Dez 27, 2022 | Cinzas e pão, Cultura

As botas de Deus

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Conheço um frade que de uma bagatela faz um doutoramento; engano: faz três pós-doc. O frade conheço-o bem, o doutoramento não sei bem o que seja.

I. Declaração prévia: O que a seguir escreverei são intuições que alinhavo no ínterim de múltiplos stresses pré-natalícios, sem recurso a apontamentos, sem consultar notas, sem investigar, nem tampouco a Wikipédia.

Creio que Samuel Beckett (1906-1989) terá dito que o leitmotiv da sua peça À Espera de Godot era a dificuldade em descalçar um par de botas. (Como se verá, um par de botas pode muito bem ser uma metáfora sobre coisas difíceis de integrar ou experienciar, nomeadamente a experiência religiosa, digo eu.)

Ora, sucedeu que, nestes dias finais de Advento, me foi concedida a graça de, mais uma vez, frequentar a dita peça, no Theatro Circo, em Braga, numa encenação de Gábor Tompa, a partir da tradução de Francisco Luís Parreira, e com cenografia e figurinos de Andrei Both. A interpretação coube a João Melo, Nuno Cardoso, Mário Santos, Rodrigo Santos e Vicente Melo.

(Para horror de alguns, devo ainda confessar que, sem o lamentar, adormeci duas vezes durante aquela apresentação; e logo na primeira fila! Mas nem Didi nem Gogo se estremunharam, que por algo praticam o absurdo no teatro!, e eu também não. Aliás, se foi durante o sono que São José melhor viu e melhor ouviu o que, da parte e Deus, nunca antes vira nem ouvira, assim também eu, no passado dia 16 de dezembro, a partir das 21:30. Confesso ainda outro exagero: foi a terceira vez que vi a referida encenação, servida pelos mesmos responsáveis e pelos mesmos intérpretes: uma vez, durante a dura peste da covide, via zoom, por estarmos impossibilitados de frequentar teatros; a segunda, no Teatro São João, quando, por fim, as portas se reabriram; e agora esta. E fora estas, já terei visto a mesma outras quatro ou cinco vezes, em lugares e com elencos diferentes. Porquê, pois, preocupar-me se desta adormeci?)

II. Como atrás disse, não consulto notas, apenas registo impressões. Mas em primeiro – hão-de perdoar-me os mais sensíveis – declararei que naquela noite, me pareceu ter participado numa eucaristia; e se assim foi, não me reprovo e em nada me nego, porque também o discípulo João – que era bem melhor que eu – adormeceu na primeira missa, a última que o Senhor aqui celebrou! Ora se ele…

Por aí vou, por ter participado numa missa; logo que eu que celebro tantas.

III. É sabido que Beckett sempre se recusou a identificar a espera de GOD-ot com a (nossa) espera de Deus. Mas para mim parece-me óbvio que a peça tresanda ao problema de Deus, embora aceite, e não sei se com acerto, que o dramaturgo não queira afunilar o assunto. Embora, claro está, o descalçar das botas muito bem possa ser a dificuldade em descalçar Deus no terreiro da nossa vida contemporânea. E se assim for, fica explicada, ou pelo menos, compreendida, a presença em palco de tantas botas, botins, sapatos, sapatinhos, sapatins e afins – e alguns quejandos mais: vários e diferenciados aparelhos electrónicos; ah, e isso sim, tudo usado e mais que usado: gasto e cambado! Aquele cenário com o seu quê de acéptico, e com tanto sapato por ali semeado a esmo, ainda que com certa ordem, evoca-me, não sei porquê, os barracões de Auschwitz, onde se arrecadaram os haveres espoliados aos infelizes prisioneiros. Se é certo que estas coisas jamais carecem de intencionalidade, tal como também é certo que a peça foi escrita no pós-Segunda Guerra Mundial, então melhor se compreenderá quecerto ângulo do problema de Deus – onde estaria Deus durante os crimes contra o irmão, em Auschwitz? A quem rezaram aqueles prisioneiros? Ouviu Deus a oração, os lamentos e o choro do seu povo encaminhado para a Solução Final? Terá Deus falhado ao povo que morria escravo naquele egipto? – bem possa ser a bota mais difícil de descalçar desde o primeiro minuto da primeira cena.

IV. Devo ainda acrescentar que se aquela missa não correspondia aos cânones, e não correspondia, o certo é que ali não falham as duas mesas a que nós, católicos, estamos habituados: aquela onde se come Palavra, e aqueloutra, vinho e… carne.

Creio também ter lido algures que Beckett apreciava as gralhas dos tipógrafos e que, por isso, as aceitava (e protegia) nos textos editados, e fazia questão que regressassem nas reedições seguintes dos mesmos. Aceito que assim seja; a mim também não me importunam, que eu não escrevo para liturgistas. Mas, por essa razão, mais sentido me faz aquele cenário pejado de calçado; é óbvio que não são gralhas.

E para terminar as considerações iniciais: parece-me útil re-sublinhar que o dramaturgo assume atribuir mais valor à espera (e ao que fazer se possa durante esta; até que chegue a Parusia?) do que a Deus e à sua vinda. Seja, que foi ele quem o quis dizer.

(Sinopse minha: À Espera de Godot é uma peça de teatro em dois actos, partilhados por cinco actores: Vladimir (Didi) e Estragon (Gogo). Durante cada um dos actos, que se assemelham, surgem dois novos personagens: Pozzo e Lucky. Além destes, entra em cena, no final de cada acto, um garoto (que está ao serviço de GOD-ot, sem o conhecer!). Estão de início em cena Didi e Gogo, esperando GOD-ot, que não chega; entretanto falam, até que chegam Pozzo e Lucky. O segundo acto desenvolve-se de igual maneira. O cenário é o mesmo, apenas a árvore está um pouco diferente, agora com uma folha verde. Didi e Gogo continuam à espera de GOD-ot. Surgem novamente Pozzo e Lucky. Pozzo está cego, Lucky, mudo. Após a partida destes, aparece novamente o garoto anunciando, de novo, que GOD-ot não virá, que talvez venha amanhã. O diálogo final, que encerra o acto e a peça é o seguinte:
Vladimir: Então, devemos partir?
Estragon: Sim, vamos.
Eles não se movem.)

V. Se na óptica do Autor não é tão importante Quem se espera, mas o modo como se está à espera, eis, por fim, algumas considerações sobre o quanto de Deus ali pre-sinto:

i) A meu ver, efectivamente, Deus está ali, pelo que não se pode aguardar Quem já está pre-sente (ou, quando muito, dever-se-ia aguardar uma Sua epifania, mas esta parece estar sempre além da força dos sentidos e da gramática da racionalidade pura e dura das personagens; e de nós?). É evidente que os cânones da arte são uns, e os da oração, celebração e meditação cristãs, outros. E por consequência, também as linguagens são diferentes. Por isso, em todo o tempo, Deus (mesmo que não seja identificável com o esperado GOD-ot) está ali, ali mesmo, girovagando diante dos nossos olhos. Não está escrito nos evangelhos que «onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18:20)? É para mim óbvio que Didi e Gogo estão reunidos em nome de GOD-ot, só que não se benzeram ou persignaram no princípio da missa. Sim, claro que aqueles textos têm muito de absurdo, que aqueles diálogos são do mais estapafúrdio que existir possa; mas quem me garante a mim que assim não estão as cabeças dos que celebramos a missa todos os domingos, e todos os dias? Sim, para mim, é óbvio que GOD-ot está ali desde o princípio até ao fim; e por algo, no fim da peça, ambos dali não se movem, pois não podem retirar-se do lugar onde estão a bem, um com o outro; e porque um não pode passar sem o Outro, e talvez, quem sabe, porque um e outro veem e ouvem o Outro no outro!

Enfim, Deus está ali, bem mais certo do que a plateia possa suspeitar e que, entrando no jogo que lhe é proposto, mesmo que não se queira, fica sem perceber como Didi e Gogo não se aperceberam que são, mutuamente, rosto (e coração e misericórdia) de Deus um para o outro; e ao revés também!

ii) Os não ditos do texto e as informações de que somos privados – Quem seja GOD-ot? Por que cega Pozzo (o todo-poderoso ditador; e sê-lo-á?) e por que emudece Lucky (a sábia enciclopédia ambulante; e sê-lo-á?)? – mais que intencionalmente emaranham a inteligibilidade do discurso da peça, porém, é ou não é verdade que, habitualmente, a comunhão da presença de Deus nos conduz à cegueira, aquela sobre o quanto nada de Deus podemos ver com os olhos; e à afasia, sobre o quanto nada de Deus podemos dizer em palavras? É óbvio que Deus está ali, em cena, e até a árvore (ou só ela?) o reconhece e acolhe! Se bem repararmos, a árvore fala e testemunha tal presença, sim, mas sem recurso a palavras. (Será o silêncio a única solução para falar Deus?) E aqui só se podem assumir as intuições dos místicos, nomeadamente de São João da Cruz, bom sabedor de como o amado Esposo da alma, ao passar, (nos) desperta e (nos) formoseia os bosques e espessuras: «Mil gracias derramando/pasó por estos sotos com presura/y yéndolos mirando/con sola su figura/vestidos los dejó de hermosura» (Cántico Espiritual, canción 5).

iii) A peça inscreve-se no ramo do teatro do absurdo que caracterizou muita da dramaturgia realizada e celebrada nas décadas de 40 e 50 do século passado. Porém, aquelas falas intencionalmente escritas, ditas e contraditas pelas personagens entre si, como uma longa e longilínea lengalenga, ou como um qualquer outro infantil jogo lúdico, assemelham-se (porque não?), respeitando bem uma assertiva distância higiénica, a uma certa lalação sob cuja forma mais se constitui – mesmo sem disso havermos noção – a fala humana quando é impelida a dizer Deus. De facto, de Deus pouco sabemos dizer. E ocorre ainda, mais comummente do que estamos dispostos a reconhecer que assim é, que a nossa linguagem sempre fica aquém do que dizer se possa de e sobre Deus, pois que tão incomensurável objecto, escapando-se-nos continuamente, sempre se revela fugidio aos estreitos contornos do quanto a linguagem humana Dele possa poder dizer. Ora, toda aquela profusão de absurdidade de sentido e de palavra, amplificada pelo contraste com a simplicidade do cenário, mais nos apresta à presença do Indefinível que, ainda que ali pre-sente, e pre-sentido, nunca é passível de ser inteiramente visto, nunca inteiramente a-percebido, nunca inteiramente inteligido, nunca inteiramente definido, nunca inteiramente apreendido, nunca inteiramente dito, restando por demais intocado, a não ser na carne dorida dos frágeis que trilham o mesmo caminho da espera, sujeitos às vicissitudes que sobre eles e sobre nós sobrevenham;

iv) e frágeis ali são-no (somo-lo) todos, ou terminam sendo-o; que é isso que, algures, a todos acaba sucedendo. Referir-me-ei, porém, apenas, a Gogo, em cujo corpo apercebemos as feridas do espancamento sofrido durante o ínterim daquela espera de GOD-ot (e não é que já de por si a espera dói, e dói na carne, e mói a carne?).

As chagas apercebemo-las, pois, no decorrer do segundo acto, quando Gogo nos dirá ter sido espancado por dez meliantes (exagerará?) durante a noite anterior. Eram obviamente demasiados para um andarilho tão rafeiro como ele, tal como foram demasiados os assaltantes que, no caminho de Jerusalém para Jericó, tomaram de assalto um homem a quem espancaram, espoliaram e deixaram meio morto na valeta (Lucas 10:25-37). – Eis como, de surpresa e pela similitude de caso, aquela narrativa lucana, entra em palco nas feridas de uma das personagens –. Não é preciso muito perceber, parece-me, para se assumir que, em contracena, Didi veste ali o fato daqueloutro samaritano, que verteu azeite e vinho sobre as feridas do infeliz espancado. E se é samaritano, é bom; bom como só Deus é bom, cujas entranhas se inundam e revolvem de ternura por cada frágil que espera. Claro que não vimos azeite nem vinho a escorrerem sobre as feridas, nem o corpo a ser ligado, mas vimos, na economia da peça, a preocupação e o cuidado do amigo-coração-de-samaritano; e pressentimos as suas lágrimas não choradas, talvez porque o absurdo as evapore – e a ser assim, tal não significa que não existam de facto. Portanto, Deus está ali, atento e benigno como só Ele, e mais, estando, está tanto do lado do espancado, como do do amigo cujas entranhas se preocupam com o maltratado. Ora se está, e está, não é possível descalçá-lo dali.

v) Como se necessário fora, perdoe-se-me a ingénua queda para a heresia, celebra-se ali uma missa, e logo presidida pela mais autoritária das personagens (uma profética denúncia do clericalismo?) em cena – Pozzo. – O que acontece mais do que possamos aceitar –. Se ao longo da peça há abundância de palavra e tantas remissões para os Evangelhos e para o Antigo Testamento – e como se necessário fora que de tal nos advertíssemos, até as falas nos remetem para os mapas que, de usual, aparecem no fim das bíblias que temos em casa! –, e também há comunhão, e bem à boca de cena, para que ninguém duvide que haja. E o que é mais, se cada eucaristia é sempre um milagre de multiplicação – e porque não? – então também ali sobram migalhas – de sagrado? De Deus? – de que um famélico siro-fenício, em palco, se alimenta como um rafeiro faminto!; que é como quem diz, divago eu, não comas tu tudo, ó católico, não comungues, impunemente, tu tudo, e te refasteles; antes, depois da missa, parte e reparte da abundância das migalhas com que Deus te alimentou. Ora, e por fim, não será aquela abundância por nós ali vista e testemunhada, um outro sinal da presença Deus inaugurando os tempos novos que nos foram prometidos?

vi) Seguindo a lei de que menos é mais que, se de outra maneira não foi, ao menos por escura intuição o dramaturgo a ela cedeu e a ela corresponde, creio não se dever ignorar as aparentemente despiciendas cenas do garoto. Obviamente se elas se dão, e dão-se simetricamente, como uma espécie de reforço, então deveremos prestar-lhes mais atenção. Para mim – e talvez eu não acerte – essa personagem sem nome é um óbvio profeta, até talvez Jeremias. Ele sabe-se enviado por GOD-ot para falar em Seu nome, embora, com óbvia lucidez, reconheça que O não conhece. Feliz paradoxo: alguém fala de Alguém e em nome de Alguém – e até se sabe seu enviado –, e não O conhece! Claro que faz todo o sentido! Todo o sentido faz! A Deus ninguém jamais O viu, tal como o garoto-profeta de GOD-ot jamais O vira ou verá! Mas é óbvio que quem O ouve – queira-o ou não, o mais reles católico ou o mais pintado dos ateus – O vê, porque essa é uma forma universal de ver! E é que vendo-O o garoto com os ouvidos, mais implícito fica que O viu, porque nós vemos o garoto em cena, sinal de que ele não pôde não vir falar-nos! Sim, óbvio é que quem ouvê a Deus se torna Seu profeta; e tem de sair de si e do seu país, e ir falar em Seu nome, mesmo que não saiba o que deva dizer – aliás, não está dito que, no tempo cert,o Ele se encarregará de pôr as palavras certas na sua boca? (Cfr Lucas 12:12) –.

Quando bem preparados os paradoxos são sempre felizes e luminosos – é o caso. E este é mais um sinal de que GOD-ot está ali, porque está ali o Seu mensageiro, o mesmo que Dele nada sabe, e que nunca O viu; e, porém, o não-saber do que inteiramente não se pode saber, nem ver, é já muito dizer; e, afinal, para quê dizer, se tudo estão tão dito, tão evidente, tão claro?

(Aliás, pode acontecer que toda a peça seja o mais feliz dos paradoxos que observar se possa! Talvez suceda que a impossibilidade de não-dizer DEUS seja a melhor maneira de O dizer e de descalçar tal bota. E mais não sei dizer, que não sou teólogo, nem filósofo, nem dramaturgo, nem crítico; apenas um dorminhoco, perante um exemplo de arte maior – e até, talvez, devesse ficar calado, a contemplar os bosques e as espessuras por onde Ele passou! Devo ainda dizer que foi isto o que desta vez da peça cacei. Possivelmente existiriam em cena mais sinais da presença de Deus, mas eu adormilei, como  se uma nuvem me tivesse coberto a cabeça. Mas para quem tanto se adormilou já não está mal. Ou então, sou eu tentando ordenar racionalmente uma bota que também a mim me custa a descalçar. Não sei. Talvez tenha de ir à missa outra vez!)

VI. NOTA FINAL: No fim da peça impelido saí a correr para a frescura da meia noite. Chegado ao luar dei-me conta de que tinha perdido uma das duas companhias que comigo para dentro levara. Enquanto aguardei por ela pus-me a mirar as caras da multidão que comigo contracenara na plateia: Não vi nenhum padre, nem bispo, nem freira, nem sacristão! Antes vi que 90% da plateia eram jovens com menos de 45 anos; precisamente a faixa etária que há muito decidiu elidir-se, de rasteirinho, das nossas celebrações eucarísticas. No domingo seguinte, em cem pessoas que vieram à missa à minha igreja, 95% tinha mais de 65 anos!

É óbvio que cada um vai à missa que quer, mesmo que o não saiba!

Depois de uma e outra missa, por mim só disse: «Cumprimos o compromisso, só isso. Não somos santos, mas cumprimos o compromisso. Quantas pessoas poderiam dizer o mesmo?».

DECLARAÇÃO FINALÍSSIMA: Quando morrer enterrem-me de pés vazios, sem botas nem sandálias, que descalço eu sou e andei. Ah, mas ponham-me as sandálias junto ao caixão. Não é que precise delas, não; é apenas para que se veja que elas lá estão!

Frei João

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