender, a esperança transforma-se em confiança serena. Já não se trata de pedir sinais, mas de entregar-se.
Para São João da Cruz, a esperança aponta sempre para a união com Deus – qual comparação com o Exílio da Babilónia, o Êxodo ou a oração de Jesus no Monte das Oliveiras (Lucas 22:42). Ela é a virtude do futuro, mas também do presente, porque sustenta cada passo na travessia. É uma chama discreta que não faz ruído, mas impede que o coração se apague.
Mais uma paragem no deserto de Atacama. E contemplo.
Por outros caminhos que não a Religião, há uma panóplia de acervos que expõem a esperança como uma chama interior, impulsionadora de alento, de vida. Por isso, cabe a cada pessoa cuidar dela para que permaneça acesa.
Como alimentá-la? Timidamente, ouso pincelar alguns pontos: lera Palavra de Deus, pois é necessário meditar na Palavra de Deus, já que ela é vida e é viva; vivera Eucaristia, alimentando-se do pão da Vida uma vez que ajudará a voltar a concentrar-se em Deus e a viver na esperança da união eterna com Ele; transformarações em orações, mesmo que isso pareça algo invisível e insignificante como limpar o pó de casa ou ouvir o colega de trabalho sempre a reclamar de tudo; agradecer sobre as bênçãos que vive, pois há sempre alguém com menos condições do que as nossas; e por fim, um grande ato de esperança: praticar a caridade. Só se consegue multiplicar o que se divide, como o tempo de escuta a um idoso ou a um jovem sem perspetivas de futuro; reconstruir o que foi destruído; ou reconfortar alguém que perdeu um ente querido, pois estes gestos trazem esperança e, certamente, irão alegrar um pouco mais o dia deles… e o seu, e, um dia, quando o sol voltar a brilhar — porque ele volta sempre — aperceber-se-á que se atravessou a escuridão com dignidade, com fé e que sobreviveu ao mau tempo e a noites escuras com esperança[4]. «Estai sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça» (1Pedro 3:15) e que vo-la suplique, muitas vezes em silêncio.
Antes de terminar, deixo uma amostra de dois poemas (e o aroma do deserto de Atacama invade-me as narinas):
«Anda comigo, vou falar de esperança
da vida que ainda agora principia
Perde essa amarga e vã desconfiança
toma a minha mão de amigo – e confia»[5].
«Buscando meus amores,
irei por estes montes e ribeiras;
não colherei as flores, nem temerei as feras,
e passarei os fortes e fronteiras»[6].
E para terminar, sintetizando, a esperança é, no plano humano, resistência, resiliência, reação e ação; no plano cristão, é confiança em Deus, e, em ambos os casos, é a virtude que nos faz continuar caminhando, é a força que mantém o coração voltado para algo maior do que o presente.
Fontes de pesquisa
- BÍBLIA SAGRADA – coordenação de Herculano Alves. Difusora Bíblica, Lisboa, 2016. Edição usada para as passagens bíblicas.
- Catecismo da Igreja Católica. Gráfica de Coimbra, 1993.
- Foley, M. – A noite escura. Experiência psicológica e realidade espiritual. Edições Carmelo, 2023.
- https://claustro.carmelitas.pt
- https://expresso.pt/expressinho/2025-11-06-flores-num-deserto–descobre-o-fenomeno-do-atacama-no-chile-ca66d4c3
- https://pt.aleteia.org
- https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-the-american-philosophical-association/article/despair-and-hopelessness/04462DFCA86C08CC329A7155000ED948
- Imagem – https://www.iguiecologia.com/deserto-florido/
- Martínez, E. J. – João da Cruz – O rosto humano do mistério. Biografia. Edições Carmelo, 2025.
- Palatino, D. – Das esperanças à Esperança. Os rostos da esperança bíblica. Paulinas, Parte superior do formulário
- Parte inferior do formulário
- 2025.
- Papa Bento XVI – Spe Salvi. Encíclica. São Paulo, Edições Loyola, 2007.
- Papa Francisco – A Esperança Nunca Desilude. Cultura Editora, 2024.
[1] In https://pt.aleteia.org/2026/01/14/o-tempo-a-espera-e-a-esperanca-que-sustenta-os-sonhos/
[2] In https://expresso.pt/expressinho/2025-11-06-flores-num-deserto–descobre-o-fenomeno-do-atacama-no-chile-ca66d4c3
[3] Código de Direito Canónico, CIC 1818.
[4] In https://pt.aleteia.org/2025/06/30/como-sobreviver-com-esperanca-em-dias-dificeis/
[5] Excerto do poema de João Apolinário, musicado por Manuel Lima Brummon e interpretado por Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980).
[6] Excerto do poema Cântico Espiritual de São João da Cruz.


