Teólogo. Professor de Educação Especial

Cruz: do escândalo à Salvação! [1]

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“A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus.” (1 Cor 1, 18)[2].

Estas são as palavras de um convertido ao Cristianismo – Paulo, apóstolo dos gentios. Nesse tempo não muito longínquo, a cruz era sinal de ignomínia, de punição, mas com a ressurreição de Jesus, passou a ser vista como vitória e salvação.

Eis o escândalo!

“Escreveu Goethe:
A Cruz ergue-se cingida de rosas
Quem uniu a Cruz e as Rosas?
Avoluma-se a coroa
Para cobrir de delicadeza o tosco Lenho.

Estes versos de Goethe denunciam a alienação da Cruz. Todavia, é o sinal da vitória, o distintivo de ordens e honorificências. Vê-se no cimo das montanhas e das torres de igreja; ao peito do Cardeal Richelieu e do Führer nazista; ao pescoço do missionário e do nudista; à frente das procissões populares e das rusgas do Ku-Klux-Klan”[3]. Também é verdade que à sua sombra se praticaram as maiores atrocidades e se viveu a vida mais dissoluta[4].

Para os Judeus, a cruz é escândalo pois possui conotação negativa devido às referências bíblicas e citações de Flávio Josefo[5] que expõe a repulsa que os judeus tinham a quem era morto desta forma. O autor defende que este tipo de punição era destinado aos piores criminosos, traidores de seu povo. Desse modo, por parte dos romanos, Jesus é executado como um subversivo, um rebelde que ameaçava a ordem política estabelecida; por parte dos judeus, sobretudo dos saduceus de Jerusalém, Jesus foi considerado uma ameaça aos interesses ligados ao Templo e condenado por ter enfrentado e subvertido as leis religiosas judaicas.

Não é fácil aceitar o mistério da Cruz. A perspetiva de um Messias que, depois de ter sido humilhado, termina os seus dias numa Cruz, escandalizava não só os Judeus mas também o entendimento de Pedro (Mt 16, 21-23) e os Doze simplesmente não a compreendiam (Lc 9, 45; Lc 18, 30-34). Até o coração de Maria, identificado com o do seu Filho, também O não compreendia, mas guardava tudo no seu coração (Lc 2, 48-51). Não imagino o turbilhão de emoções quando O vê na Cruz (Jo 19, 25; Mt 27, 55-56).

Eis a Salvação!

O tempo pascal prolonga-se até ao Pentecostes e durante esse tempo, na sua vivência festiva do mistério pascal pelo menos em certas localidades, onde a Visita Pascal é calorosamente acolhida em casa, entre família, amigos e vizinhos e à mesa reinam o cordeiro, folar, pão-de-ló, a troca de amêndoas nas suas mais variadas apresentações, sem esquecer os ovos e os coelhinhos de chocolate, que eu, sorrateiramente, vou fanando e deglutindo com prazer, também é verdade que há canais televisivos e pessoas que vão postando nas redes sociais este momento expressivo do triunfo pascal do Crucificado-Ressuscitado.

A Cruz que visita a casa onde me encontro vem engalanada de flores[6], numa afirmação expressiva do triunfo pascal do Crucificado-Ressuscitado, e exala um perfume agradável e duradouro. Será ainda um resquício do perfume que lavou os pés de Jesus? (Jo 12, 3)

Na Cruz, Jesus abre uma nova forma de viver: o caminho do perdão, da paciência, do amor e da esperança.

No Domingo de Páscoa (20/4/2025) o papa Francisco fez sua última aparição pública, no balcão central da basílica de São Pedro para dar a bênção apostólica Urbi et Orbi à multidão de peregrinos da praça do vaticano. Na sua última mensagem disse: “Sim, a ressurreição de Jesus é o fundamento da esperança: a partir deste acontecimento, ter esperança já não é uma ilusão. Não! Graças a Cristo crucificado e ressuscitado, a esperança não engana! Spes non confundit! (Rm 5, 5). E não se trata duma esperança evasiva, mas comprometida; não é alienante, mas responsabilizadora”.

“O gesto da cruz, o gesto dos braços estendidos, é um gesto de abraço. Na cruz Jesus abraça o mundo inteiro. Abraça as nossas contradições. O gesto do abraço não é só um gesto de amor, mas também um gesto de beleza.

Em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós Se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (Isaías 2, 2-4; Miqueias 4, 1-3)”[7].

A cruz representa a libertação de todo o jugo do pecado. Abre-nos a porta da comunhão e da reconciliação com Deus através do perfeito sacrifício de Cristo.

Foi esta riqueza paradoxa que os meus pais me ensinaram, à sua maneira, e também as minhas circunstâncias, sem esquecer as aulas enriquecedoras e as vivências dos alunos, pois com eles, com a sua história de vida, aprendo e aprofundo este sentido da Cruz vazia, mas plena de Vida, de Luz (Jo 8, 12) e com eles vivo a aprendizagem dos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) em que caminhamos juntos e me deixo encontrar por Aquele que nunca nos deixa sós ou vergados ao peso de fracassos e desilusões mas que me deixo abrir a minha inteligência ao plano de Deus que vai muito além das lógicas do mundo[8].

“Na cruz de Cristo, está todo o amor de Deus, a sua imensa misericórdia. E este é um amor em que podemos confiar, em que podemos crer. Queridos jovens, confiemos em Jesus, abandonemo-nos totalmente a Ele. Só em Cristo morto e ressuscitado encontramos salvação e redenção. Com Ele, o mal, o sofrimento e a morte não têm a última palavra, porque Ele dá-nos a esperança e a vida: transformou a cruz, de instrumento de ódio, de derrota, de morte, em sinal de amor, de vitória e de vida.”[9] “Quem repousa no coração de Cristo aprende a amar com liberdade. Um amor que não exige retorno. Que não mede o gesto. Que se oferece inteiro” (DN[10] 45).

Por isso, os católicos orgulham-se de ter consigo e/ou nas suas casas a Cruz, vazia ou com o Crucificado. Este paradoxo inefável de sofrimento, de salvação e de silêncio, traz no íntimo da alma uma misteriosa e fortíssima alegria, uma imorredoura esperança, uma enorme riqueza interior e é tal esta riqueza, que o Papa São João Paulo II a entregou aos jovens, pois “A cruz é, por excelência, o símbolo da Jornada Mundial da Juventude. A cruz de madeira, hoje conhecida como a «Cruz da Jornada Mundial da Juventude» foi entregue pelo Papa São João Paulo II aos jovens no final das celebrações do Ano Santo da Redenção, em 1984.”[11]

Leituras da Cruz

“Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras” e Jesus, muito antes do Sermão da Sexagésima do Padre António Vieira, aplicou esta máxima na Sua vida, na Cruz, onde nos abre todos os nossos sentidos e entendimento.

A cruz remete-nos para o horizonte, relação com quem está ao nosso lado, mas também nos alerta para a verticalidade da vida: para cima, para Deus, e para baixo, para aquele que está ainda mais debilitado; para cima, para Deus, através do Seu sacrifício, de onde brota o Amor; para baixo, para nós, libertando-nos do jugo do pecado, para deixarmos fluir a comunhão, a reconciliação, a atenção de uns para com os outros, à Sua imagem.

O fato de elevar o nosso olhar não nos deve causar medo, mas gratidão, porque tal elevação é a medida do amor com a qual Deus ama os seus filhos no Filho.

Vejamos o Seu lado aberto, Suas mãos e pés perfurados, Sua cabeça e Seu corpo em ferida.

Esta imagem de Jesus na Cruz, este exemplo último, traz não só a morte de Jesus, mas também a fragilidade “Quando o iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com a cruz, para a levar atrás de Jesus” (Lc 23, 26); a tentação “Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito” (Lc 23, 35); o perdão “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23, 34); o comprometimento “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43); o amparo “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19, 25-27); a dúvida “Por que me desamparaste” (Mt 27, 46); a necessidade fisiológica “Tenho sede” (Jo 19, 28); e a entrega, a necessidade de ir até ao fim, “Está consumado” (Jo 19, 30), “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Certamente que quem busca Deus passará por esta Cruz. “Ó Senhor, o caminho da Cruz é o que reservais aos vossos amados!”[12]. Todavia, há que não ter medo, pois “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la” (Lc 9, 23-24). E o Cristão responde com a sua vida pois “Unido a Vós estou, Senhor, e a vossa mão me serve de amparo” (Sl 62, 9), pois a Vossa Cruz converte, nos leva a bater no peito (Lc 23, 48).

“Há feridas que, aceites, se tornam fonte. Há silêncios que, habitados, se tornam resposta. Quando a alma é atingida pelo Amor e consente, o que brota já não é grito, mas melodia. Uma melodia interior, feita de fidelidade e memória”[13].

Festa da Exaltação da Santa Cruz

No dia 14 de Setembro celebra-se a Exaltação da Santa Cruz, o Amor de Deus que se manifesta. Eis um pouco da sua história.

“Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

Adoremos nós também, com amor, […] a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida”[14].

A cruz, como instrumento de tortura, foi proibida por Constantino em 320.

Esta Festa a 14 de setembro conservou-se nos documentos. Contudo, na Liturgia andou muito lentamente e só na reforma litúrgica pós-conciliar é que se restabeleceu a sua importância nesse dia.

“Mesmo sendo Deus, Cristo humilhou-se, fazendo-se servo. Eis a exaltação da Cruz de Jesus!” (Papa Francisco).[15]

Desafios

Mais do que escrever ou descrever sobre a Cruz, deixo a quem me lê, vários desafios:

  • Dos vários santos carmelitas, escolher um, selecionar um poema ou trecho, ler e deixar-se envolver. Tomo a liberdade de sugerir o poema Madrugada de Páscoa de Edith Stein;
  • Contemplar uma cruz, com Cristo crucificado ou vazia. Ouso escolher o quadro abstrato em pintura acrílica ‘Easter Cross’ de Lisa Fontaine[16];
  • Fazer a leitura da análise iconográfica de ‘A Crucifixão’, de Andrea Mantegna (1431-1506), que se encontra exposta no Museu do Louvre, em Paris, a partir do guia digital[17];
  • Ouvir a mensagem do Santo Padre do dia 01 de Abril de 2024[18].

Em suma

Há muitas formas de estarmos na vida e uma delas é assumirmos a Verdade, sem desculpas e justificações, dando-nos conta de que precisamos de Deus e dos outros, não porque somos limitados, finitos (uma inquestionável realidade), mas porque continuamente somos chamados a corrigirmo-nos e a aperfeiçoarmo-nos, voltados para Deus, pedindo-Lhe constantemente que nos ajude a progredir e nos faça crescer como seres humanos. É esta forma de viver, na humildade e na abertura a Deus e aos outros, que Jesus nos convida sempre a adotar, por mais que a Noite seja escura[19], pois Ele é mais bem amável, mais belo, mais amante do que geralmente pensamos[20].

Tudo tão simples. Basta olhar… de cima… de baixo… de frente… de trás… Basta olhar. Sem juízos. Com humildade. A exemplo de Jesus[21]. Como um dia escreveu o Pe. Carlos Rodrigues da diocese de Vila Real no seu ‘mural digital’: “E eis que a Cruz é sinal de Esperança. Ele [Jesus] ensina onde colocar o teu espírito quando estiveres de mãos pregadas nas cruzes da vida… ensina a colocares-te SÓ nas MÃOS do PAI”.

A Cruz é o caminho do perdão, da paciência, do amor e da esperança.

E para terminar, despeço-me com um poema de Verónica Parente que poderá ser um subsídio para a contemplação da Cruz no dia 14 de Setembro.

CADA VIDA, CADA HORA

ó Árvore da vida,
Tu dás-te totalmente a nós!
e que fazemos nós, por Ti, ó Árvore?
(…)
– que saibamos subir contigo, ó cruz, à cruz,
e para sempre viver-Te, viver de amor,
viver a Tua vida graças à Tua
morte e ressurreição,
morrer cada vida em cada hora,
para que nasçamos para a autêntica Vida.

Verónica Parente


[1] A imagem foi retirada de https://pt.pinterest.com/pin/crafts–3870349669695622/

[2] Para as passagens bíblicas utilizei https://paroquias.org/biblia/

[3] FERREIRA, J. de Freitas – Revista Didaskalia, n.º XIV, 1984.

[4] Consultar https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/historia-da-crucificacao-punicao-mais-brutal-da-roma-antiga.phtml

[5] SCHIAVO, L. – A vítima maldita: a perigosa inversão que fez da cruz a “árvore da vida”. In: NOGUEIRA, P. A. S; MACHADO, J. (org). Morte e ressurreição de Jesus: reconstrução e hermenêutica. Um debate com Jhon Dominic Crossan. São Paulo: Paulinas, 2009.

[6] Gerberas, rosas, margaridas, orquídeas, lírios e outras flores da época.

[7] MAGALHÃES, A. de – 31 de março de 2019, in Serra do Pilar.

[8] Adaptado de https://www.avozdetrasosmontes.pt/pascoa-centro-da-nossa-fe-e-razao-da-nossa-esperanca/?utm_source=facebook&utm_medium=jetpack_social&fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTEAAR7P8wBQIlhkfZax2rAkH7p0P5wAMrTJXlVNr4O32ShQtm15YdRKiWyx_7S4Uw_aem_iPibBCMB3TQ1HtGpEoQ-Zg

[9] Papa Francisco, 2013 JMJ Rio de Janeiro (Via Sacra).

[10] Encíclica Dilexit Nos – Papa Francisco.

[11] In Encontro Ponto de Partida do Projeto Say Yes. Acerca deste Projeto, pode consultar https://catequese.patriarcado-lisboa.pt/site/docs/2022269o_projeto_say_yes.pdf

[12] Santa Teresa de Ávila, Caminho de perfeição, 18, 1.

[13] In https://claustro.carmelitas.pt/2025/06/do-voo-a-ferida-memoria-de-um-repouso/?utm_source=mailpoet&utm_medium=email&utm_source_platform=mailpoet

[14] António Couto, in https://mesadepalavras.wordpress.com/?s=Em+vez+de+%C3%A0+nossa+viol%C3%AAncia+oferecer+mais+viol%C3%AAncia.

[15] In https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/exaltacao-da-santa-cruz.html

[16] https://www.pinterest.pt/pin/3870349669695622/

[17] https://guiadolouvre.com/a-crucificacao-analise-iconografica-da-obra/

[18] https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2024-04/regina-caeli-papa-francisco-01-04-24.html

[19] Ouvir ou ler o poema de São João da Cruz “Noite Escura”.

[20] Santa Teresa dos Andes.

[21] Ler a “Oração da Humildade” de Santa Teresinha do Menino Jesus.

Filipe Baio

Teólogo. Professor de Educação Especial

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