No dia 1 de janeiro comemora-se o Dia Mundial da Paz. Ironicamente, passadas poucas horas, deflagrou novo conflito armado, a somar aos que se mantêm do ano que findou. Será a paz apenas uma utopia? Será a guerra uma inevitabilidade?
Recordo, nos tempos em que me dediquei ao jornalismo, um encontro e uma entrevista a D. Ximenes Belo, prémio Nobel da Paz de 1996. Numa reflexão simples, mas profunda, o laureado falava sobre a paz e os caminhos que é preciso percorrer para a sua instauração, bem como dos obstáculos que é preciso vencer. Este arauto da paz, num tom pacífico, mas acutilante, depois de afirmar que «falar da paz é muito exigente» e de colocar no ar a questão da origem das guerras, pôs o dedo na ferida, melhor dizendo, na consciência, afirmando que «a guerra nasce do coração do homem, quando este deseja apoderar-se dos bens dos outros». E apontou o caminho que é necessário trilhar: «primeiro, educarmo-nos a nós próprios para a paz; depois, educar para os valores e os direitos humanos, para a solidariedade, o civismo e o respeito pelos outros».
Na verdade, a paz exige esforço, trabalho de todos, pois, como afirmava o premiado nobel, «todos somos chamados a ser construtores da paz»: em primeiro lugar, os pais desempenham um papel fulcral, criando uma cultura de respeito, tolerância e solidariedade, começando com o próprio exemplo; em segundo lugar, a escola tem também uma importante e crucial função, fomentando a disciplina e ensinando o respeito; por último, as instituições locais e internacionais devem empenhar-se para garantir que o direito internacional é respeitado, criando mecanismos eficazes de dissuasão e apoio.
Mas será isto possível? Não será mera utopia, sonho de poetas e místicos?
Entre os poetas, muitos foram os que elevaram a sua voz na denúncia das atrocidades da guerra e no apelo à paz. Nesta linha, Natália Correia lança um grito premente, que se mantém atual:
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa
passar a Vida!
(Natália Correia, Ode à Paz)
António Gedeão aponta o caminho possível do amor no seu poema Arma secreta:
Tenho uma arma secreta
Ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
Mas dispara em linha reta
Mais longe que os foguetões.
(…)
Erecta, na noite erguida,
Em alerta permanente,
Espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.
Também Manuel Alegre, no seu poema Mãos, apela ao empenho individual e coletivo na construção da paz, colocando as nossas mãos ao seu serviço em vez de as usar para fazer a guerra:
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
(in O Canto e as Armas,1967)
Por outro lado, também as grandes figuras da Humanidade nos apontam caminhos que urge trilhar. Mahatma Ghandi afirmou que «o mais perfeito ato do homem é a Paz. E por ser tão completo, tão pleno, em si mesmo, é o mais difícil»,mostrando com a sua vida que a violência pode ser combatida com a resistência pacífica, com a afirmação de princípios e ideais. Por isso, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, afirmou recentemente: «Neste momento de tensões crescentes e divisões cada vez mais profundas, amensagem do ex-líder indiano carrega urgência renovada; para Mahatma Ghandi nãohá caminho para a paz, a paz é o caminho”, pois “Gandhi tinha um compromissoinabalável com a paz, a verdade e a dignidade para todos» (https://news.un.org/pt/story/2025/10/1851140).
Por seu lado, os cristãos têm em Jesus o ponto máximo da afirmação da luta pacífica, criando um movimento baseado no amor. Por isso, Ele é apelidado de Príncipe da Paz, apontando caminhos claros, mas muito exigentes, para se chegar à almejada paz, pois exige-se o desprendimento de si, do egoísmo, a abertura sincera ao outro e a Deus.
Como afirmou o papa Francisco no Encontro Mundial sobre a Fraternidade Humana, realizado em 11 de maio de 2024, que se propunha promover os princípios apresentados na Encíclica Fratelli Tutti, «a guerra é um engano, assim como a ideia de segurança internacional baseada na dissuasão do medo. Para garantir uma paz duradoura, precisamos voltar ao reconhecimento da humanidade comum e colocar a fraternidade no centro da vida das pessoas».
Por isso, Sophia de Mello Breyner Andresen faz este apelo/oração:
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos.
(in Dual)
E porque estamos no Ano Jubilar de São João da Cruz, místico carmelita que, nos seus belos poemas canta a união da alma com Deus, recordemos uma Oração pela Paz inspirada nas suas palavras e vivências místicas, onde se nos aponta o caminho seguro para nos transformarmos a nós e à realidade:
Ó Bendito Jesus,
faz com que minha alma se aquiete em ti.
Permite que tua poderosa calma reine em mim.
Governa-me, Rei da Calma, Rei da Paz.
Dá-me controle:
controle sobre minhas palavras,
meus pensamentos e minhas ações.
Livra-me, amado Senhor, de toda irritabilidade,
de toda falta de mansidão e de doçura.
Por tua profunda paciência,
concede-me a paciência e a quietude de minha alma.
Faz com que nisso e em tudo,
eu seja semelhante a Ti.
Ámen.
Guiados por estes arautos sonhadores, ousemos continuar a utopia (do grego eutopos – lugar ideal, e não tanto do utopos – não lugar, como no livro de Thomas More), pois, como afirmava Dante Alighieri, poeta e filósofo renascentista italiano, «a paz universal é o melhor de todos os bens instituídos para a nossa felicidade» (in De Monarchia – Sobre a Monarquia). Sejamos, no nosso tempo, os paladinos da paz, colocando a nossa energia ao serviço da transformação do meio que nos rodeia, mediante a nossa participação cívica nas diversas instituições, empenhando-nos na construção de um novo mundo.

