1. Se puder não leia agora; escrevi para daqui um século, ou mais!
2. Na tarde do domingo de Páscoa, já o meu Provincial embicava para o Porto, quando de supetão abriu a porta do carro, saltou como um ginete cá para fora e imperou-me uma pergunta que li como uma ordem:
– Não queres tu ir representar-me, no dia 12 de maio, a Alba de Tormes?
– Que se passa lá nesse dia? – conferências não faço; já sabes! – respondi.
– Não, pá! Tá descansado! – me correspondeu. É o dia confiado à Ordem por ocasião da veneração pública do corpo de Santa Teresa.
Ficou acertado; porém, dizer-lhe que sim, teve mais em conta as vezes em que lhe dissera não – algo que de cada vez muito me custara, mas lá está, cada um é para o que é. Sim, aquele meu sim teve mais a ver com tardios problemas de refluxo de obediência, que com devoção.
Entendamo-nos: devoção à Madre Santa tenho, como sempre tive; a isso de corpos incorruptos, já não! E não fora ter-me ele relembrado uma semana antes da viagem e, alheado como andava, teria ficado em terra…
Fui de véspera. Viagem amena de quatro horas. Jantei na Plaza Mayor de Salamanca, por recomendação sua:
– Para não dares muito trabalho como hóspede.
Dormi sereno e descansadamente na gentil casa que me recebeu. E para não dar muito trabalho fui desjuar a Alba; evitando, porém, desnecessárias deselegâncias, antes de sair, aceitei um pequenino naco de tortilha – «con pan», insistiu meu afável agasalhadeiro. Dando uns passos de Anás para Caifás e não encontrando uma mísera pastelaria, em Alba voltei a pequeno-almoçar tortilha, concluindo que por Castela não sabem preparar o pequeno almoço – a alternativa era jamón ibérico e embutidos, ou com cerveja, ou com copa de viño; escolhi água. Também havia dulces de aparência revelha e rija e com abundante pó de mosca – como é óbvio não provei.
3. Ocupando generosas parcelas do Carmelo local, visitei o Museu Carmus – vale bem uma visita em qualquer altura do ano, mesmo que para lá se viaje de propósito. Apesar da afluência, o atendimento foi sereno, atento, primoroso. Longe de um Louvre, também não é nenhuma arrecadação. Há riqueza, organização, lógica e conta uma história. Vale a pena, enfim.
4. Entrei depois na basílica da Anunciação de Nossa Senhora do Carmo, onde, quieto e calado, o pequenino corpo da Andarilha Santa se oferecia à veneração pública. O ambiente estava muito bem composto – além de certa curiosidade bem temperada, respirava-se oração, espiritualidade, paz e serenidade e alguma natural e aceitável confusão; os voluntários eram atentos, receptivos e acolhedores – amavam a causa, notava-se. Pareceram-me seculares carmelitas.
E agora, como se ledo e quieto lá estivera, aqui vão os meus pensamentos, algo heterodoxos, consinto, pelo que se alguém julga poder ofender-se, é melhor não continuar a ler:
4.1 Ao mirar o esquife vi tudo normal, tudo organizado com delicadeza, bom gosto, com leves toques de austero requinte e de festa. Num pequeno e bem proporcionado estrado repousava ele. Uma coroa de pequenininhas flores branquinhas rodeava o ataúde, gritando-me:
– Não está aqui, Ressuscitou! Aleluia! João, não está aqui! Ela não está aqui!
Ela não estava ali. Sim, eu vi que não estava. Mas como eu não ia em busca dum selo, não me estranhou tal grito, que mais agradeci, cantando a solo, para meus adentros, o Te Deum laudamus.
4.2. E em cantando, logo me lembrei do Duque de Gândia, D. Francisco de Bórgia e Aragão, vice-rei da Catalunha, gentil homem e nobre grande do reino de Castela. Nos inícios de maio de 1539 coube-lhe escoltar o corpo da imperatriz consorte, Isabel de Portugal, falecida em Toledo, após ter dado à luz um menino morto. O féretro de Dona Isabel filha de El-rei D. Manuel I de Portugal e esposa do Imperador Carlos V de Castela haveria de ser conduzido a seu túmulo na Capela Real de Granada, cidade onde mais fora feliz, e na qual repousava, havia trinta e cinco anos, sua avó materna, Isabel, a Católica. Encontrando-se à data, precisamente, em Granada, prostrado e impedido pelo luto e pela dor tamanha da morte da amada, o valoroso Imperador vencedor de tantas batalhas, mostrou-se incapaz de acompanhar o cortejo fúnebre da extinta esposa, e acabou enclausurando-se num mosteiro, onde ficou horas e horas a chorar e a rezar diante dum retrato da defunta, assaz bela, sensível, inteligente e culta, nada e criada no esplendor da mais rica corte europeia do seu tempo, Lisboa.
Havia falecido Dona Isabel no primeiro de maio, pelo que o soberano encarregou o Duque de Gândia, devoto da airosa Imperatriz, de a conduzir até si a fim de a sepultar segundo as merecidas honras régias. Ao tempo de fazer a entrega do corpo, abriram o caixão de chumbo. Descobriram-lhe o rosto. Estava seco e desfigurado, causando espanto e horror devido ao elevado estado de putrefacção. Coube naturalmente ao Duque testificar perante o escrivão o reconhecimento do corpo da Imperatriz, que ao vê-lo tão «trocado e feio» logo afirmou não ser possível reconhecê-lo: o que, sim, pôde jurar foi que, conforme toda a diligência e todo o cuidado postos em trazer e guardar o corpo da Imperatriz, tinha por certo ser aquele, não podendo ser outro. E logo dali se desviraram os demais e pronto se afastaram deste «espectáculo que lhes causava espanto, lástima e mau cheiro». Desviraram-se todos, excepto o vice-rei da Catalunha, que terá exclamado «nunca mais servir a senhor que possa morrer», virando-se, isso sim, de ora em diante, unicamente, para o serviço divino, pelo que ao enviuvar, alguns tempos depois, de Dona Leonor, dama portuguesa e aia bela e igualmente devota da serena Imperatriz, finalmente optou pela vida religiosa, ingressando na Companhia de Jesus.
4.3. Encontra-se mumificado o corpo da Santa Teresa – digo eu que não sou médico. E tendo passado 443 anos da sua morte, já ninguém pode afirmar que o seu rosto se encontre trocado, que há muito assim permanece; já, sim, está tão feio que ao terem-na pintado «feia e engelhada», tal como ela muito se queixou, afinal a tinham retratado ponderosamente bela. Pelo que se alguém vai à espera de por ele erguer monumento à beleza ou à devoção, perde-as aqui.
4.4. Quando minha mãe morrer dar-lhe ei um beijo na face fria, porque ela me alimentou de leite e de beijos, de garra indómita e pão amassado por seus braços, de ousadia de céu e de fé na Igreja, de sonho e de oração. Dar-lhe-ei, sim, que ela agora me puxa pelo pescoço para si e me dá mil. Dar-lhe-ei um, pois, com devoção e gratidão. No entanto, à de Ávila, não, por tal ser impedido por sarcófago de vidro que mais a protegia a ela que a nós. Por isso, nem longe nem perto, na hora que antecedeu a solene Eucaristia, fiquei ali diante, rezando e contemplando-lhe o rosto outrora formoso, tão formoso que, embora pintada em idade madura, ao ver-se ela retratada, pronto desdenhou do pintor «poco diestro»:
– Deus te perdoe, Fray Juan, que me pintaste velha e engelhada!
Não era verdade que a tivessem pintado feia, nem era desplante seu, mas uma graça dita de coração a rir, por uma freira que não sendo rainha nem imperatriz se deixara pintar por obediência, além de ser verdade que era bela e amada pelo Rei dos reis. E ela sabia-o, e estimava sê-lo e até o ensinava ser. Fica-nos, por isso, em herança, o seu bom e sereno humor de mulher bela, inteligente e santa.
4.5. A certa altura, e porque a Missa não acabava de começar, vieram ali buscar-me, porque eu «representava a província de Portugal» e não sabia caber-me um trono de vice-rei que não podia aceitar. Fui.
Ao ladear o Provincial da Santa sussurrei-lhe ser aquele corpo «bem mais chico do que jamais pensaria!»; ao que ele, calmo, me contestou:
– Oh, se soubesses o histórico do seu piedoso esquartejamento!
Foi então que caí em mim e me lembrei que uma mão havia peregrinado para Lisboa, e agora mora em Ronda, diocese de Málaga, e um outro braço e o coração igualmente se veneram, mas à parte, naquela mesma basílica da Anunciação. E pelo meio do nevoeiro dos séculos napoleões houveram de roubar e levar o venerando corpo para Paris, onde mais impiamente o retalharam pelo que, mais libra menos libra, ou centímetro, em Alba estará bem menos de meio – coisa que só o tribunal eclesiástico e os científicos puderam comprovar e testificar.
4.6. De todo em todo, porém, o rosto via-se-lhe da cor que ao feltro castanho se dá, mas que de tão inesperado não esperamos que assim nos seja dado a venerar – mesmo que apenas como mero resto e humilde sinal visível da presença de Deus invisível. Também se via um pé, ou pelo menos as sandálias. Se do pé não tenho a certeza, das sandálias sim. E também pude verificar não serem da Adidas, como uma de certo Arcebispo Santo seu contemporâneo que numa catedral ainda hoje se dá a beijar.
4.7. Da familiar Eucaristia solene retirei que foi piedosa e santa, sem desmerecer das que a Santa rezou e com contemplativa vida santa tanto honrou e serviu. Presidiu naturalmente o Provincial de Santa Teresa, Paco Oreja que, honra lhe seja feita, nunca puxou para o fantástico e o mirabolante, mas para a maravilha da Boa Nova de Jesus encantadoramente encarnada pela Mãe de quantos ali nos encontrávamos: frades, monjas e leigos – uma mãe zelosa que velou pela sua casa, que comprava e discutia negócios ao mesmo tempo que vivia e escrevia profundamente mergulhada na experiência de Deus!
5. Dessa homilia teresiana, pela inteligência, delicadeza e profundidade doutrinal, transcrevo algumas passagens:
5.1. «Peregrinar ao sepulcro [da Santa Madre], aquilo que hoje fazemos, é caminhar para um lugar santo; aqui talvez nos sintamos convidados a fazer a sua mesma experiência de santidade»;
5.2. «A veneração das relíquias do corpo de Santa Teresa não nos deve distrair, mas aproximar-nos de Jesus Cristo, de Quem elas estavam saciadas. As relíquias são apenas sinais pobres e frágeis do que foi o seu corpo. Porém, através destes sinais Deus quer manifestar-nos a sua presença, o seu poder e a sua glória. Estas relíquias manifestam ainda a nossa fé na Ressurreição; estes pobres vestígios são apenas sinais sensíveis da nossa “futura transfiguração corporal”».
5.3. «Louvamo-la como mestra que “nos ensinou o caminho da cristã e da divina perfeição”, ela que era conhecida por com seus escritos animar a coragem dos leitores pelo “caminho de virtude” e os “incendiar no amor de Deus”»;
5.4. «Aqui, diante do corpo da nossa Santa Madre (muito mais além dos estudos científicos sobre o seu físico) devemos aprender a por os olhos nos seus escritos, suas relíquias vivas, que é como que pô-los no “interior da sua alma, folheando quanto nela existe nas mais íntimas profundidades”»;
5.5. «Tal foi o propósito da Santa ao fundar e promover a família dos Descalços: cuidar e promover, conjuntamente, a vocação contemplativa e a apostólica do Carmelo, já anteriormente renovado entre as monjas; ajudar a Igreja nas suas necessidades, enfrentando, por meio [do trabalho] dos religiosos que vivessem o mesmo espírito, com especiais tarefas apostólicas, colaborando, ao mesmo tempo, no apostolado missionário, através da oração e da formação no trato com Deus, segundo o estilo do zelo teresiano»;
5.6. «Hoje [a Santa Madre] convida-nos a não conservarmos uma herança religiosa sem nos perguntarmos como poderemos continuar a ser consagrados inspirados por ela, a Mãe.»;
5.7. «[Mantenhamos viva] esta intuição teresiana que nos ensina a construir pequenas fraternidades evangélicas, onde se vive uma especial interioridade de fé, esperança e caridade, na dupla expressão da oração litúrgica e pessoal».
(E se atrás fica o escrito a 19 de maio; o que segue, foi-o na última semana de julho.)
6. Sob borrasca intensa, regressei a casa passando, a desmão, por meio de Zamora onde, a 5 de outubro de 1143, abraçando-se, dois primos dividindo um, fizeram nascer dois reinos. E não querendo eu, tal como nosso primeiro rei, ser castelhano, rápido desci do velho para o mais novo, certo de que vinha bem mais amigo forte de Deus.
Muito depois daquela peregrinação jubilar, onde vi que os mais enamorados se emocionavam e choravam, hei tido notícia de lá também haverem peregrinado bispos e vigários gerais, cabidos e priores gerais, paróquias, colégios e mosteiros, académicos e militares, cientistas e gentis homens, políticos e arraia miúda. Durante um mês, por lá tudo decorreu sereno e em amena paz festiva, até que o prelado do lugar, Salamanca, deu o dito por não dito e a pintura debotou. José Luis Retana lá terá as suas razões quando criticou a veneranda exposição, afirmando que ela «apenas serve para encorajar a curiosidade mórbida das pessoas». O estranho é que nisso não tenha pensado Sua Dignidade quando assinou o pedido ao Papa Francisco para que ela se concretizasse, certamente para aumento da fé, do fervor e da santidade da sua igreja particular; mas é de crer, no mínimo, que por linhas tortas lá escreve Deus seus obscuros desígnios.
O certo é que tendo a Santa Madre morrido há 443 anos, esta foi apenas a terceira vez que os restos do seu corpo foram expostos à veneração; as outras duas aconteceram nos anos de 1760 e 1914; sendo que a primeira delas, só por uma hora e em modo privado.
Cruzando a fronteira ao anoitecer vínhamos a cantar porque, cansados, turrávamos de sono, incluindo quem na mão trazia a rodinha do carro! Enquanto cantarolávamos, só me ocorria a ideia de que naquele dia, sem relutância, se dera mais valor às virtudes de Santa Teresa que à morbidez da curiosidade, visto que só as virtudes são imitáveis. E isto sem ignorar que milagres têm sucedido em quem tem contemplado aqueles pobres vestígios de mulher fiel, cujo corpo foi incandescido pelo Espírito Santo e, decididamente, a tornou ousada e determinada na tarefa de salvar almas.
Ao chegar a casa a meu corpo dei tardio repouso. No limiar da terra dos sonhos ainda pude lembrar que, a seu tempo, diante daquela mulher de quem só havíamos lobrigado restos e cinza, poderosos bispos haviam ajoelhado implorando-lhe a bênção, e que ela, afinal, frutificara a cem por um, mesmo se cercada e apoucada pela censura social e eclesial de seus dias, embora registando-se, ao mesmo tempo e em contrapeso, ter sido caninamente apoiada por minudente punhado de fidelíssimos amigos e seguidores. Todavia, nos tempos que agora giram, voam e nos fazem voar, já ninguém bem sabe dizer os récios e arrojados trabalhos pelos quais teve ela de passar sem, contudo, nunca destemperar, sem nunca vacilar, porque quando se trabalha por Deus o que mais cabe é confiar! Enfim, esta mulher de entranhável divina experiência pessoal ensinou-nos, por fim, que quando mais santos mais afáveis e mais empáticos conversadores, nunca ariscos ou tacanhos – o que maiormente válido é para nosso hoje. Haja, pois, de se notar que, ao invés do seu, em nosso solo, este é o tempo em que as adesões ao Evangelho se volveram residuais, e que em muito vão em aumento os que já não sabem ler nem distinguir a porta duma igreja da de um museu, quanto mais os Actos dos Apóstolos de um jornal! Eis, pois, a razão porque nos deveríamos proibir de sermos medrosos e, defensivos e bisonhos, nos encastelarmos atrás duma portaria.
Vivera Teresa hoje e o seu celebrado coração comunicaria vida, fosse no meio de júbilo e narcisos, fosse rodeado de árido deserto; e não se segregaria como jamais se segregou. Empática, expandir-se-ia mais e mais, dar-se-ia gentil e cordialmente sem descanso, sem muros, sem filtros, agradecendo a vida, abraçando meninos e abençoando gentes de todas cores e lugares – e, se necessário fora, tomaria a pandeireta na mão para connosco bailar uma jota. Foi, aliás, esse enamorado coração pulsante, aberto, alegre e santo, feito imensa planura de trigo loiro sem valas nem muralhas, e não o seu corpo de feltro; foi o inconsumível Fogo de sua interioridade e a generosa alegria da sua fidelidade a Deus e à Humanidade que naquele dia mais me levaram a ajoelhar em Alba ao lado das mansas e frescas correntes do Tormes – afinal, é nesta hora que nos cabe assumir que somos alicerces de futuro. Mas em que futuro viveremos ou construiremos se, por ora, quase só nos toca atestar que o tronco de Jessé se carcome e erode em cinzas qual corpo que fogo foi, precisamente nestes dias cuja glória rápido desmaia e se esvai e o fulgor do rebento novo tanto demora que parece estar ainda por anunciar-se?


