Jun 24, 2025 | Cultura, Trans(formar)-Se

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

Violência ou Paz: compromisso com a vida ou com a morte?

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Quando olhamos o triste espetáculo das guerras em curso e em expansão, experimentamos um sentimento de impotência face à loucura. E isso deixa-nos literalmente sem palavras. Quando o Papa Paulo VI na sua encíclica “Populorum Progressio” afirmava que “desenvolvimento é o novo nome da paz” certamente  não vislumbrava que passados 58 anos, a humanidade se deparasse com um cenário ainda mais desumano que o da própria II Guerra Mundial. E é assim não só porque as armas são muito mais mortíferas, mas também porque os cenários de guerra se multiplicam sem qualquer razão que não seja o ataque violento a direitos fundamentais da humanidade. Muitas são as guerras de que ninguém fala. No Sudão já é assumido internacionalmente que metade da sua população está à beira da fome. Mas já nos habituámos a ver guerras em África e até parece natural. Há séculos que as guerras em África se relacionam com a existência de recursos naturais. Portanto, trata-se de apropriação indevida de recursos aquilo que explica a guerra em África e, provavelmente, em muitos outros locais do mundo. Enquanto alguns se alimentam e alimentam as guerras civis e os massacres étnicos, os recursos vão sendo explorados sem grande oposição ou vigilância e os povos autóctones são espoliados do seu direito à vida, à paz e ao desenvolvimento.

As guerras interessam a vários “senhores”: à indústria armamentícia em primeiro lugar, já que em ambientes de paz não se justifica o fabrico de armas e como as há já obsoletas é necessário dar-lhe uso para que sejam produzidas novas e mais mortíferas que as anteriores. Mas há uma rede mais complexa em torno da guerra que envolve todos aqueles que de algum modo ganham com o aumento da insegurança mundial: a indústria petrolífera, a indústria química, a indústria farmacêutica, a indústria de nanotecnologia, entre outras, porque tudo o que se torna escasso ou muito procurado aumenta substancialmente de preço, fazendo enriquecer quem detém esses bens ou esse conhecimento. Infelizmente, grande parte dos políticos e militares mundiais são apenas os fantoches destes interesses, limitando-se a agir e a decidir submetidos à sua batuta, ou por medo ou porque os seus países estão numa situação de vulnerabilidade financeira, sem qualquer margem ou coragem para mudar o rumo dos acontecimentos. Além das armas, usa-se ainda, sem qualquer pudor, de várias formas de violência, sem precedentes, a qual é derramada direta e indiretamente sobre todas as nações, e mesmo naquelas que parecem ter alguma paz, as populações vêm agravar-se as suas condições de sobrevivência e limitada a sua liberdade, por falta de autonomia financeira para projetar o futuro.

O desrespeito pela dignidade humana e pelos mais básicos direitos dos mais vulneráveis tornou-se uma estratégia de guerra cujas consequências já não podemos suportar e são as populações, no seu acordar do sono da “indiferença mortal”[1], que neste momento começam a levantar a sua voz contra a indecência de decisões políticas sem qualquer razoabilidade. O desequilíbrio das relações entre os diversos países, as novas alianças económicas e diplomáticas[2] emergentes  e a incapacidade dos decisores políticos de defender, planear e sustentar a paz mostram-nos que não basta o acesso ao conhecimento para garantir maior equidade e justiça e que uma outra forma de governar os povos deve ser encontrada.

O poder do dinheiro, esteja ele nas mãos de grandes multinacionais, como acontece nos regimes capitalistas do mundo ocidental, ou nas mãos do Estado e dos Oligarcas que o alimentam, como acontece nos regimes totalitários tornou-se o poder de dominar as consciências. Um batalhão de cientistas e experts no desenvolvimento de tecnologias de (des)informação e de morte é mobilizado e bem pago para aumentar o poder de causar a morte. Esta é a total perversão do propósito da ciência e da tecnologia que, de atos criativos, vergam a cervis à destruição. É também a total perversão do propósito das tecnologias e da indústria da comunicação, hoje manipuladas pelo forte investimento em marketing feito pelos poderosos deste mundo. Neste campo não se pode falar de ciência com consciência e muito menos de tecnologia ao serviço do bem comum ou da verdade. Pelo contrário, a mentira e a manipulação tornaram-se armas de guerra, uma guerra silenciosa movida contra a mente humana, tornando-a quase incapaz de discernir, de entre a múltipla informação que se propaga por todos os meios disponíveis, onde está a verdade.   A opção pela violência em todas as suas formas, sejam elas mais subtis ou monstruosamente aterradoras só conduz à morte. Mahatma Gandhi dizia que se utilizássemos a lei de talião “olho por olho, dente por dente”, acabaríamos todos cegos e desdentados. Mas os nossos políticos e outros decisores parecem não entender esta simples verdade.

A obra de Immanuel Kant dedicada à Paz Perpétua, publicada em 1795 (há 230 anos) começa na introdução por referir que “os chefes de Estado nunca se saciam da guerra”. O autor, sonhando um mundo onde os seres humanos fossem capazes de resolver as suas diferenças pelo diálogo, preconiza logo na sua cláusula terceira que “os exércitos permanentes devem, com o tempo, desaparecer de todo”, considerando como traiçoeiras todas as formas de incursão de um Estado no espaço vital, social e cultural de outro Estado, e apelidando-as de “estratagemas desonrosos”. Seria esta uma boa obra de leitura obrigatória para os nossos atuais políticos em todo o mundo, pois ajuda a compreender que a paz é uma exigência da própria natureza que nos criou para que pudéssemos viver e só podemos viver se houver paz.

O Papa Francisco, na sua Encíclica Fratelli Tutti, no nº 13, aponta “o fim da consciência histórica” como um dos obstáculos à fraternidade e à amizade social. O impulso de um individualismo sem limites conduz a humanidade a rejeitar as suas raízes e as aprendizagens das gerações anteriores, esquecendo mesmo aquelas que foram aprendizagens saídas do sofrimento causado pelo egoísmo e pela impulsividade individual, que tantas vezes conduziu a mortes atrozes de oprimidos e opressores ao longo da história. O Profeta Isaías alerta para as consequências da maldade e da insensibilidade de uns para com os outros: “Ai daqueles que fazem decretos iníquos e daqueles que escrevem apressadamente sentenças de opressão (…) O que fareis no dia do castigo, quando chegar a tempestade que vem de longe? A quem pedireis auxílio e onde deixareis as vossas riquezas?” (Is 10, 1-3).

Não é essa a história que queremos para nós e para as gerações futuras. Nos Evangelhos e nos ensinamentos de Jesus encontramos as linhas de orientação e as bases para a construção desse mundo que os povos desejam nos quatro cantos do nosso planeta: um mundo de paz e de liberdade para todos. Em primeiro lugar, Jesus afirma que o Reino é dos pobres, dos que choram, dos aflitos, dos mansos, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos que promovem a paz, dos que são perseguidos por causa da justiça. Estes são aqueles que serão chamados filhos de Deus, são aqueles que serão saciados. Efetivamente, ao olhar as imagens da destruição o nosso coração anseia pela justiça, numa enorme aflição que grita da terra e chega até ao coração de Deus e, porque acreditamos que é possível um mundo diferente e melhor, não só sonhamos como somos chamados a construí-lo diariamente com um olhar atento e perscrutador da realidade, recusando a indiferença e a amoralidade do discurso habitual que nos encarcera a mente e o coração. Seguir as bem-aventuranças e ser arauto deste Reino dos pobres implica não só reconhecer a efemeridade dos poderes do tempo presente como anunciar que a única forma de exercer um poder com cheiro de eternidade é servindo os pobres, os desfavorecidos, os vulneráveis não só social e economicamente falando, mas também cultural e mentalmente. A grande esperança deste mundo é seguir Jesus, superando a justiça hipócrita e a lei da vingança, procurando o instalar o serviço ao perdão e a uma paz profunda.  Em segundo lugar, Jesus repudia a lógica da lei de talião, encorajando-nos a dar mais do que aquilo que nos pedem e a amar como o Pai ama. Este é um amor que faz nascer o sol  e cair a chuva sobre bons e maus, sobre justos e injustos. É um amor que não tem lugar nem para o ressentimento, nem para a vingança; um amor que gera inclusão e não exclusão. Por isso, não podemos compactuar com estratégias de exclusão venham elas da direita ou da esquerda  e precisamos de defender a fraternidade humana acima de todos os interesses e poderes. Em terceiro lugar, se a verdadeira forma de autoridade é o serviço, não se devem buscar honrarias humanas. A principal busca deve ser acumular tesouros que a traça e a ferrugem não corroem e que os ladrões não podem assaltar ou roubar, isto é, tesouros que nos abram as portas da eternidade, porque “onde estiver o teu tesouro aí estará o teu coração” (Mt 6, 21). O propósito do poder que temos é ir em busca de uma luz sem ocaso, uma luz que garanta a liberdade fundamental da pessoa. Bem diferente da luta a que assistimos diariamente na transmissão em direto da “banalidade do mal”[3], tão brutal quanto fútil,  da busca do inóspito, do irrisório, do que desaparece, da escuridão que aprisiona. Eis o projeto de libertação e de paz que Cristo viveu e ensinou a viver. Constitui um enorme desafio de  desconstrução do que nos apresentam como valor absoluto, embrulhado de superficialidade, para seguir os caminhos palmilhados pelos que se atreveram a ter na fronte o sinal de Cristo e a romper as barreiras do medo de reconhecer no outro um chamamento ao encontro com o mistério permanente e extasiante de Deus. Nesse “lugar” já não haverá mais dor: “Ninguém agirá mal nem provocará destruição (…), pois a Terra estará cheia do conhecimento do Senhor, tal como as águas enchem o mar” (Is 11, 9).


[1] Expressão utilizada por Konrad Lorenz na sua obra “Os Oito Pecados Mortais da Civilização”, 1974, Moraes Editores, S. Paulo.

[2] Vale a pena estar atentos ao aumento de países que formam o BRICS (aliança diplomática constituída pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas que neste momento engloba muitos mais países).

[3] Ver a obra de Hannah Arendt com o mesmo título.

Helena Castro

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

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